Não sei se todos lembram que o Ministério Internacional da Restauração, uma facção auto-multiplicadora que atua em igrejas cristãs (ou quase), vem propagando há alguns anos uma suposta profecia que diz “Em 2008, o Brasil será outro. Em 2010, o Brasil aos Teus pés”. Pois é. Estamos em 2008. Após o carnaval (já que este país só parece funcionar após esta festa maldita) convido a todos a observarem cuidadosamente. Se até as 23h59min do dia 31 de dezembro de 2008 este país não for outro estaremos diante de uma falsa profecia. E não adiantará espernear. No dia seguinte, vejam-se com Deus os profetas que a proferiram.
Armazenem os textos proféticos para posterior conferência:
O Tempo da Profecia Chegou
2008: O Brasil será outro
Feliz 2008
Estudo para células sobre 2008: o Brasil será outro
No primeiro dos textos acima indicados, uma coisa me chamou muita atenção. Trata-se de um comentário a respeito de política. Fez-me pensar muito. No final deste texto tiro uma conclusão a respeito. Deleitem-se:
Muitos pensam e dizem que política não é para crente e isso demonstra a falta de conhecimento da Bíblia por parte de muitos cristãos. A Palavra declara que há um Rei sobre nós: Jesus Cristo, o Rei dos reis e o Senhor dos senhores. Logo, a visão do Reino é monárquica e por ser uma visão de monarquia, há reis e príncipes. O Rei reina e os príncipes governam.
Agora o Reino de Deus é uma monarquia. Caramba. Como não pensamos nisso antes? Por isso há generais espirituais nomeados diretamente por Deus, nobreza cheia de títulos (bispo, apóstolo… talvez apareçam barões, condes e duques). Obviamente, já que os cristãos são “filhos do Rei”, os príncipes que governam são os neo-neo-neoevangélicos. E cada apóstolo terá seu país particular, provavelmente.
Atenção, teólogos! Está definitivamente explicada a queda de Lúcifer. A teoria anterior deve ser descartada. Ele foi expulso do céu porque queria proclamar a república!
Falando sério, o erro da “Visão” é básico: confundir o Reino de Deus, termo usado por Jesus para uma realidade espiritual, com um reino terreno. É o mesmo erro que boa parte dos judeus cometeu, rejeitando a mensagem de Jesus, que falava de um reino transcendente, não de um império político, militarmente poderoso. Por não satisfazer a visão de rei implacável e conquistador que se esperava do Messias, Jesus teve uma morte deveras cruel. Por isso tenho medo de quem confunde o Reino de Deus com um governo humano. Pode ser que eles tentem crucificar Jesus de novo em sua segunda vinda.
O texto continua se superando:
A política nasceu como uma ordem de Deus (Gn 1:26). (grifo meu)
Eu esfreguei meus olhos para conferir se eu estava lendo isto mesmo. Se você não está vendo o absurdo, o texto referido diz o seguinte:
E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo réptil que se move sobre a terra. (Gênesis 1:26)
Por misericórdia. Algum ser vivo nesse planeta consegue ver neste texto alguma referência à criação da política? Exceto se, através de metáfora, peixes, aves, gado e “todo réptil” representarem o eleitorado em geral, o que seria condizente com a inteligência política deste país (créditos da piada ao meu pai), não há lavadeiras de roupa suficientes no mundo para torcer este texto ao nível pretendido. É uma interpretação descarada, desmesuradamente forçada e absurda.
Continuando:
O Profeta Samuel é apresentado como o Profeta que trouxe o avivamento político. Ele tirou Saul e colocou Davi. Eu creio que nossa geração é similar a geração de Samuel e que tiraremos os “Sauls” dos tronos para dar lugar aos “Davis”, homens segundo o coração de Deus. Essa é uma das nossas funções no Reino.
Esta é outra interpretação forçada do texto. Não há avivamento político relatado nos livros de Samuel. Qualquer um pode conferir na Bíblia, em I Samuel, a incorreção propagada neste parágrafo. Saul não foi destituído diretamente, nem por Samuel, nem por Deus. Samuel morreu quando Saul ainda era rei, aliás. O fato é que Saul suicidou-se. É certo que Samuel, por ordem divina, havia ungido Davi, mas este só subiu ao trono após o suicídio do rei. É certo também que Deus condenara o reinado de Saul, mas por falhas morais, não políticas. O problema de Saul era de caráter. Portanto, qualquer movimento promovido por Deus no trono de Israel foi por motivos espirituais e morais. Avivamento político é balela.
Inclusive os teólogos da política que defenderam esta idéia parecem se esquecer que, segundo a Bíblia, Deus nunca tinha planejado um rei pra Israel antes que eles pedissem (I Sm 8). Deus não parece ter preferência por formas de governo. O rei, além disso, só foi concedido após advertências de Samuel e insistências do povo. A advertência de Deus a respeito dos reis que reinariam sobre Israel está no capítulo referido. Tenho medo desses “Davis” que o MIR quer por nos “tronos” do Brasil.
E ainda tem mais:
O rei Davi era um Pastor. Precisamos de um governante na Nação que seja um verdadeiro Pastor.
Continuando o raciocínio, precisamos de um presidente que toque harpa, mate leões, tenha boa pontaria com fundas…
Esse atentado lógico parece ter a intenção de dizer que o próximo chefe do executivo deve ser um líder evangélico. Espero que pouca gente entre nessa conversa.
Haverá um dia que o nosso governante saudará a Nação com ‘graça e paz do Deus Todo Poderoso’ e abençoará o Brasil em nome de Jesus. Creio que nossa geração terá um presidente cheio do Espírito Santo e para isso não basta ser apenas crente, deve ser ungido para essa missão específica.
Espero que isto não aconteça. O Brasil, graças a Deus, é um país laico, não-confessional, sem religião oficial. O presidente, mesmo cristão, deve se lembrar que é presidente do país, de todos os brasileiros, não apenas dos cristãos. Esta idéia de um presidente abençoando o Brasil é contra a organização e as leis pátrias. E isto me leva a uma teoria, que é a conclusão de que tinha falado no início do texto.
A teoria parte das seguintes premissas, conforme o exposto:
1. O MIR acredita que o reino de Deus é monárquico.
2. O MIR acredita que os crentes sob sua jurisdição devem tirar os “Sauls” e colocar os “Davis”, isto é, tirar os atuais governantes e colocar outros que lhes interessem.
3. O governante do Brasil deve ser um pastor, confessionado e abençoador, ferindo princípios, constituição e leis.
4. “Em 2008, o Brasil será outro. Em 2010, o Brasil aos Teus pés”.
A conclusão é a seguinte:
O MIR quer lançar uma revolução, dar um golpe de estado em 2008, dividindo o Brasil em dois reinos, instaurar uma monarquia em cada, e, em 2010, coroar René Terra Nova rei do Brasil do Norte (ou Israel do Oeste) e Silas Malafaia rei do Brasil do Sul (ou Nova Judá).
Agora todos dirão que estou louco. Silas Malafaia não é aquele pastor que espumava a boca em rede nacional para desacreditar o modelo dos 12 apenas alguns anos atrás? Sim, é ele mesmo. Minha teoria surgiu após a seguinte notícia:
Terra Nova e Malafaia, pela unidade do Reino, fazem Congresso em Brasília
Em primeira mão para o site do MIR, o Apóstolo Terra Nova dá entrevista sobre seu encontro com o Pastor Silas Malafaia. Resultado de jejum e oração, esse encontro é um marco para uma mudança no Brasil, em 2008, e prova que Deus começou a mover os céus da Nação. Durante a conversa, falaram sobre assuntos como vida pessoal, Visão Celular e diferenças ministeriais, acertaram pendências e provaram, mais uma vez, que Jesus Cristo sempre prevalece
Link da notícia: http://www.mir12.com.br/br/index2.php?pg=ZW50cmV2aXN0YQ==&id=%2048
Se a teoria for verdadeira, a soberania nacional e a unidade da federação estão ameaçados. Provavelmente é apenas uma divagação, então não se preocupe. Ou é tempo de se preparar pra revolução ou de dar risada. Ou os dois, como diria o Neph.
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P.S.: Eu sempre gostei de Arquivo-X.
P.P.S.: Antes de chamar seu advogado ou amaldiçoar o autor do site, lembre-se que o raciocínio apresentado é irônico, uma piada, humor, pra dar risadas, entende? Se bem que tem horas que é sério…