O incremento recursivo e seletivo da bipolaridade do pensamento humano – ou O mundo é um ringue

17/dez/2009

Sem desmerecer a complexidade das ciências relacionadas, a análise do comportamento de um adolescente apaixonado pode explicar a maior parte das relações humanas de poder no âmbito social e político, de tribos nômades a Washington, passando por igrejas evangélicas e universidades.

Quando um jovem altivo, em pé no estrado dos seus incríveis quinze anos, descobre que a beleza hipnotizante da moça simpática e mais velha que ele já contava como sua na verdade já era cativa de outro rapaz, menos jovem e mais altivo, há um disparar de atitudes, sensações e pensamentos que ditam o que aquele adolescente, quando for adulto, profissional, juiz, presidente ou ser humano, fará, sentirá ou pensará.

A batalha pela moça não é afetiva, mas territorial. Internamente, as afetações do apaixonado se parecem menos com o denso caderno poético que Marius deu a Cosette e mais com um fêmur de gnu rachando o crânio do adversário. É pouco amor, e muito poder. O adolescente não perderá uma oportunidade de se mostrar superior a seu concorrente, seja no futebol, na matemática, na literatura, na dança, na luta corporal ou, para desespero de algumas famílias, no manejo de armas de fogo.

Caso o concorrente seja afastado, seja devido ao futebol, à matemática, à literatura, à dança (e consequentes), à luta corporal ou às armas, e o território seja enfim conquistado pelo primeiro jovem, não restará mais o jovem apaixonado, mas a negação do namorado anterior da moça. Não haverá o rapaz, mas o não-outro-rapaz. A preocupação será mostrar como o rapaz anterior era ruim, e como o atual é melhor. Sistematicamente, o pequeno sociopata trabalhará para apagar as lembranças boas do outro-rapaz, buscando demonizá-lo, e mostrar-se como a única alternativa viável contra o retorno de satanás ao relacionamento. E assim, os feitos bons do outro-rapaz do passado se perdem entre mimos do presente, e a ordem das coisas para a moça se altera, em um processo primitivo de contingenciamento, lembrando o que Rap mencionou em um texto recente*.

À alternância de rapazes, outros-rapazes, mesmos-rapazes, novamente outros-rapazes, as moças dão o nome vida afetiva. Entretanto, o princípio, como já dito, pode ser aplicado em outras áreas. Um país tem sequencias de presidentes e ex-presidentes, o ambiente acadêmico alterna sua verdade entre ideologias e outras-ideologias, as igrejas entre líderes visionários e fundamentalistas do passado, entre outros exemplos.

O que o titular do poder antes fez ou defendeu é visto como errado. Os herdeiros do pensamento do titular anterior agora são mal vistos. O estranho primeiro título deste texto é proposital. Um ser teórico que concordasse sempre comigo diria que o título grande é uma descrição perfeita do texto, fruto de alguém que sabe o que diz. Outro ser teórico (mas não muito) que discordasse sempre de mim diria que é uma descrição pomposa e vazia, que visa dar um ar maior de validade ao que escrevo. Ambos estão parcialmente certos: eu sei o que eu digo, mas o título não é uma descrição perfeita do texto – é uma descrição pomposa e vazia, mas tem um efeito cômico e exemplar.

A bipolaridade, entretanto, não permite esse entedimento. Quando o poder está envolvido não há esse tipo de zona cinzenta. Quem almeja o poder entende que titular atual no poder está desfrutando do direito alheio (no caso, do aspirante), e assim também o é reciprocamente. Nessa situação, o objetivamente certo não existe, dando lugar a um pragmático politicamente correto.

Em um episódio que me inspirou para o título nonsense, um pesquisador amigo tentou conseguir aprovação para um projeto de pesquisa em uma certa instituição. O projeto consistia em resolver o problema p, através do método m. O projeto foi rejeitado porque não se encaixava no contexto amazônico cA. O projeto teve seu título alterado, para dar a entender que consistia em resolver p através de m, no subcontexto s de cA, e foi aprovado. O problema p, por sua própria natureza, pode ser resolvido pelo método m na Amazônia, na China, no Ártico, em Próxima Centauro ou além do alcançável pelas lentes do Hubble, mas se não resolver usando os termos que alguém que detém certo tipo de poder, não serve.

Se um método ineficaz i fosse apresentado como solução de p, mas fosse aplicado originalmente a cA, seria prontamente aprovado, não porque é verdadeiro ou útil, mas porque usou as palavras-chave certas. Ou seja, não serve a verdade que não seja aplicada ao contexto do poder atual, usando os termos, política, senso de moralidade e cosmovisão do mesmo poder. Quando outro poder se sucede, mudam o contexto, os termos, a política, o senso de moralidade e a cosmovisão, mudando o sistema de coisas que envolve a verdade.

Por esse motivo, o título alternativo seria o original, já que o mundo e seus poderes brigam entre si sem qualquer regulamento. De fato, para o tipo de pessoa que geralmente busca o poder qualquer regra é válida, desde que o oponente seja derrotado. O mundo se parece com um ringue onde ocorre um feroz duelo, assistido por uma plateia cínica, que aplaude o vencedor e vaia o perdedor, não importa quem seja um e outro.

* Recomento a leitura integral do texto do Rap, que se chama A Política e os fatos, que apesar de não ter inspirado este, poderia cumprir a função – trata-se de mais uma coincidência temática (um pouco distante, e desta vez não proposital).


O problema dos super-heróis

8/out/2009

O número de relatos de avistamentos de OVNIs e abduções por extraterrestres cresceu exponencialmente na mesma proporção que a popularidade de Guerra dos Mundos, Contatos Imediatos de Terceiro Grau, Independence Day e Arquivo X. Desconsiderando-se a precedência de causa e efeito desses fatos, o que chama a atenção é a relação entre a cultura pop e a realidade. “Aliens” na vida real e mídia sobre aliens têm uma certa equivalência.

Em outro gênero de ficção, entretanto, tal relação parece não ser aplicável. Apesar da popularidade dos super-heróis ser anterior à dos OVNIs (Zorro já andava pela Califórnia pouco depois da Primeira Guerra), avistamentos e contatos de heróis são raros, praticamente inexistentes. E embora muitos por aí gostem de reclamar sua cidadania extraterrestre, quase ninguém se apresenta como super-herói – pelo menos não seriamente. Pena, pois os heróis seriam bem mais úteis.

A carência de heróis, mesmo dos falsos, provavelmente é devida aos atributos necessários para ser um deles. Para ser um OVNI basta voar  (ou parecer voar) e não ser identificado, o que não é tão difícil. Para passar por alien basta escolher a roupa certa (ou errada, quem sabe). Mas para ser um super-herói é preciso dedicação, altruísmo e habilidades especiais. Certamente, três qualidades que dificilmente coexistirão em uma pessoa.

É evidente que é preciso se dedicar para ser um bom herói. Demanda-se uma vida dupla, com uma  insuspeita face social e uma implacável face secreta de combate ao mal. Se nos dias insanos de hoje é difícil manter uma vida, um trabalho e uma face, quão mais não será manter dois de cada, correndo os riscos inerentes à profissão oculta? Quem conseguiria, tal qual Peter Parker, trabalhar, estudar, sonhar com MJ e derrotar vilões caricatos e sem propósito? Todos querem o poder, mas não a responsabilidade.

Em decorrência disso, quem teria o desprendimento de esquecer de si mesmo, tamanha a dedicação exigida para cuidar de si próprio, para  ir corajosamente salvar os outros? É um tanto cliché entre os heróis de HQs que eles estejam vinculados a uma cidade. Gotham City, Metropolis, Nova York… o herói é uma personagem típica de seu meio em situações normais, e um estranho mascarado que se preocupa com os seus. Talvez essa característica seja um indicador do real anseio pelos heróis. Queremos que um exista, ou queremos ser um deles por pura preocupação com aqueles que são próximos, podendo defendê-los ou clamar por defesa tendo a certeza de ser prontamente atendidos.

Contudo, a autopreservação é uma voz superior. O anonimato das roupas coladas não ajudaria. O medo de acabar errando ou ter a identidade revelada e se tornar uma vítima do inimigo seria suficiente para afastar a maioria. O resto se sentiria mal com a opressão dos testículos.

Já a posse de habilidades especiais, a terceira das qualidades essenciais do herói, é o menor dos problemas. A grande maioria das pessoas é capaz de ter habilidades acima da média com algum grau de esforço. Poderes especiais talvez sejam raros ou inexistentes, mas mesmo que fossem acessíveis não fariam heróis. As habilidades dependeriam de dedicação e altruísmo, estas sim complicadas.

Enfatizando e concluindo, possivelmente é por isso que os heróis são inexistentes na realidade, apesar da abundância cultural. Ver coisas estranhas no céu escuro não demanda muito, mas caçar destemidamente o mal exige um preço alto demais. E isso nem é o pior de tudo. O que é realmente preocupante é que para ser um vilão basta ser mau ou fazer o mal, o que é extremamente fácil. O potencial para supervilões é altíssimo, ainda mais com uma concorrência tão baixa.


Aguarde sua vez

10/set/2009

- A morte precisa ter estilo – ensinava João a um desconhecido que, como ele, subia as escadas do prédio VI do Brasil Shining Sunset Palace, um condomínio muito bem localizado, com uma vista interessante para quem quer ver algo pela última vez, como se dizia por lá.

O prédio tinha vinte e cinco andares e era muito bem acabado. Os elevadores funcionavam perfeitamente, mas João preferiu subir as escadas para aproveitar o momento especial. No quarto andar desistiu da ideia e solicitou um elevador, que não demorou a chegar. Queria morrer, mas espatifado no chão, não de ataque cardíaco ou cansaço.

- Morte sem sangue é para mocinhas – ensinou em sua segunda lição, que foi mais curta, já que o elevador não fez paradas. Desceu no vigésimo quinto andar e subiu resmungando o último lance de escadas até o terraço.

Uma fila enorme começava próxima à porta do terraço e serpenteava até uma borda que dava para o oeste. Ninguém queria ver o pôr-do-sol: era nove da manhã, e a fila se dispôs assim porque ninguém quis ter o sol no rosto, apesar dos ótimos óculos escuros presentes nas faces. O desconhecido que acompanhou João na subida passou à sua frente e tomou um lugar na fila. Apesar dos olhares repreensivos em protesto, o homem sequer corou, e João conformou-se com seu último lugar. Não demorou, entretanto, para mais gente chegar e entrar na espera.

No final da fila estavam um padre e um pastor, um à esquerda e outro à direita. Na sua vez, cada um solicitava os serviços de um dos ministros, recebia uma bênção e uma advertência sobre o inferno, depositavam uma quantia em uma caixa próxima e pulavam. Sem qualquer afetação dos presentes, passava-se ao próximo da fila.

Após seis ou sete pulos começou uma murmuração entre os que aguardavam. Ricardo, que se identificou como ateu, exigia o direito de não ser atendido por um padre ou pastor ao final da fila.

- Ninguém é obrigado a ser atendido. Ao chegar aqui, nos ignore e faça como achar melhor – disse o padre.

- A presença de vocês aí é constrangedora – replicou Ricardo. Nós somos livres em nossas convicções, ou pelo menos deveríamos ser. Ter sacerdotes no final desta fila fere a igualdade de direitos e de crença. Exijo uma palavra com o responsável da fila.

Um olhava para o outro, e ninguém lembrava da existência de um responsável pela fila. Alguém sugeriu eleger um, e como Ricardo tinha levantado sua voz e sido o mais notado por todos, acabou sendo eleito por uma apertada diferença. Sua primeira determinação como responsável pela fila foi criar uma fila nova para os ateus e mover a remanescente para um canto escondido, onde os ministros não seriam vistos pela maioria, impedindo possíveis constrangimentos.

A fila dos religiosos continuou enorme, mas agora terminava atrás de uma antena, em um lugar bem escondido. A fila dos ateus só contava com Ricardo, que exaltou a própria liberdade um pouco antes de pular.

Entre os que permaneceram na fila original começaram outras reclamações. Um muçulmano exigiu uma fila de atendimento exclusivo para sua fé. O responsável pela fila, Ricardo, já estava vinte e cinco andares abaixo, em pedaços, então tiveram que eleger outro, que após barganhar algumas posições na fila com os eleitores, conseguiu criar uma fila atendida por um sacerdote islâmico.

Seguiu-se uma série de pedidos de fila com atendimento exclusivo. Foram criadas dezenas de filas, umas com dois ou três na espera, outras com dez ou até quinze, cada uma com um ministro. Um cristão bastante esclarecido pleiteou o direito de restaurar a fila dos ateus, baseado nos ideais de Ricardo. O espaço para a fila foi reservado, mas ninguém o preencheu definitivamente. Vez ou outra alguém aparecia e pulava naquele espaço, geralmente por ter errado a fila que lhe cabia.

Com as filas em pleno funcionamento, um grupo de homossexuais subiu ao terraço, e exigiu o direito de ter seus membros atendidos pelos ministros de qualquer religião. Gays e mulheres grávidas se uniram, já que havia recusa em se permitir que mulheres pulassem com a criança. O pastor, o padre e o sacerdote islâmico negaram o pedido dos dois grupos,e acabaram empurrados do terraço. Foram substituídos por líderes progressistas, tão à frente de seu tempo e das pessoas ali presentes que se jogaram antes de todos. Houve caos, e ninguém ouviu os deficientes exigindo atendimento preferencial.

Após a confusão, todos se jogaram aleatoriamente, se espatifando no chão ou em cima dos outros cadáveres. Quando não restava mais ninguém no terraço, um oficial de justiça afixou na porta e em uma parede próxima uma ordem judicial suspendendo as atividades do local por irregularidades no atendimento ao público. Uma equipe de TV chegou para gravar um documentário sobre a luta contra a intolerância. O jornal local publicou no dia seguinte que o Nacional Essence Wood Boulevard era um lugar mais adequado ao suicídio. Entrevistaram João, que não tinha conseguido se jogar porque esqueceu o dinheiro da taxa que deveria ser depositada na caixinha.


That’s twitter

25/ago/2009

xyz Fala seriow, gentem. Me exigiram um monte de comprovantes e documentos pra renovar a CNH. #burocracia #fail

xyz A partir de hoje vou usar o TrueTwit pra comprovar que quem me adiciona é real. Contra spam, gentem. Paciência, please.

abc Religião é um atraso de vida e não faz sentido. Regras sobre a vida das pessoas não deveriam existir!

abc Gente, manifestação hoje a favor do projeto de lei contra a homofobia. Compareçam!

izn Odeio gente cuja vida gira em torno da Internet e fala tudo no twitter. Seus nerds virgens, vão viver!

izn A maionese na geladeira venceu ontem, mas dá pra aproveitar. Vou por tudo no sanduíche-íche hoje. Maionese #rulz.

izn Dor de barriga braba!

izn Doente pra caramba. Mas já to melhorando

izn #mimimi é o c… Ninguém tá vomitando tanto quanto eu.

izn Cuidem da vida de vcs, retardados. Eu tenho minha vida e não dependo do twitter.

izn @abc Se eu comi é problema meu, como o que e quem eu quiser.

izn @abc Viado é vc que fica o dia todo no twitter.

izn @abc Sim, eu twito até doente, e o que vc tem a ver com isso, seu nerd virgem? Tá apx por mim?

izn @abc Problema sexual tem sua irmã. E não adianta citar Freud.

hjk Amanhã eu mato meu chefe, galera.

hjk Welcome, @fgh!

hjk Galera, follow @fgh -> meu chefe, garantia de twits relevantes!

hjk @fgh Deixei aberto aqui em casa, chefe, meu brother mexeu. Sério.

hjk Aceitando freelance, galera.

plm Detesto gente que diz que sou fake, spam ou robot só pq tenho 173430 seguidores e uma foto bonita. #inveja é uma merda.

abc Cadê a @plm?

abc Welcome, @plm2! Bela foto!

plm2 Outra conta apagada. Twitter me chamou de spam. Não é verdade!

abc @plm2 twitter #fail. Viva @plm2!

qap Twitter virando orkut. Quanta futilidade!

qap Banana acabou, mas ainda tem açaí. #partiu

nml Deus era mau, e assassino sem caráter. Mandou matar mulheres e crianças.

nml tinha uma Formiga em cima da tecla shift – esperei pra escrever o nome de sua espécie pra esmagá-la. Sinto-me realizado #prazer

As sequências de twits acima são ficcionais, mas baseadas em fatos reais. Qualquer nome de usuário existente de verdade no twiter é mera coincidência. Em um ou outro caso, talvez não.


Rick Trog Maldito

20/ago/2009

Henrique entrou na livraria, virou à esquerda e foi para a seção de literatura estrangeira. No meio do caminho, de passagem, resolveu checar o preço de um livro de Schopenhauer na estante de filosofia. Virou-se para o informador de preços, alinhou o código de barras do livro ao leitor e, antes que a máquina fizesse bip, o Universo à sua volta parou, ficou palpavelmente escuro e vazio, à exceção de um feixe de luz que parecia vir de um ponto infinitamente distante e iluminar apenas um ser que estava a alguns metros dele.

Com o braço ainda estendido e o livro ainda alinhado ao leitor de códigos, pasmou e sentiu o frio na barriga que indica que a situação está muito boa ou péssima, dependendo do contexto. No caso específico, para Henrique a situação era épica. A seis passos e um antebraço com mão estendida de distância estava Popman. Não apenas um homem popular, mas Popman, o blogueiro, o ícone, o exemplo, seu um milhão de visitas mensais e seus 700 contos no AdSense.

Henrique sentia calor e sorria sozinho. Estava testemunhando um blogueiro profissional comprando livros com o dinheiro do AdSense. Era o nirvana. Por um instante pareceu que procurar imagens da Jessica Alba na web dava menos prazer que a contemplação que vivia ali, naquela livraria, com a mão direita segurando algo mais nobre. Tal impressão, entretanto, só durou até a próxima visita ao Google Images, quarenta e seis minutos depois.

- Moço, posso ver o preço aí?

Henrique acordou, caiu de volta em seu desconfortável Universo, e viu uma jovem olhando para ele com um exemplar de Lua Nova na mão. Desprezou-a por tirá-lo de seu momento especial. Por algum motivo, lembrou de sua mãe batendo à porta do quarto. Odiou a moça também pelo livro que ela trazia na mão. Contudo, sem fazer qualquer menção de seu desprezo e ódio, cedeu a vaga.

Para sua surpresa, Henrique viu que Popman ainda estava ali. Seu subconsciente entendeu como uma dádiva: Popman caíra no mundo dos vivos para que Henrique, jovem mantenedor do TrogloditaMaldito.com, desfrutasse da presença do mestre. Manteve o livro de Schopenhauer na mão, querendo causar uma boa impressão. Levou o exemplar junto ao peito, como um galã da década de cinquenta segurando um buquê esmerado.

Andou os seis passos, reservando a distância correspondente ao antebraço com a mão estendida para o cumprimento que em breve selaria o encontro de sua vida. Popman o encarou meio sem entender. Henrique vacilou por poucos segundos, abrindo a boca sem que a voz saísse, mas enfim falou.

- Diz aí, Popman. Sou o Rick do TrogloditaMaldito.com. Já comentei no seu blog. Seu post com o vídeo gravado no celular mostrando o senador escolhendo nabos no mercado foi sensacional. Eu ri.

- Ah, sim. Valeu. – Popman agradeceu o elogio, mas Henrique entendeu que o “ah sim” se referia à lembrança do comentário feito no post do vídeo, que tinha 491 respostas. Nunca soube que estava enganado. Partindo de seu erro, entretanto, resolveu tentar a sorte.

- Tem um link pro PopBlogMan lá no Troglodita Maldito. Recebeu algumas visitas de lá? – uma pessoa comum não perceberia o sentido oculto, mas um blogueiro sabe que essa construção de palavras aparentemente inocente significa “lembra-te de mim quando entrares no teu reino”.

- Ah, sim. Manda o link que eu ponho lá – um blogueiro sabe que esta resposta chegou aos ouvidos de Henrique como “hoje mesmo estarás comigo no paraíso”, mesmo que Popman estivesse olhando para revistas aleatórias na estante.

- Vou nessa, cara. Tenho muita coisa pra escrever hoje ainda – despediu-se Henrique, mentindo.

- Ah sim. Valeu – disse Popman aliviado, finalmente podendo pegar o exemplar da Sexy.

Henrique deixou o livro na estante quando Popman se virou, e saiu sem comprar nada, tentando realmente parecer ocupado. “Eu tenho que twitar isso”, pensou ao sair da livraria. Correu para casa, e a primeira coisa que digitou ao abrir o navegador é registrada abaixo.

@RickTrogMaldito Conversei com o @MrPopBlogMan agora há pouco na livraria. Super gente fina e muito inteligente. Abraço, Popman!

Passou a seguir os comentários de @MrPopBlogMan, já que agora tinha certeza que haveria reciprocidade. Só seguia quem o seguia, mesmo que fosse Popman. Tinha uma reputação a zelar no Twitter. Mandou uma mensagem para @MrPopBlogMan: “Aí, cara, o link é TrogloditaMaldito.com. Valeu, foi muito bom te conhecer”. Sentiu-se realizado por três minutos, mas um vazio repentino o impeliu para o Google Images. Foi feliz com Jessica Alba até um toque na porta convidar para o jantar.

Popman marcou como spam mensagens de um tal Troglodita Maldito, nome que não o fazia recordar de nada. Folheou a Sexy recém adquirida. Não gostava de mulheres digitais ou reais. Preferia as impressas em papel mesmo, podendo tocar sem ter que limpar manchas de digitais na tela ou explicar seu mau desempenho. Foi feliz com várias mulheres até o celular tocar. Era o advogado. A audiência do processo contra ele no caso do senador dos nabos seria dali a dois dias.


Antes e depois

16/ago/2009

Antes se bebia pouco suco de fruta porque espremer era muito trabalhoso. Hoje se bebe menos que antes porque lavar o liquidificador é ainda mais trabalhoso.

Antes as cidades eram pequenas, e as pessoas se locomoviam a pé, o que era ruim. Hoje as cidades são grandes, e as pessoas se locomovem de carro ou transporte coletivo, o que é pior.

Antes a produção escrita era restrita a poucos, e boa parte do que era produzido era ruim. Hoje a produção escrita é franqueada a muitos, e boa parte do que é produzido é ainda pior.

Antes as crianças não liam porque não sabiam ler, mas gostavam de boas histórias. Hoje as crianças não gostam de boas histórias mesmo sabendo ler, já que a escola prepara os jovens para se comportarem como máquinas do mercado, interessadas em livros técnicos e auto-ajuda.

Antes os alimentos eram frescos, e as pessoas viviam mal. Hoje os alimentos são industrializados, e as pessoas vivem pior.

Antes os doentes só tinham acesso a um bom médico se tivessem muito dinheiro. Hoje os doentes só têm acesso a um bom médico se tiverem sorte.

Antes os detendores do poder político ou econômico não podiam ser fiscalizados, e enriqueciam ilicitamente. Hoje há muitas maneiras para se exercer o controle social, mas os dententores do poder político ou econômico enriquecem ilicitamente mais ainda.

Antes o Estado era duramente repressor, e os criminosos eram maus. Hoje o Estado é garantista e compreensivo, e os criminosos são piores ainda.

Antes o blog era uma expressão pessoal, hoje é um negócio.

Antes as pessoas se conheciam, se viam e se reuniam na praça para falar mal das outras. Hoje as pessoas não se vêem, não se conhecem e se encontram em redes sociais virtuais para falar coisas piores das outras.

Antes as diferenças eram notadas e acentuadas, gerando desigualdade. Hoje as diferenças são notadas, acentuadas e regulamentadas, gerando ainda mais desigualdade.

Antes as igrejas cristãs tinham poucas dezenas de membros, e o convívio era difícil. Hoje muitas igrejas cristãs têm milhares de membros, e o convívio se torna quase impossível em certos casos.

Antes, nas guerras, as pessoas matavam, cada uma, dezenas de outras com suas lanças, espadas, flechas ou mosquetes. Hoje, nas guerras, uma pessoa mata ao mesmo tempo milhares de outras com suas bombas.

Antes os tolos tinham esperança. Hoje, bem, pelo menos alguma coisa tem que permanecer como está.


Soluções

4/ago/2009

Pegando carona na irônica prática do obsessivo e contumaz colega (de obsessão e blogging) criticador Thiago Bomfim de apresentar soluções requeridas pelos que quase condenam a crítica em si, apresento em resumo soluções simples e diretas em resposta a quase todas as críticas que fiz (ou não) nesses poucos anos de blog, em três áreas.

Socialmente

Respeito ao direito de propriedade, inclusive o direito de quem não tem uma propriedade adquirir uma. Afinal, o direito de ter um lugar para morar é mais importante que o questionável direito de quem tem cinco imóveis passar a cobrar o preço que quer por eles, com o auxílio de corretores de rapina, apenas porque alguém represou um curso de água a 15 quilômetros dali.

Respeito ao direito à liberdade, inclusive a liberdade de não levar um tiro por não entregar a carteira, ou, no caso da mulher, de não ser estuprada porque as prostitutas já não atendem às fantasias de um certo indivíduo, ou até mesmo porque também não entregaram a carteira.

Respeito ao direito de ir e vir, inclusive tendo o direito de que o planejamento de ampliação da capacidade do transporte coletivo não consista em retirar assentos para que mais sardinhas possam permanecer em pé no interior da lata.

Respeito ao adolescente, adulto em formação, principalmente ao adolescente que, usando uma arma (de brinquedo ou não), não obriga ninguém a sacar o restante do salário no caixa eletrônico.

Respeito ao recurso público, priorizando ações efetivas, que gerem qualidade de vida, e não tantos edifícios dignos dos engenheiros de Dubai.

Intelectualmente

Menos Nietzsche, mais Kierkegaard.

Menos Russel, mais Chesterton.

Menos Wells, mais Huxley, o neto.

Menos posts por semana, mais reflexão.

Menos escrita, mais leitura.

Espiritualmente (e, também, eclesiasticamente)

Belos discursos devem gerar ações efetivas obrigatoriamente, a não ser que o belo discurso seja em si uma ação efetiva, o que é natural de alguns discursos.

A voz profética da igreja não deve ser usada para anunciar um presidente cristão, até porque a experiência cristã na política carece de exortação profética. Na verdade, para ser justo, a maioria das experiências cristãs na política carece mesmo é de ação penal.

Mil bispos e cinquenta mil pastores não têm, juntos e unânimes, legitimidade ou autoridade para nomear um apóstolo. Nem de brincadeira. De igual maneira, um bispo ou pastor não tem legitimidade para se audodenominar apóstolo. Na verdade, nenhuma pessoa pode se autoproclamar sequer pastor. É melhor ignorar qualquer um que o faça.

Quarenta milhões de evangélicos não fazem um evangelho, principalmente quando o número é forjado. Alguns números devem ser desconsiderados ao se analisar a legitimidade de um sistema de crenças e valores. O número de seguidores é um deles.

Considerando os dois milênios de história cristã e os quatro milênios das Escrituras, convém inverter a proporção dos livros de autores vivos e de livros de autores mortos nas livrarias evangélicas.

Quando as críticas forem coerentes, é melhor pensar se o ataque à crítica válida em si não deve ser direcionado para aquilo que ela critica. É difícil, mas compensa.

A amizade e presença de uns cinco amigos e irmãos de fé e prática é melhor que a companhia de cinco mil estranhos carismáticos em um lugar gigantesco.

P.S.U.: A quem apontar que o texto diz apresentar soluções mas contém uma série de críticas veladas, eu apenas digo uma coisa: bazinga!

P.P.S.U.: A sigla P.S.U. significa aqui post scriptum updated. Eu sei que updated não é latim. É que além de escritos depois do texto, estes P.S.U. foram escritos depois da publicação.


Porto Velho, lugar de crime – Noite Vermelha

25/jul/2009

Se a Zona Leste tivesse queixo, o bateria naquela madrugada de sexta-feira, noite de nuvens baixas, céus vermelhos e vento frio. Porto Velho congelava a polares vinte e um graus celsius, próximo do ponto de fusão amazônico, quando a água se torna fria e metade das formas de vida hiberna em suas casas por dois longos dias. A outra metade sai às ruas, aproveitando uma rara oportunidade de usar suas jaquetas fora de um ônibus intermunicipal sem perder todo o líquido existente no corpo.

Mas não era apenas o céu que refletia um vermelho sombrio naquela noite. O ar parecia vermelho no Jardim Santana com sinais luminosos dos carros da polícia militar. Completando o trino ambiente rubro, a Raimundo Cantuária estava parcialmente pavimentada com sangue. Lá estava um corpo estendido no chão, com três prufundos ferimentos no tórax.

Outra luz vermelha intermitente, iluminando uma nuvem de fumaça cinza-azulada, se aproximava. A fumaça era, mesmo à noite, mais visível que a luz. Era outro veículo que se aproximava, desta vez da polícia civil. A fumaça parou a alguns metros do local do crime. Dela, alguns segundos mais tarde, emergiu um carro popular, talvez um Gol, cuja cor dependia do ângulo de visão. Do carro, saíram duas figuras masculinas que tossiam. Esbelto, alto, bastante agasalhado e tropeçando a cada quatro passos, um homem com óculos escuros se aproximou, seguido e perto por outro, dez anos acima do peso, usando uma camiseta leve e coçando os olhos.

Um policial militar, percebendo a chegada dos dois, aproximou-se dele e fez menção de dar um informe. Olhou para o rosto de um e de outro, e começou a falar, mas de outro assunto, com um ar de maior urgência.

- Conjuntivite, senhor?

Os dois balançaram a cabeça afirmativamente em resposta. O PM deu um discreto, porém cerimonioso passo para trás. Satisfeito com a distância, começou o relato.

- Fazendo a ronda de praxe fomos informados pelo rádio que foram ouvidos disparos na rua Raimundo Cantuária à altura do bairro Jardim Santana. Chegamos no local e constatamos que de fato havia um corpo estendido na via, em frente a um terreno baldio. Levantamos informações com populares que informaram que os elementos tomaram rumo Centro. Empreendemos busca visando capturar os elementos, que eram em número de dois, mas não logramos êxito. Fizemos o isolamento do local até a chegada da perícia. Identificamos quatro cápsulas de pistola no chão. O responsável até o momento sou eu, o sargento Barbosa.

- Valeu, sargento – disse o homem dos óculos escuros, já andando em direção ao corpo, acompanhado pelo colega.

- Pois é, Sandro… – dirigiu-se por trás dos óculos a seu colega que coçava freneticamente o olho.

- Que acha? – respondeu, quase arrancando o globo ocular.

- Vou pegar um atestado de manhã.

- Putz, Gustavo, agora que você vem falar na merda do atestado? – Gustavo tirou os óculos e olhou pra baixo.

- Eu falo quando tenho que falar. – Dito isso, colocou os óculos e saiu. Won’t Get Fooled Again, do The Who, começou imediatamente a tocar. Era o telefone celular de Sandro, que atendeu.

- Por gentileza, o senhor Sandro Gorvaltz. – disse a voz ao telefone

- Ele mesmo.

- Senhor Sandro, aqui é Cristina do banco HSBC.

- Você sabe que horas são?

- Em Curitiba, quase sete hor… – Sandro desligou o telefone.

Após alguns procedimentos, Gustavo e Sandro entraram novamente na viatura, que após três tentativas foi envolvida em uma nuvem de fumaça e desapareceu enquanto as primeiras luzes da manhã afastavam o vermelho do céu, devolvendo o cinza nublado à paisagem acima. Buzinaram ao cruzarem com um carro do IML e, do ponto de vista dos PMs, tomaram rumo ignorado.

Às onze da manhã de sexta-feira, Gustavo lia o jornal na fila da clínica. Na página policial, encontrou  o seguinte relato.

Conforme relata o sargento Barbosa, ‘fazendo a ronda de praxe fomos informados pelo rádio que foram ouvidos disparos na rua Raimundo Cantuária à altura do bairro Jardim Santana. Chegamos no local e constatamos que de fato havia um corpo estendido na via, em frente a um terreno baldio. Levantamos informações com populares que informaram que os elementos tomaram rumo Centro. Empreendemos busca visando capturar os elementos, que eram em número de dois, mas não logramos êxito. Fizemos o isolamento do local até a chegada da perícia. Identificamos quatro cápsulas de pistola no chão’, conta o PM“.

- Gustavo Carvalho – chamou uma voz feminina, tirando Gustavo da estranha sensação de déjà vu.

Em frente à TV, ouvindo ao noticiário, Sandro tentava pingar uma gota de colírio em seu olho esquerdo. A apresentadora do telejornal, logo após o comercial, fez menção do crime da noite anterior, chamando uma matéria. Sobressaltado com a menção do fato, Sandro deixou que seis gotas caíssem em seu olho. Ficou sabendo, enquanto sentia que seu olho esquerdo era cinco vezes maior que o direito, que um  jovem, com uma dose quatro vezes letal de álcool no sangue, contou detalhes do crime em um bar em Candeias do Jamari e foi preso, denunciando ainda seus dois comparsas, cujos nomes informados por ele eram Zé Bagre e Satanás, que seria o mandante. Zé Bagre foi preso na mesma noite, mas Satanás, informou a polícia militar, não foi localizado.

Seis dias depois, Sandro, na delegacia, reconheceu o sargento Barbosa, que usava óculos escuros na ocasião. O sargento conduzia um preso que afirmava ser Satanás, e foi imediatamente indiciado como mandante do crime da semana anterior. A causa, presumia o delegado, era acerto de contas por dívida, baseado no depoimento de um vizinho da vítima, que testemunhou que o homem assassinado disse, na tarde do  dia do crime, que até Satanás lhe devia dinheiro.

A presente história não é baseada, nem vagamente, em fatos ou pessoas reais.


Código Herético-Penal

24/jul/2009

Institui a persecução penal no âmbito espiritual e eclesiástico. Por favor, não leve a sério.

Art. 1º – Todo pecado, heresia e blasfêmia, com proibição já existente ou ad hoc, será punido nos termos e interpretações deste código.

Art. 2º – Determinação posterior que deixe de definir o fato como pecado, heresia ou blasfêmia retroagirá para condenar aqueles que antes consideravam tal conduta como afronta espiritual.

Art. 3º – Arrependimento e perdão não impedem a aplicação da pena.

Art. 4º – O desconhecimento da proibição é inescusável.

Art. 5º – Aplicar-se-ão as seguintes penas em espécie:

I – Advertência verbal, para pecados leves;

II – Repreensão em púlpito, para pecados moderados e heresias leves;

III – Disciplina, para pecados severos e heresias;

IV – Restrição ao exercício de atividades ministeriais, para pecados severos e heresias;

V – Exclusão, para pecados imperdoáveis e blasfêmia.

§1º – De acordo com a demanda e o interesse local, o rol de penas deste artigo poderá ser estendido caso a caso.

§2º – A atribuição de penas a infrações específicas pode ser desconsiderada de acordo com a convicção do ministro

Das infrações em espécie

Tocar no ungido

Art. 6º – Questionar atitude de ungido ao ministério, zombar ou desacreditar alguém instituído para cargo eclesiástico.

Pena – Repreensão de púlpito.

§1º – A pena aplicada será a disciplina se a infração é cometida contra:

Toque qualificado

I – Apóstolo;

II – Bispo;

III – Cantor gospel ou ministério de adoração

Comunhão com o mundo

Art. 7º – Envolver-se com pessoas, música ou cultura secular, de acordo com a definição vigente.

Pena – Disciplina.

Fornicação

Art. 8º – Envolver-se em qualquer ato libidinoso antes do casamento, de acordo com a definição do ministro local.

Pena – Exclusão, e proibição de exercer atividades ministeriais até o casamento de fato.

Adultério

Art. 9º – Pular os marcos divisórios de madeira da propriedade alheia.

Pena – Exclusão, e proibição de exercer atividades ministeriais enquanto o mar for azul.

§1º – O ministro infrator deste artigo será enviado, pelo ministro dominante, para o inferno, sem prejuízo das demais sanções cabíveis.

Roubo

Art. 10º – Separar quantia menor que a décima parte dos rendimentos líquidos mensais, ou sonegar-lhe na totalidade.

Pena – Repreensão de púlpito, e visita do gafanhoto devorador.

§1º – Deixa-se de aplicar a pena se o infrator restitui o que não é dele.

Abandono

Art. 11º – Deixar de comparecer às atividades locais por tempo aleatório estabelecido pelo ministro.

Pena – Exclusão.

§1º – A pena não será aplicada se a contribuição mencionada no artigo anterior for regular durante o período de abandono.


A prova cabal

17/mar/2009

O fluxo de pessoas na praça entre o prédio da faculdade de Ciências Sociais e a reitoria  da universidade era intenso naquele fim de tarde. O número de estudantes ali aumentava exponencialmente ao término da aula, por razões óbvias. Por motivos menos evidentes, o número de pessoas caídas e materiais espalhados no chão tinha aumentado geometricamente nos últimos minutos. Embora não se soubesse a causa primeira, a causa direta era a corrida afobada empreendida através da praça pelo professor doutor Junqueira, coordenador do centro de pesquisas sociais e sociólogo de grande respeito. Do tipo de respeito que se costuma ter por sociólogos, claro.

Entrou desesperado no prédio da reitoria, da mesma forma que qualquer pessoa sairia do mesmo prédio em caso de incêndio. Trazia uma encadernação em sua mão. Se os mesmos papéis estivessem nas mãos de um professor da faculdade de Astronomia em semelhante pânico seriam tidos a princípio como uma prova de que um asteróide destruiria o planeta em algumas semanas.

Junqueira colidiu com a porta da sala do reitor e entrou na sala com muita afetação. O reitor já se preparava para sair, e antes que pudesse entender uma entrada tão atrapalhada e perguntar o que se passava, Junqueira tentou começar a falar, não percebendo que deveria tentar respirar primeiro.

- Ele fez!

O reitor fez uma cara de surpresa e indagação que reitores costumam fazer. Não é muito diferente da cara que pessoas de outras ocupações fazem em situações semelhantes, mas tem um tom magnificente.

- Estamos perdidos – continuou Junqueira – ele conseguiu! Leia.

Junqueira entregou a encadernação ao reitor. Tratava-se de um longo artigo de título “A natureza mítica da atividade sexual humana:  uma nova visão neurológica, física, filosófica e social sobre sexo e reprodução”, escrito pelo doutor Menelau Moreira, com uma série de anexos com resultados de pesquisas. O reitor leu o resumo e se sentou de boca aberta. Arregalou os olhos enquanto olhava para Junqueira.

- Não pode ser! – exclamou o reitor afetado e mexendo os braços, abandonando o ar magnificente e se aproximando da maneira de um Power Ranger falar. O doutor Moreira era um jovem pesquisador  teórico da área de exatas. Era brilhante, mas pouco prático em questões humanas, e tinha ideias pouco ortodoxas em assuntos que não envolvessem matemática. No prédio de Ciências Sociais, e às vezes até no de Ciência da Computação, o chamavam de “nerd em último grau”. Sabia tanto de sua área que estava desmotivado, e começou a fazer pesquisas multidisciplinares para encarar novos desafios, como dizia.

O reitor conhecia Moreira muito bem. Já tinha causado problemas ao tentar publicar na revista do curso de Nutrição que a probabilidade de morte nos três dias posteriores a uma a refeição nas lanchonetes do campus era de 9%, baseando-se na análise química e microbiológica de amostras de sanduíche e suco. Os estudantes de Nutrição invadiram prédios e queimaram colchões para impedir a publicação, alegando que o autor não tinha formação na área, demonstrando que entenderam bem cedo como funciona a reserva de mercado e o espírito de revolta estudantil. Dizia-se veladamente que a real motivação era que o cardápio e o método de preparo de dois terços das lanchonetes era acompanhado de perto pelos futuros nutricionistas, o  que, se fosse verdade, demonstraria que eles entenderam bem cedo como funciona o corporativismo.

O artigo nas mãos do reitor tinha um potencial ainda maior de produzir polêmica. Doutor Moreira acreditava ter provado cabalmente que o sexo entre seres humanos é uma ilusão coletiva patrocinada pela indústria do entretenimento, casas de prostituição e fábricas de preservativo. E  pretendia publicar sua descoberta.

- O doutor Moreira perdeu a razão. Isto não pode estar certo, mesmo sendo dele. Nem o Menelau é infalível – o reitor tentava tornar a crise menos potente.

- Eu li cuidadosamente e não consegui refutar os argumentos – Junqueira continuava alimentando o desespero. – Temos que nos render.

- Certo. Vamos analisar os fatos. Como ele lida com o fato de que é possível presenciar pessoas fazendo sexo? Isso não seria óbvio?

- Leia o item 3.2.

O reitor iniciou a leitura em voz alta.

- “Apesar dos experimentos com animais  terem demonstrado que alguns exemplares de certas espécies procedem o coito em certas ocasiões, seres humanos colocados em situações semelhantes  se mostraram apáticos ou irritadiços, não consumando qualquer relação. Assim como os casais animais, os casais humanos foram colocados sozinhos em salas trancadas, tendo à disposição água, alimento e uma cama, e observados através de vídeo, informados de que se tratava de uma experiência sobre comportamento humano”.

- “Ao contrário de ratos, coelhos e cães, os casais humanos permaneciam se comunicando à distância. Passadas algumas horas na sala, o casal começava a solicitar o término do experimento, e pediam para ser dispensados. No segundo dia todos os casais atacavam e destruíam a câmera. No terceiro dia arrombavam a porta, agrediam o pesquisador e ligavam para a polícia, apesar de terem assinado um termo concordando com o experimento, gerando a lenda local de que  um pesquisador estava tentando reviver a série de cinema Jogos Mortais. Isso torna evidente que casais sozinhos por certo tempo, variando conforme personalidade e ambiente, tendem ao comportamento caótico e à violência, nunca a intimidade e sexo”.

- Vê do que estou falando?

- Meu Deus!

Considerando que o reitor era ateu, a expressão que acabava de dizer demonstrava como a situação era crítica.

- Mas Doutor Junqueira, e quanto à reprodução? Não é evidente que a espécie humana se reproduz sexuadamente?

- Ele fala disso também mais à frente.

- “Os dados coletados apontam que 98% das mães afirmam a seus filhos pequenos que as crianças crescem espontaneamente no útero materno, condicionando-se apenas à vontade dos pais. Os 2% das mães restantes dividem suas explicações à prole a respeito da reprodução com complexas sagas envolvendo cegonhas, forças da natureza, borboletas e outros insetos, e atividades espirituais ou divinas. O sexo não é uma explicação adotada pelas mães aos seres que estas mais estimam, protegem e se preocupam, o que indica de certa forma que é uma explicação falsa. Ressalte-se ainda o fato de que boa parte da civilização ocidental aceita o fato de o homem mais influente da história ter tido uma concepção que não envolvia sexo.”

- E quanto ao sêmen? Para quê ele acredita que serve? – perguntou o reitor com a testa franzida.

- Continue alguns itens à frente.

- “Todos os rapazes adolescentes entendem que o sêmen humano serve como uma afirmação de maturidade. Neste sentido, a primeira ejaculação é como um ritual de passagem à vida madura, adulta e sexualmente ativa.”

- E a inseminação artificial? Não provaria que ele está errado?

- Alguns parágrafos à frente.

- “A inseminação artificial envolve mães profundamente desejosas por um filho. Como 98% das mães humanas afirmam aos seus descendentes que o filho é gerado no útero espontaneamente havendo desejo de reproduzir-se por parte dos pais, é de se supor que um método que explore o intenso anseio de uma fêmea humana por um descendente terá alta taxa de sucesso. O sêmen, neste caso, atende à ilusão coletiva do sexo. A fêmea precisa acreditar no processo para que o desejo faça efeito, e então se envolve o sêmen nos procedimentos de inseminação para elevar a taxa de sucesso, ligada ao desejo pelo filho e crédito materno e paterno no processo.”

- Saco – extinguia-se totalmente o tom magnificente do reitor. E quanto aos vídeos pornográficos?

- Alguns capítulos depois, na parte filosófica do trabalho.

- “Apelar à indústria do entretenimento, em especial a cinematográfica, para coletar evidências sobre um fato é contra a razão. Entender que o sexo deve existir baseado em filmes eróticos, pornográficos ou em novelas da televisão aberta brasileira é como creditar a prova da existência de vida extraterrestre às películas de Steven Spielberg”.

- Ele cobriu todas as possibilidades. Estamos encurralados – disse Junqueira.

- Ele é virgem?

- Não sei, mas a experiência sexual é explicada pouco à frente.

- “A experiência pessoal alegada por quase toda a população mundial serve como evidência da existência do sexo tanto quanto a experiência pentecostal de grupos evangélicos serve como prova da existência de Deus. A alegação da quase totalidade da humanidade crer no sexo é um apelo numérico que carece do devido sentido”.

- Realmente, não há saída – concordou tardiamente o reitor.

- O que faremos então?

- Apoiaremos a publicação. Temos um compromisso com o método científico que desnuda a realidade, seja ela qual for – disse o reitor, retornando ao tom que permitiria que alguém o tratasse como Magnificência.

O texto integral redigido por doutor Moreira foi publicado em uma revista científica pouco tempo depois, e amplamente divulgado pela mídia comum. Dizia-se em universidades e grupos de discussão que uma nova era da compreensão da humanidade sobre si própria tinha sido inaugurada. Muitos continuaram fazendo sexo normalmente, mas agora todos sabiam perfeitamente do que se tratava.

Os esclarecidos conservadores, como foram chamados, se entregavam a algo que consideravam ilusão, mas conscientes da realidade. Já os esclarecidos progressistas abandonaram totalmente a prática ilusória desmistificada pelo brilhante doutor Moreira, que morreu muitos anos depois, de ataque cardíaco, em um dos raros prostíbulos que ainda existiam próximo ao campus.