Sem desmerecer a complexidade das ciências relacionadas, a análise do comportamento de um adolescente apaixonado pode explicar a maior parte das relações humanas de poder no âmbito social e político, de tribos nômades a Washington, passando por igrejas evangélicas e universidades.
Quando um jovem altivo, em pé no estrado dos seus incríveis quinze anos, descobre que a beleza hipnotizante da moça simpática e mais velha que ele já contava como sua na verdade já era cativa de outro rapaz, menos jovem e mais altivo, há um disparar de atitudes, sensações e pensamentos que ditam o que aquele adolescente, quando for adulto, profissional, juiz, presidente ou ser humano, fará, sentirá ou pensará.
A batalha pela moça não é afetiva, mas territorial. Internamente, as afetações do apaixonado se parecem menos com o denso caderno poético que Marius deu a Cosette e mais com um fêmur de gnu rachando o crânio do adversário. É pouco amor, e muito poder. O adolescente não perderá uma oportunidade de se mostrar superior a seu concorrente, seja no futebol, na matemática, na literatura, na dança, na luta corporal ou, para desespero de algumas famílias, no manejo de armas de fogo.
Caso o concorrente seja afastado, seja devido ao futebol, à matemática, à literatura, à dança (e consequentes), à luta corporal ou às armas, e o território seja enfim conquistado pelo primeiro jovem, não restará mais o jovem apaixonado, mas a negação do namorado anterior da moça. Não haverá o rapaz, mas o não-outro-rapaz. A preocupação será mostrar como o rapaz anterior era ruim, e como o atual é melhor. Sistematicamente, o pequeno sociopata trabalhará para apagar as lembranças boas do outro-rapaz, buscando demonizá-lo, e mostrar-se como a única alternativa viável contra o retorno de satanás ao relacionamento. E assim, os feitos bons do outro-rapaz do passado se perdem entre mimos do presente, e a ordem das coisas para a moça se altera, em um processo primitivo de contingenciamento, lembrando o que Rap mencionou em um texto recente*.
À alternância de rapazes, outros-rapazes, mesmos-rapazes, novamente outros-rapazes, as moças dão o nome vida afetiva. Entretanto, o princípio, como já dito, pode ser aplicado em outras áreas. Um país tem sequencias de presidentes e ex-presidentes, o ambiente acadêmico alterna sua verdade entre ideologias e outras-ideologias, as igrejas entre líderes visionários e fundamentalistas do passado, entre outros exemplos.
O que o titular do poder antes fez ou defendeu é visto como errado. Os herdeiros do pensamento do titular anterior agora são mal vistos. O estranho primeiro título deste texto é proposital. Um ser teórico que concordasse sempre comigo diria que o título grande é uma descrição perfeita do texto, fruto de alguém que sabe o que diz. Outro ser teórico (mas não muito) que discordasse sempre de mim diria que é uma descrição pomposa e vazia, que visa dar um ar maior de validade ao que escrevo. Ambos estão parcialmente certos: eu sei o que eu digo, mas o título não é uma descrição perfeita do texto – é uma descrição pomposa e vazia, mas tem um efeito cômico e exemplar.
A bipolaridade, entretanto, não permite esse entedimento. Quando o poder está envolvido não há esse tipo de zona cinzenta. Quem almeja o poder entende que titular atual no poder está desfrutando do direito alheio (no caso, do aspirante), e assim também o é reciprocamente. Nessa situação, o objetivamente certo não existe, dando lugar a um pragmático politicamente correto.
Em um episódio que me inspirou para o título nonsense, um pesquisador amigo tentou conseguir aprovação para um projeto de pesquisa em uma certa instituição. O projeto consistia em resolver o problema p, através do método m. O projeto foi rejeitado porque não se encaixava no contexto amazônico cA. O projeto teve seu título alterado, para dar a entender que consistia em resolver p através de m, no subcontexto s de cA, e foi aprovado. O problema p, por sua própria natureza, pode ser resolvido pelo método m na Amazônia, na China, no Ártico, em Próxima Centauro ou além do alcançável pelas lentes do Hubble, mas se não resolver usando os termos que alguém que detém certo tipo de poder, não serve.
Se um método ineficaz i fosse apresentado como solução de p, mas fosse aplicado originalmente a cA, seria prontamente aprovado, não porque é verdadeiro ou útil, mas porque usou as palavras-chave certas. Ou seja, não serve a verdade que não seja aplicada ao contexto do poder atual, usando os termos, política, senso de moralidade e cosmovisão do mesmo poder. Quando outro poder se sucede, mudam o contexto, os termos, a política, o senso de moralidade e a cosmovisão, mudando o sistema de coisas que envolve a verdade.
Por esse motivo, o título alternativo seria o original, já que o mundo e seus poderes brigam entre si sem qualquer regulamento. De fato, para o tipo de pessoa que geralmente busca o poder qualquer regra é válida, desde que o oponente seja derrotado. O mundo se parece com um ringue onde ocorre um feroz duelo, assistido por uma plateia cínica, que aplaude o vencedor e vaia o perdedor, não importa quem seja um e outro.
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* Recomento a leitura integral do texto do Rap, que se chama A Política e os fatos, que apesar de não ter inspirado este, poderia cumprir a função – trata-se de mais uma coincidência temática (um pouco distante, e desta vez não proposital).

A contingência citada por ti quando falas de desejo de território é relevante no sentido de que todos nós somos contingentes quanto aos fatos que melhor nos interessam quando está em jogo nosso prazer.
Será que a bipolaridade é realmente uma característica dessa montanha-russa ao qual se refere como o comportamento humano? Não estaríamos limitando e simplificando demais ao observarmos os fatos dessa maneira?
Rap, nao me refiro a todo o comportamento humano, mas as relacoes que envolvem poder, territorialidade, que apos uma troca traumatica (ou mesmo uma nem tao traumatica) geralmente se invertem, se polarizam. De qualquer forma, pode haver uma simplificacao humoristica (o texto esta marcado como humor, repare).
olá Teo, li uma matéria na Epoca que fala, também, do teu blog. É minha primeira visita, votarei mais vezes para novas leituras.
Abraços,
Elton
Obrigado, Elton. Retribuirei a visita.