O número de relatos de avistamentos de OVNIs e abduções por extraterrestres cresceu exponencialmente na mesma proporção que a popularidade de Guerra dos Mundos, Contatos Imediatos de Terceiro Grau, Independence Day e Arquivo X. Desconsiderando-se a precedência de causa e efeito desses fatos, o que chama a atenção é a relação entre a cultura pop e a realidade. “Aliens” na vida real e mídia sobre aliens têm uma certa equivalência.
Em outro gênero de ficção, entretanto, tal relação parece não ser aplicável. Apesar da popularidade dos super-heróis ser anterior à dos OVNIs (Zorro já andava pela Califórnia pouco depois da Primeira Guerra), avistamentos e contatos de heróis são raros, praticamente inexistentes. E embora muitos por aí gostem de reclamar sua cidadania extraterrestre, quase ninguém se apresenta como super-herói – pelo menos não seriamente. Pena, pois os heróis seriam bem mais úteis.
A carência de heróis, mesmo dos falsos, provavelmente é devida aos atributos necessários para ser um deles. Para ser um OVNI basta voar (ou parecer voar) e não ser identificado, o que não é tão difícil. Para passar por alien basta escolher a roupa certa (ou errada, quem sabe). Mas para ser um super-herói é preciso dedicação, altruísmo e habilidades especiais. Certamente, três qualidades que dificilmente coexistirão em uma pessoa.
É evidente que é preciso se dedicar para ser um bom herói. Demanda-se uma vida dupla, com uma insuspeita face social e uma implacável face secreta de combate ao mal. Se nos dias insanos de hoje é difícil manter uma vida, um trabalho e uma face, quão mais não será manter dois de cada, correndo os riscos inerentes à profissão oculta? Quem conseguiria, tal qual Peter Parker, trabalhar, estudar, sonhar com MJ e derrotar vilões caricatos e sem propósito? Todos querem o poder, mas não a responsabilidade.
Em decorrência disso, quem teria o desprendimento de esquecer de si mesmo, tamanha a dedicação exigida para cuidar de si próprio, para ir corajosamente salvar os outros? É um tanto cliché entre os heróis de HQs que eles estejam vinculados a uma cidade. Gotham City, Metropolis, Nova York… o herói é uma personagem típica de seu meio em situações normais, e um estranho mascarado que se preocupa com os seus. Talvez essa característica seja um indicador do real anseio pelos heróis. Queremos que um exista, ou queremos ser um deles por pura preocupação com aqueles que são próximos, podendo defendê-los ou clamar por defesa tendo a certeza de ser prontamente atendidos.
Contudo, a autopreservação é uma voz superior. O anonimato das roupas coladas não ajudaria. O medo de acabar errando ou ter a identidade revelada e se tornar uma vítima do inimigo seria suficiente para afastar a maioria. O resto se sentiria mal com a opressão dos testículos.
Já a posse de habilidades especiais, a terceira das qualidades essenciais do herói, é o menor dos problemas. A grande maioria das pessoas é capaz de ter habilidades acima da média com algum grau de esforço. Poderes especiais talvez sejam raros ou inexistentes, mas mesmo que fossem acessíveis não fariam heróis. As habilidades dependeriam de dedicação e altruísmo, estas sim complicadas.
Enfatizando e concluindo, possivelmente é por isso que os heróis são inexistentes na realidade, apesar da abundância cultural. Ver coisas estranhas no céu escuro não demanda muito, mas caçar destemidamente o mal exige um preço alto demais. E isso nem é o pior de tudo. O que é realmente preocupante é que para ser um vilão basta ser mau ou fazer o mal, o que é extremamente fácil. O potencial para supervilões é altíssimo, ainda mais com uma concorrência tão baixa.

9/out/2009 às 16:01 |
Excelente reflexão, Teo. De fato, quando se tem de assumir responsabilidades e passar a agir em prol dos outros ao invés de si mesmo, ninguém quer saber. Por isso, há de se manter “de olho nas estrelas”, buscando algo tão fantástico quanto (?) os heróis, mas com muito menos esforço.
Abraços!
9/out/2009 às 19:30 |
Léo, te conhecí na matéria da revista Época, de 7 de setembro 2009.Desde então tenho acessado seu blog, confesso que estou gostando, acho que sempre estarei por aqui, parabéns.
12/out/2009 às 9:51 |
É possível encontrar OVNIs em quase todos as áreas de nossas vidas e também temos a tendência de agirmos dessa maneira.
Muito bom cara.
12/out/2009 às 22:46 |
Téo a vida é muito interessante mesmo, estive no seu casamento mas só lhe conhecí um pouco quando li a reportagem na revista Época.
Existem alguns heróis na vida real, mas não com as mesmas características das HQ, mas concordo é mais fácil encontrar um bandido. E creio que dizer que ver OVNI é coisa de bandido, por isso é tão fácil.
16/out/2009 às 11:41 |
Fé talvez o Filho do homem não encontre, mas acredito que a Noiva nascerá, se levantará, que seja, aparecerá de VERDADE!
22/out/2009 às 9:35 |
Sei que é chavão a frase.. muito chavão… de que para que o mal triunfe basta que os homens de bem se calem. Mas não consigo evitar de pensá-la (um tipo de pensamento viciado em chavões?)
Nunca tinha pensado num herói como parte integrante de um cenário social, sempre. Esse pensamento me iluminou.
Obrigado por escrever!
12/nov/2009 às 20:27 |
te achei em uma reportagem da revista epoca.
e sempre bom ve que rondonia tambem tem blogueiros.
finalmente nao sou o unico de rondonia.
viva \õ
12/nov/2009 às 20:58 |
Valeu, cara. Tem uns blogueiros escrevendo pelo estado, aos poucos eles se encontram.