Gatos e deuses

Há uma teoria que explica a causa do antigo assombro egípcio diante dos gatos. Não sei a fonte exata. O meio que me informou não a apresentou – seria exigir demais do History Channel. O certo é que a teoria aponta os felinos como a salvação dos vitais grãos, já que caçavam implacavelmente os ratos nos celeiros e casas.

O brilhante responsável pela teoria entende que aos primitivos egípcios, diante do heroísmo instintivo do gato, não restava opção senão venerar o animal, prestar culto e alçar seus bichinhos à condição de deus.

Como já deixei claro, não sei o nome do responsável, mas afirmo que a teoria é plausível. Em adição, leva ainda a outra teoria interligada, mais próxima e atual: a sociedade contemporânea não adora gatos porque conseguiu métodos mais eficientes para proteger seus alimentos dos ratos, como potes de plástico e venenos, que são mais baratos, não miam, não soltam pelos, não exigem caixa de areia e não carregam o risco relativo de transmitir toxoplasmose, além de serem completamente inadequados para figurar em um altar.

Essas duas teorias interligadas têm um efeito lógico interessante. A plausibilidade da teoria derivada acentua a inconsistência da teoria original. Afirmar que os egípcios adoravam gatos porque os bichos defendiam os grãos é carregar o ato de prestar culto de pragmatismo. É simplificar o que pode ter outras causas. Uma cultura que já tinha alguns milênios de existência quando confeccionou a primeira estátua de um gato divino conhecida hoje como a mais antiga estátua de um deus-bichano tinha o direito de ter motivos mais complexos que o problema dos ratos para como pretexto pra sua religião.

Acontece que religião é tida como algo tão ridículo hoje em dia, em meios acadêmicos ou não, que qualquer fato ou coisa ridícula é plausível para se chegar a um conceito sobre a religião. A existência da divindade explicava a chuva para o homem primitivo. A meteorologia provou que a chuva não é divina. Então deus nenhum deve existir. Sei que esse argumento é falho, e mesmo céticos não o usariam, desde que reservassem alguma inteligência para si. Mas parte de princípios parecidos e, inclusive, é utilizado algumas vezes.

A ideia que o primitivo criava um deus para explicar tudo o que era alheio ao seu conhecimento é preconceituosa. É como dizer que a razão humana esperou a Idade Média para que Ockham pudesse explicar que não se deve adicionar entidades além do necessário, como se antes dos pensadores europeus o homem não fosse capaz de entender por si que não faz sentido multiplicar as causas aleatoriamente.

É ser maldoso com os ancestrais imaginar que eles criariam a causa por demanda, de acordo com o efeito a ser explicado. Parece ser difícil perceber que um deus explicava a chuva possivelmente porque o homem entendia que existia um deus, e faria todo sentido se ele mandasse a chuva. É maltratar demais os pais dos homens de hoje, chamando-os de burros e incapazes, ainda mais quando se lembra que isso se origina  muitas vezes do desprezo íntimo à religião, implantando de forma sistemática nos últimos séculos.

Mas cinco mil anos depois os gatos e os ratos continuam se multiplicando. Geralmente, com várias exceções, não são tratados como divinos ou sobrenaturais, principalmente no caso dos ratos. Continuam bastante reais, como eram os deuses para os egípicios, e como é Deus para alguns hoje. Rebaixar, ridicularizar, mesmo que implicitamente, ou dar explicações simplistas para a religião dos antigos ou dos contemporâneos, chamando-os de primitivos e atrasados é injusto. Até porque, considerando que milênios de desenvolvimento tecnológico depois os ratos ainda são um problema de saúde pública, pode-se dizer que atrasados e primitivos todos são.

11 respostas a “Gatos e deuses”

  1. ZitosLoko disse:

    Olá! Cheguei até seu blog através da revista Época! Cara, pelo que eles falaram e eu pude comprovar com seus textos, você é um crânio!! Escreve muito bem, e tem tudo pra dominar a blogosfera! Show de bola!! Fiz uma síntese da reportagem no meu blog, pois não resisti a encontrar vida inteligente por aqui! Um abraço e sucesso!

  2. Luis Hipolito disse:

    Tudo bem?

    Parabenizo o Blog Um Bicho de Rondônia pelo destaque que teve na reportagem na Revista Época. Um abraço e sucesso!

    Feira de Santana, Bahia, Brasil

  3. Leda Beck disse:

    Caro Teo,
    eu também cheguei a seu blog através da Época – e dei com este texto sobre religião. Com todo respeito por suas eventuais crenças, permito-me discordar um tiquinho: chamar um povo de “primitivo” ou dizer que os antigos egípcios cultuavam os gatos porque estes preservavam os grãos ao matar os ratos não embute o tom pejorativo que você atribui à “teoria” (concordo plenamente que o History Channel não é uma boa fonte para coisa alguma em matéria de história).
    Pessoalmente, acredito que tudo aquilo que bilhões de pessoas hoje, nas mais variadas religiões, chamam de “deus” será um dia explicado pela ciência – como o Tupã dos nativos brasileiros é hoje claramente entendido como um fenômeno natural. “Deus”, na minha opinião, também é um fenômeno natural – e haverá de ser um dia ampliado (não reduzido) à condição de energia da vida. É claro que revesti-lo de rituais de todo tipo, orações e dogmas ajuda muito a sobreviver à angústia de um mundo cada vez mais confuso. Por isso compreendo que os egípcios adorassem os gatos em seu mundo mais simples e que, hoje, adoremos vários “gatos” de nomes e trajes diferentes, mas que respondem à mesma angústia existencial fundamental: de onde vim? onde estou? para onde vou? As respostas surgirão com o tempo individual ou coletivo – com gatos ou sem eles.
    Abraço,
    Leda

  4. Teo Victor disse:

    Leda, obrigado pelo comentário e visita!
    O que contesto é justamente essa inversão de causa e efeito. Concordo que chamar algo de primitivo não é necessariamente pejorativo, pelo menos não no sentido que eu ou você atribuios ao termo. Contudo, é muito utilizado para rebaixar algo, inegavelmente.

  5. Luiz Sergio disse:

    Prezado Téo Victor,
    gostei do que lí e ví em seu blog.
    Sou do oeste do Paraná.
    http://wosiack.wordpress.com
    Tomei a liberdade de colocar um link do seu blog na minha página.
    Parabéns, continue assim.

  6. miranda disse:

    Acho que tu vai bombar agora que saiu na Época.
    Abraços

  7. Batista/ipatinga(MG) disse:

    Caro teo,

    Sou assinante de Época e achei muito interessante a matéria sobre vc. Isso só vem provar que não existe barreira, quando existe disposição para buscar. Achei também muito interessante as ponderações feitas por Leda Beck, sobre o seu texto “gatos e deuses” que também é bastante interessante; Porém gostaria de ti dizer que o assunto “Religião” é sempre muito intrigante, por se tratar de algo tão intimo para cada indivíduo. E o Egito, foi de certa forma um grande precursor do ideal humano de encontrar seu criador “DEUS” e o culto ao “Felino” data de um período muito remoto da cultura do antigo Egito. E o culto ao felino existia não pelas qualidades do mesmo ser um bom caçador de ratos, e sim pelo fato de os egípcios verem no animal algo de sobre natural.

    Abraços, Batista
    P.S.: Continue, vc será sempre uma referencia!

  8. Interessante saber que existe vida inteligente em Rondonia. Sou daí também,ok?

    RK

  9. Teo Victor disse:

    Luiz, Miranda, Batista e Roberto, obrigado pelos comentários. =)

  10. Gerosmivaldo disse:

    Bom, não poderia deixar de vir parabenizar, embora saiba que a interpretação da epoca feita sobre Teo, foi um tanto forçora e poetizada, afinal o conheço a tempo e posso afirmar com propriedade que de forma alguma percebi aquela criatura fragilizada estereotipada em nossa adolescência, muito pelo contrario, com sua sabedoria e força sempre soube se posicionar sobre as dificuldades da vida pode influenciar positivamente os VARIOS amigos que teve. Sou fã racional.

    Quanto ao texto em si, acredito que realmente houve uma simplificação em demasia, mas entendo que havia a necessidade de explicar certas causas e para isso foram utilizados de modelos comuns para tal. Preconceituoso? Sim… talvez, mais todos tem que comecar de uma forma, e esperar que todo um povo acomodado nas crenças e nos beneficios (sim porque toda religião tras algum beneficio a alguem) passasse a entender o conceito proposto no texto é superestimar o povo que andava “de pé”. Voltando ao pressuposto, não poderiam atribuir um outro fenomeno ao mesmo Deus ja que seria meio que inconcebivel um gato “fazer chover” alem da preservação dos gãos e tal, dai a pluralização. Porque o gato fez sucesso? Entra em cena, o jogo do poder e os soberanos que tinha seus deuses predileto e o impunha sobre os demais.
    Contextualizar para os dias de hoje e aplicar à todas crenças é anular todas de igual forma por se basearem em milagres e acontecimentos que possuem explicações desconhecidas, e nessa maximização da ideia “Deus” em energia da vida é o mesmo que dizer que não houve mudança na forma de pensar e que logo descobriremos mais um “Tupã”.
    Dessa forma realmente primitivos todos são!!

  11. Thais disse:

    Excelente ensaio! Vou recomendar este blog. =D
    Parabens pelo destaque na reportagem da ÉPOCA.

    Abraço;

    Thais Cruz

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