Todos precisam de um saco de pancadas pra aliviar a tensão, ou simplesmente pra se divertir, batendo em algo sem ser repreendido por isso. Os sacos de pancadas das academias, entretanto, não aliviam ou divertem tanto assim. Não reclamam, choram ou esperneiam. É aí que entram pessoas nessa vaga. Para alguns jovens, pode ser um índio tido como um mendigo. Para outros, uma mulher que tomaram por prostituta. Para os alunos do ensino médio, o nerd fraco e raquítico serve, principalmente por ser fraco e raquítico.
Em um contexto social mais amplo, a religião se transformou no nerd feio da sala. Na falta de alguém ou algo pra espancar, implique e bata nele, pois não é necessário motivo pra isso, já que nerds feios têm essa função social desde antes do termo nerd surgir. Em tempos que até igrejas, pastores, autores de livros cristãos e líderes dizem que a religião não serve pra porcaria qualquer que seja, não é de se admirar que ela se torne um inimigo comum, ou pelo menos um mendigo putativo que deve queimar no fogo de um circo macabro.
Os argumentos para transformar a religião em alvo geralmente envolvem denúncias de manipulação e violência. Citam sacerdotes e teólogos mentirosos, inquisição intolerante, guerras com motivos religiosos e até partidas entre Celtic e Rangers.
É estranho como uma prática geral se transforma em uma condenação tão específica. Mentirosos e manipuladores existem em todos os meios: políticos, educacionais, científicos e até familiares. Ninguém está a salvo. Guerra e intolerância está longe de ser privilégio religioso. Imagino um déspota no início da civilização. Fosse sua mente não tão perturbada, ele entenderia que atacar a tribo rival apenas porque o deus deles é mais bonito não seria algo nada inteligente (sim, o homem daquela época era já bastante inteligente). Seria melhor poupar forças e lanças para o caso dos inimigos invadirem a plantação de batatas, o que geraria um prejuízo significativo.
Ideologia independe de religião. Quem acredita em guerra religiosa tem bastante fé para não ver que a maioria delas tem um pesado fundo político. Até os terroristas fundamentalistas islâmicos aparecem em seus vídeos condenando o modo de vida americano, o consumo e o imperialismo, cientes de que citar o Corão não é tão eficaz para explicar seus métodos. A religião pode ser usada de forma desprezível como um argumento para reforçar os motivos da guerra. Foi assim usada desde muito tempo, passando por Urbano II e até George W. Bush.
Mas quem acha que as Cruzadas e a Guerra do Iraque tiveram motivação cristã parece se esquecer do promissor comércio com o Oriente em ambos os casos, além da falta de recursos do ocidente em um e outro. A diferença entre as duas situações é o petróleo. Assim como a diferença entre a violência do clássico Celtic e Rangers e a dos jogos entre Palmeiras e Corinthians, ou dos times do Rio, é apenas o país dos envolvidos. As torcidas cariocas não precisam de motivação religiosa para esperar seus adversários em emboscadas com fuzis e pistolas. Estranho é que usam o argumento religioso com todos os fatos demonstrando a existência de violência envolvendo o futebol. Sem contar que as torcidas violentas dos times escoceses estão ligadas a grupos terroristas extremistas, como mostram suas manifestações nos estádios. Inexistindo religião ou futebol, a violência entre os grupos seria a mesma, já que grupos extremistas usam a religião como desculpa – sem a religião encontrariam outra. Os críticos incondicionais esquecem o essencial para apontar algo marginal como o principal motivo. É injusto.
Chega-se a um ponto de a repressão a uma marcha para defender um entorpecente ser considerada um absurdo. As pessoas têm de fato o direito de manifestar seu pensamento. O estranho é a repressão à maconha ser condenada, mas a repressão à manifestação religiosa em campos de futebol ser aplaudida. Sou contra as camisetas com dizeres cristãos que Kaká e Lúcio usam, mas por motivos cristãos, querigmáticos, por achar que não atingem o objetivo e são um método falho. Não contesto o direito de exibirem as camisetas com o nome do Altíssimo. Contesto a validade cristã em si, assim como não contesto o direito dos manifestantes da maconha – contesto a eficácia da medida que eles defendem para conter o crime e melhorar a saúde pública.
Essa visão tosca das coisas nasce do julgamento do todo através do vislumbre da parte. O regime militar reprimia com armas os dissidentes. Mas poucos se lembram que os dissidentes também usavam armas – e matavam os seus próprios dissidentes. Pessoas sensatas concordam que julgar a direita política através dos abusos do regime militar e julgar a esquerda política pelas práticas das guerrilhas é lamentável. Por que julgar a religião então através das práticas de alguns? Reduzir a religiãos aos métodos extremistas é como reduzir a ciência a Josef Mengele.
Ninguém deixa de ir ao hospital por causa dos médicos nazistas, mas oitocentos anos depois a religião é estigmatizada pela lembrança das Cruzadas. Daqui a mil anos dirão que um muçulmano, impelido por sua ideologia religiosa, jogou um avião em uma torre, mesmo que um bilhão de muçulmanos jamais gostaria que isso acontecesse.
A humanidade gosta de manter ao seu lado um denso véu, onde ela pode esconder aquilo que não gosta. Mesmo que a violência e a intolerância existam em todos os círculos, a religião tem assumido a culpa pela maioria deles. Na qualidade de bode emissário, deve ser enviada para longe, no deserto. Deve ser posta atrás do véu, nua e castigada, em um lugar santíssimo e inacessível, como culpada por tudo que os homens fazem. Quando precisarem de uma explicação para o mal, abre-se o véu e a vergonha é exposta, como em um espetáculo de bizarrices. A religião, dessa forma, é desacreditada e escondida, sua manifestação é vista com péssimos olhos, e ela pode ser apresentada sempre que precisarem de alguém pra carregar o fardo da maldade.
Sempre se precisa de um culpado, e geralmente não é quem tem a real culpa. O índio em chamas é debitado na conta da sociedade, que não criou alternativas para que ele não dormisse no chão, nem educou corretamente os seus jovens. Não foi a sociedade quem jogou álcool ou ateou fogo, mas a culpa permanece com ela. A culpa se torna genérica quando o agressor precisa se livrar. Enquanto se discute a culpa, mais gente pode ser queimada.

8/ago/2009 às 15:40 |
Isso me trás à lembrança a afirmação de não crentes em geral, quando dizem que a religião, mais precisamente o cristianismo, representaram mais de 1000 anos de atraso para a ciência. Na verdade, esse atraso, assim como as cruzadas, devem ser colocados na conta da igreja esmagadoramente dominante na época, que dentre outras coisas proibiu o acesso à Bíblia ao mortal comum e que para piorar ainda mais a situação fazia seus cultos em uma língua que ninguém entendia.
As cruzadas e os 1000 anos de atraso devem ser atribuídos não à religião, mas à falta dela e à política.
10/ago/2009 às 7:44 |
Excelente.
Com certeza e com o passar do tempo a igreja tornar-se-á mais e mais a imagem e semelhança do bode emissário. É, a meu ver, o que dizem as Escrituras.
Discordo do conceito usual e mundano de igreja vitoriosa. Vitoriosa, sim, no plano espiritual, mas no plano natural e físico, execrada e morta; tal qual o seu Dono.
“…e será dado poder à besta para vencer os santos”.
Um abraço.
10/ago/2009 às 14:15 |
Cara, grande reflexão.
Suas linhas de ponderação e bom senso me avivam a esperança de uma blogosfera cristã relevante, coerente e responsável.
Abraços.
10/ago/2009 às 17:08 |
Finalmente o equilíbrio maduro aparece no ambiente cristão emergente.
O problema não é a religião, mas a falta do amor, pois a iniquidade humana sempre encontra um caminho, independente da ideologia.
Prazer em conhecê-lo, Teo.
12/ago/2009 às 17:33 |
Concordando com o Alexander acima, os corações já estão praticamente numa era Glacial.
Não se vê tanta desgraça, injustiça etc., num meio amoroso e de compaixão.
Nem há muito o que se fazer, apenas com o modo de viver intacto tentar mostrar para os outros que nem tudo está perdido… como foi muito bem mostrado nesse texto.
É a pura verdade.
13/ago/2009 às 20:59 |
Marcos, é justamente isso.
Pr. Julio, ironicamente, a visão do triunfo putativo na igreja atual é causa de ruína. Merecidamente, claro.
Adriano e Alexander, muito obrigado!
Dâmaris, a gente conversa, hehehe.
11/set/2009 às 16:20 |
O fato é que bodes expiatórios são necessários para a preservação do desvio de foco. Ponderação pode ser a palavra que resuma teu texto apesar de achar que o meio-termo pode também ser um extremo… enfim.
22/out/2009 às 9:26 |
Seja a religião culpada ou não, o ‘inconsciente coletivo’ de nossa geração (ou coisa que o valha) já fez o seu julgamento….
22/out/2009 às 13:22 |
excelente