O Adversário – Entra a acusação

A notória escassez de referências ao diabo na Bíblia é ainda mais forte no Antigo Testamento. Além da menção à Serpente em Gênesis, enquanto ser chamado Satanás somente há referência em outros três livros,  em dois deles em pequenas passagens, e uma controversa e meramente possível referência indireta em I Samuel a ser tratada em outro texto mais adequado. Não há, inclusive, conexão óbvia entre Satanás e a Serpente.

Nos textos em que Satanás recebe este nome há também uma identidade pessoal evidente de causador e instigador de intrigas e polêmicas a nível cósmico. Em Crônicas, na primeira menção do nome Satanás na Bíblia, este aparece incitando o rei Davi a realizar um censo populacional mal explicado e subjetivamente pecaminoso. Tal fato gerou uma estranha punição divina com alternativas dadas ao rei.

Outra pequena menção acontece em Zacarias, quando Satanás aparece em uma visão do profeta como opositor do sumo sacerdote Josué, que se mostrava com roupas sujas diante de um anjo. Enquanto os atos do anjo simbolizam redenção com a troca de roupas manchadas por roupas festivas, Satanás parece estar acusando a situação deplorável do sacerdote.

Certamente, a visão de Zacarias é simbólica, cravada entre dois capítulos ainda mais simbólicos. Contudo, Crônicas é um relato histórico em que a inédita instigação satânica é um detalhe aparentemente desnecessário. De qualquer modo, em ambos a apresentação da personagem é consistente e comparável. Porém, tanto da visão de Zacarias quanto da incitação em Crônicas poderia se supor que Satanás é uma mera figura para um aspecto da personalidade humana. Esta visão seria harmônica até mesmo com a apresentação da Serpente.

É neste ponto que o livro de Jó apresenta uma resposta a tal ideia que, embora permita uma refutação (não cabal, ressalte-se) à descrição de Satanás como o lado negro do ser humano, lança mais dúvidas sobre o misterioso ser que as responde o que, aliás, é típico da Bíblia.

Jó é um belo livro poético e de discussões profundas. Fato interessante é que a deixa filosófica de todos os acontecimentos e debates no livro, como bem apontou Paul R. House¹, é de autoria do próprio Satanás: “Porventura serve Jó a Deus debalde?”

A pergunta é maldosa e carrega intenções ocultas. Satanás buscava o direito de demonstrar a Deus que Jó não era um servo legítimo, pois desfrutava de ampla proteção divina. E o modo provar seu ponto era perverso: afligir o homem. Deus autoriza a ação, e segue-se uma sequência de rápidas e intensas destruições e um demorado combate de ideias e lamentações envolvendo Jó em ruína e alguns amigos.

Apontar Satanás como o lado mau da humanidade não se alinha ao que é mostrado em Jó, já que teríamos que admitir que o lado mau de Jó compareceu diante de Deus, prestou testemunho contra si próprio, pediu autorização para acabar com a própria vida, matou seus filhos, servos e animais, destruiu a sua propriedade, contaminou o seu corpo com uma doença e se feriu propositalmente. Isto é, teríamos que entender Jó como uma pessoa esquizofrênica, com arroubos de Darth Vader, psicopata e masoquista².

É possível dizer que Jó é um livro poético e de sabedoria oriental antiga, o que o exime de um compromisso severo com a realidade das coisas. De fato, mas como livro bíblico sua natureza lírica e sapiencial não o exime de ter compromisso com a realidade da essência das coisas. A desobrigação de ser exato não desobriga de fazer sentido. E harmonizando-se Jó, Zacarias e Crônicas dizer que Satanás é um acusador e gerador de controvérsias envolvendo o relacionamento de Deus com a humanidade tem mais sentido que tê-lo por alter ego de Adão.

Como brinde chega-se com isso ainda a uma descrição compatível com o que se vê na Serpente. Mesmo com pouca fonte textual tem-se então uma descrição coerente de Satanás através de todo o Antigo Testamento como uma pessoa de caráter obscuro, perversa em propósitos e métodos e com forte talento para acusar. Até aqui, antes que Mateus comece a escrever, é basicamente o que se pode dizer.

1 Em Teologia do Antigo Testamento

2 Explicação necessária: não recorri à falácia do espantalho – não se trata de um argumento, mas de uma brincadeira que escapou à resistência.

7 respostas a “O Adversário – Entra a acusação”

  1. estevanix disse:

    Ei Teo.
    Novamente, um bom desenvolvimento.
    Muito embora o tema aqui seja “O Acusador”, percebi que você (propositadamente?) ignorou as passagens de Isaías e também Ezequiel em sua alegoria sobre o rei de Tiro. Era esta sua intenção? Ou pretende tocar no assunto depois?

    Abraços,

  2. Teo disse:

    Foi proposital, Estevam. Vou abordar em outro texto Ezequiel e Isaías, como disse na introdução, e o controverso “espírito mau da parte do Senhor” que perturbava Saul. Seria extenso demais falar deles aqui.

  3. Fearless disse:

    Muito bom o texto, Bicho. Você inclusive toca na questão da poesia hebraica que estamos discutindo no FB.

    Você também pretende falar do espírito enganador da visão de Micaías em 1Reis 22?

  4. Teo disse:

    Tinha esquecido dessa referência, Fearless. Valeu por lembrar. Por isso é bom demorar um pouco pra postar nessa série pra conseguir abranger a maior parte dos casos.

  5. Walter Cruz disse:

    Curioso é que no livro de Jó Satanás sai dos bastidores apenas para nós, nunca para Jó. Comentário que não comenta nada: sempre que eu leio ‘ideia’ eu tenho de ler a palavra 3 vezes até me convencer do que se trata. Aguardando os próximos da série!

  6. Rap disse:

    Não sei Teo, mas citar I CR

    “Em Crônicas, na primeira menção do nome Satanás na Bíblia, este aparece incitando o rei Davi a realizar um censo populacional mal explicado e subjetivamente pecaminoso.”

    Onde você mesmo admite uma estranha relação entre o censo e o pecado e logo depois mais duas passagens não parece ser o suficiente para afirmar que a visão coerente que podemos aferir do Diabo é essa:

    “Mesmo com pouca fonte textual tem-se então uma descrição coerente de Satanás através de todo o Antigo Testamento como uma pessoa de caráter obscuro, perversa em propósitos e métodos e com forte talento para acusar.”

    Aliás pegando um pouco no pé da semântica, tu utilizou a palavra pessoa, seríamos capazes de biblicamente definir o demônio como sendo realmente um anjo?

  7. Teo disse:

    Rap, quantas passagens seriam suficientes pra se corroborar a visão? Exigências numéricas nesse caso não fazem sentido – o texto é quem tem que fazer sentido, e desacreditar uma interpretação por pouca fonte (ou por excesso) é apelo numérico.

    Nessa análise linear que tenho feito, com o material bíblico que já foi considerado não é possível nem definir o que é um anjo, quanto mais se Satanás é um deles.

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