Texto parte da série O Adversário. É recomendável ler os motivos expostos na Introdução.
Gênesis começa com uma narração mítica do início das coisas, seguida pelo dramático início da raça humana. O primeiro relato mostra o caráter muito bom da criação (incluindo o homem) em seu estado primitivo, e a primeira parte do segundo relato mostra, também de forma mítica, a origem da união entre homem e mulher e suas funções e a inocência da humanidade recém-criada.
O início do livro põe as coisas em seus devidos lugares no sentido ideal, mas no sentido real o mundo criado em Gênesis 1 e 2 não se parece com aquele que qualquer ser humano conheça. O capítulo seguinte, continuação direta do segundo, põe as coisas em seus reais devidos lugares. Gênesis 3 responde a velha pergunta sobre a existência de mal em uma criação de um Deus completamente bom. Não pelas maldições proferidas no texto, ou pelo consumo de um fruto proibido em si, mas devido a tendências implícitas na narrativa.
Revendo a história que todos conhecem, em um parágrafo desnecessário para dois bilhões seres humanos: homem e mulher começam suas vidas com um jardim esplêndido e uma ordem divina simples: não comer do fruto de determinada árvore. A Serpente, misteriosa personagem, convence o primeiro casal a quebrar o mandamento e deliciar-se com o fruto. Expulsa do Éden, a humanidade tem que lutar em uma realidade agora imperfeita, enquanto a Serpente se torna inimiga perpétua do homem, condenada a uma existência repulsiva.
Vários erros devem ser evitados ao se lidar com a narrativa em questão. O primeiro deles é tentar localizar o Éden fisicamente, mesmo que algumas referências do Jardim mencionadas em Gênesis tenham nomes de lugares reais. Se o Éden era um lugar determinado onde o homem podia viver a perfeição, e ser expulso de lá significasse cair na corrupção, então a Criação não era muito boa – apenas os limites do jardim o eram. O Éden não é um lugar, mas um estado, um conceito, um símbolo da Criação boa e em contato com o Criador, o ideal, aquilo que a realidade era e deveria ser.
Outro erro é associar a Serpente às serpentes, mesmo que isso pareça óbvio. Tentar associar o relato ao processo evolutivo das cobras, baseado em fósseis ou o que quer que seja, ou entender que a cobra estava sofrendo uma experiência mediúnica, de possessão ou ventriloquismo é ridicularizar a história. A Serpente tentadora não é uma cobra falante. É, também, um símbolo, desta vez de uma entidade sutil, sorrateira, astuta e capaz de encher o mundo incorrupto de peçonha.
Os erros mencionados são primários, e decorrem de uma leitura desnecessariamente literal do texto ou de uma tentativa de validá-lo com “ciência”. Outro erro, menos prático e mais conceitual, é o mais incorreto que se pode retirar do relato da Queda, e consiste em ver a Serpente, seja ela quem for, como a origem do mal.
Na visão bíblica não há espaço para uma entidade fonte de todo mal, como Deus é a fonte de todo bem. Parece natural que, se todas as coisas são boas por causa Daquele que, como há muito tempo apontou Anselmo de Cantuária, é bom em si, e fornece o bem que permeia as coisas, então há um que é mau em si, e que fornece mau que há nas pessoas. Contudo, tal ideia não encontra base nas Escrituras. Deus diz, em outro ponto, que faz o bem e cria o mal. Fosse a Serpente a fonte do mal, um antagonista eterno do Deus único, seria, antes de tudo, um deus do mal, uma força de equilíbrio cósmico. Seria a face escura do deus, sem a qual nada, nem o deus, existiria.
Tal ideia pode talvez se encaixar em algumas filosofias, mas não tem pontos de contato com a Bíblia. Não há lugar no entendimento bíblico para uma causa primeira do que quer que seja, até mesmo para o mal, que não seja Deus. A apresentação da Serpente como um dos “animais do campo” fortalece a visão de um ser criado, não de um deus eterno e oposto ao Criador do mundo.
Um parêntese se faz necessário para explicar como Deus é também a origem do mal e continua bom, e para isso é preciso diferenciar os termos origem e fonte nesta argumentação. Uma nascente é uma fonte de água, mas a origem da água que jorra na nascente é o subsolo. Portanto, origem e fonte são coisas distintas, e isso não faz sentido apenas para o parêntese, mas para o restante das coisas que menciono aqui.
Deus, como origem do bem, jorra este mesmo bem através das coisas criadas que, nesta analogia, são fontes. Uma nascente má não é uma fonte que necessariamente jorra algo diferente de água, mas provavelmente, e mais aceitavelmente, uma nascente que deixou de jorrar água, já que se nunca tivesse provido água não seria considerado uma nascente. Com isto, a maldade não é necessariamente algo diferente de bondade que flui através de diversas fontes vinda de uma origem diferente da Origem do Bem, e na visão bíblica faz todo sentido que não o seja. Maldade é fechar a fonte, não substituir sua origem. É bloquer a ligação com o Criador, perdendo o fluxo contínuo da essência divina, tossindo aleatoriamente alguns goles de uma impura água com certo grau variável de sujeira em suspensão.
Portanto, a Serpente surge no Éden como uma fonte seca, não como uma origem abundante de algo criativo. Sua intenção é drenar outras fontes, já que fazer o mal é negar o bem existente, não criar algo de fato. O engano proposto a Eva, isto é, o de tornar os homens como Deus, visava apenas tornar a humanidade à imagem da Serpente, ou seja, uma raça árida, desconexa e errante. Os motivos e a identidade definitiva da Serpente não são explicados imediatamente, e só podem ser presumidos com o decorrer de toda a leitura. Mas seu objetivo foi atingido em parte. Os homens se tornaram áridos e errantes, mas graças a Deus, literalmente, o vínculo com a Origem pode ser restaurado.

Abordagem lúcida e muito interessante esta Theo. Gostei.
Um detalhe [off] sobre a localização física. O argumento é interessante mas não me parece justificar a lógica. Especialmente porque você transforma o jardim e o Éden numa coisa só. E não eram. O jardim fora plantado NO Éden e deste mesmo jardim o homem foi expulso para que não comesse do fruto da arvore da vida.
O homem não vivia em perfeição porque estava no Jardim,(uma coisa não subentende a outra) mas sim por causa do seu relacionamento com Deus. Não vejo porque pensar que o homem não pudesse antes da queda livremente sair do jardim, haja visto que a serpente podia entrar…
Fora dos limites do jardim, o homem agora teria que fazer o mesmo que fez Deus, plantar. Isto por si só, a meu ver, não torna o restante da criação ruim. Quem sabe eventualmente a humanidade o fizesse a medida que povoassem a terra? O grande problema estava na circunstância em que isto ocorreu.
Portanto acredito que o jardim (além de representar também um conceito) era um lugar, que não existe mais, mas que de fato fisicamente existiu.
Abraços,
Ótimo comentário, Estevam. Se todos lessem as postagens como você lê e se preocupassem em argumentar como você argumenta eu teria bem mais trabalho, como também já percebeu o Thiago. Mas seria bastante interessante. =)
De certa forma entendo o Jardim como a representação da possibilidade do contato direto com o Criador. Deus passeava pelo Jardim e procurava Adão, e o paraíso perdido é a forma de expressar o sentimento de perda que o homem tem depois de perder Deus de vista.
A Serpente é uma criatura, e o fato de ela estar lá pode indicar apenas que ela já estava lá, e não que ela podia entrar. Mas isso já é especulativo demais.
De qualquer maneira, o que eu acho coerente é que o Éden e principalmente o Jardim (coisas distintas, como você corrigiu) não sejam lugares reais, mas representações, mas acredito que realmente exagerei ao afirmar categoricamente que não eram.
O problema principal no erro que apontei é se preocupar em localizar fisicamente o Éden em um mapa, ou estimar quando o Jardim deixou de existir, ou apontar como era o local em si. Isso não é útil – o Éden é mais importante como conceito que como coordenadas geográficas.
Ei Teo,
Isto quer dizer que você também estaria dez anos mais velho? Isto é quase um spa ao contrário =D
Mas concordo com você. De fato o conceito do jardim é muito mais importante que sua localização.
Meses atrás ouvi alguém falando como a vida eterna é em certo modo retornar ao jardim, ao estado inicial de comunhão. Porém retornamos ao que poderíamos ter sido, não fosse a queda. Onde antes o jardim, agora uma cidade. (Algo como um “De volta para o Futuro” celeste…=)
Abraços.
Dez anos mais velho acho que não, mas pelo menos ainda mais cuidadoso com o que escrevo estaria. Quem não é questionado acaba falando o que quer… hehehe
De volta para o futuro é uma boa referência. Até que eu gosto da série. =)
Belo texto, profundamente coerente com o que eu penso (eu ia dizer profundamente bíblico, mas depois vi que só é produndamente eu-mesmo).
Quanto a questão de um jardim literal x um jardim psicológico/mitológico/metafísica, embora não nos leve a um beco com saída, eu conjecturaria: que tal os dois? Talvez, num mundo não decaído, não houvesse barreira entre físico e metafísico, entre espiritual e natural. Mesmo a nossa religião tem dois sacramentos que são do nosso ponto de vista coisas que acontecem apenas na dimensão física, mas que damos significações espirituais. O que eu estou sugerindo é que, talvez, as realidades visíveis e invisíveis se interpenetrem de uma forma muito mais profundo do que possamos divisar, ou tenham se interprenetado assim antes da queda, ou sejam assim numa dimensão a qual nós somos alheios, ou que seja assim no nosso futuro pós-redenção (e veja, como a redenção já aconteceu para nós, talvez tudo o seja agora, como Ele é). Mas tudo isso é conjectura que cabe nos meus sonhos e devaneios, e nessa caixinha de comentário.
Gostei muito da idéia de uma fonte seca, é uma idéia que nunca tinha me ocorrido. Pensarei mais a respeito (curioso, a idéia de que de alguma forma o adversário e o pó estejam ligados sempre aparece na Palavra).
Correndo o risco do Rap dizer que estou montando uma heresia lewisiana, correndo o risco de você já ter lido, Lewis elabora uma opnião pessoal sobre o mito da queda no livro O problema do sofrimento, e dá a sua visão mitológica/ficcional em Perelandra. Abraços!
Nada Walter, sem maiores comentários tecidos sobre opiniões lewisianas ao menos no momento.
Só realmente queria destacar a distinção bem posta sobre fonte e origem. Creio que é um ponto fundamental para a relação de muitos cristãos com os problemas atuais, e consequemente sua visão sobre Deus e virtuais agradecimentos e entendimentos.
tenho a grata oportunidade de lêr estas linhas com muita tenção e chego a pensar que: estou lendo um declaração do próprio demônio revoltado com as coisas criadas pelo Deus Altissimo,suas intweçoes são claras de alguém revoltado com a situação em que encontra-se, voçe tem idéias satânicas e é capaz de iludir com suas palavras os menos desavisados,e os vacilantes da fé.digo-vos que existe um povo escolhido para ir para o céu,e que não dorme em serviço,estamos atentos não só as coisas do mundo fisico mas ao que nos interessa são as coisas espirituais,não tente me enganar com essa mente vazia e contraditoria,rebelde.sou um cristão,que não gosto de ouvir blá blá blá dos incredulos,melhor séria que vc tivesse fé naquilo que naõ se vê,mas no que se espera.não busque atalhos no escuro pois acabrá caindo num profundo buraco,procure a luz que é JESUS DE NAZARÉ.
O.o
Impressionante.
=)