O ambiente cristão na blogosfera é tão heterogêneo quanto no âmbito eclesiástico. Isto não é novidade para ninguém que conheça pelo menos meia dúzia de bons blogs de cristãos pela Internet. Talvez não seja novidade até para quem conheça menos de meia dúzia de péssimos blogs no geral.
Uma rápida passada em blogrolls permite visitar adoradores extravagantes, puritanos argumentadores, neopentecostais e numerólogos propagadores dos modelos e ideais relacionados ao 12. E um número expressivo é o de blogueiros que preferem não se identificar com nenhum grupo, mesmo que tenham vínculo com alguma igreja ou denominação, uns porque têm alguma queixa justa a respeito de uma instituição cristã, outros porque acham isso atual e intelectualmente interessante.
Os mais atentos sabem que este último grupo tem rendido algumas discussões calorosas. Geralmente pessoas desse grupo usam uma linguagem sarcástica, e recorrem com frequência ao deboche para lidar com questões da cristandade. O fato de o Pavablog ser o maior exemplo deste fenômeno é, das novidades deste texto, a menor.
O próprio Sérgio Pavarini, eleito jocosamente apóstolo dos blogueiros pelo Dotcast, disse no programa de TV Hora Brasil, de Ronaldo Didini, que a Internet acaba se tornando a expressão de quem não tem voz na igreja. Não nestes termos, mas esta é a ideia, previno antes que alguém que tenha assistido o programa e possua memória melhor que a minha lembre que eu mudei a frase apostólica…
O certo é que a liberdade que os blogueiros têm, em oposição aos tabus da Igreja, faz nascer muitos questionamentos. Como exemplos das discussões geradas nesse meio cito dois eventos recentes envolvendo o principal alvo da blogosfera atualmente – a igreja Renascer em Cristo. Os dois fatos são o desabamento do teto da sede da igreja, e a consagração como pastora de Caroline Celico, esposa do Kaká. Ambos renderam muitas postagens e comentários cáusticos.
A maioria sabe que Estevam e Sônia Hernandes são infratores da lei (ou criminosos, sem eufemismos) apanhados pelas eficientes garras da justiça americana. Pouca gente informada duvida que eles também infringiram uma série de leis brasileiras, e só não foram presos antes por aqui porque a justiça brasileira não usa garras, mas pantufas cor-de-rosa com formato de coelhinho. Menos gente ainda duvida que mesmo que eles não tivessem infringido lei alguma, falta-lhes caráter e prática cristã para chamarem a si próprios de apóstolos, ou mesmo de líderes cristãos.
É notório o mal que o casal apostólico e líderes como eles causaram ao nome dos evangélicos em geral, a ponto de esse nome ter se tornado quase um xingamento. Apesar da aparente obviedade etimológica, o termo não identifica gente entendida das Boas Novas de Cristo, mas gente alienada.
Tudo isto é lamentável, e de forma alguma se deve deixar de expor absurdos cometidos no meio cristão. Os blogueiros têm liberdade, e devem usá-la. A voz dos blogueiros conscientes reunidos é profética e, adaptando ao contexto a frase atribuída a um apóstolo legítimo, pode muito em seus efeitos.
Mas denunciar atos e conceitos malignos e prejudiciais é uma coisa. Outra bem diferente é ter picos de prazer ao saber que o teto da sede da Renascer desabou, ou zombar do fato como se falcatruas justificassem esmagamento por vigas de madeira. Alegrar-se com a tragédia do adversário é lamentável de qualquer ângulo, e a postura do Thiago Bomfim em seu texto sobre o assunto segue a mesma lógica perversa e tão criticada dos fundamentalistas americanos que atribuíram a culpa pelo Katrina à libertinagem em Nova Orleans e o tsunami da Indonésia à idolatria e ao islamismo.
Em relação ao outro assunto, questionar a consagração de uma jovem e rica empresária e esposa de jogador de futebol também é, obviamente, uma coisa. Compará-la a uma criança psicologicamente perturbada e com um futuro promissor em problemas psiquiátricos é outra. E fazer trocadilho com o nome da jovem e uma música de sentido dúbio, com fundo (sem trocadilho) pornográfico é desrespeito.
O Pavarini tem todo o direito de questionar o fato, e tem também o direito de tirar sarro. Mas em seu comentário sobre o assunto nada ficou claro. Ficou a impressão que a única intenção é zombar e por fogo no circo. O problema nem sempre é oque se fala, mas às vezes é como se fala. Também acho que ungir a garota como pastora é marketing, mas não posso afirmar com certeza. Pode ser um desejo dela. Também é válido questionar se o desejo só foi atendido por causa da posição social. Disso não duvido, mas até isso não pode ser afirmado em definitivo.
Não sei se os cristãos outrora reprimidos estão deslumbrados com sua liberdade. Mas sei que a recomendação de Jesus para imitar as serpentes não está sendo seguida à risca – ao invés de imitar a prudência dos répteis as pessoas estão desenvolvendo a capacidade de produzir veneno. Se é por indignação justa, como sei que muitos têm, entendo. Se for para conseguir mais acessos, já que controvérsias religiosas geram muitos clicks, como o Carlos Cardoso já percebeu, não entendo. Em qualquer caso, contudo, a peçonha desenfreada é prejudicial.
João Cruzué, da União de Blogueiros Evangélicos, tentou falar sobre o assunto recentemente, mas sua argumentação adquiriu uma tonalidade retrógada e nonsense por causa de sua pouco convincente retórica bíblica. Já o Leonardo Silva sentiu que sua liberdade era questionada pelo texto mencionado, e considerou a postagem de Cruzué um chamado à conivência, coisa que, apesar de tudo, ela não era.
Chegamos a um ponto que conservadores e liberais não conseguem sequer se entender. A briga partiu para uma fase em que não há porquês, razões ou propósitos, mas apenas ressentimento e ataques mútuos. Os lados encontram-se tão vacinados uns contra os outros que qualquer dose alheia já mobiliza uma multidão de anticorpos teológicos e filosóficos. As instituições cristãs estão doentes, e o diálogo está morto.
Havia divisões desde o princípio do cristianismo, é fato. Paulo chega a mencionar explicitamente em uma carta uma constrangedora repreensão a Pedro. Isso não impediu Pedro de elogiar Paulo em uma epístola. O ideal é que a conversa não cause ressentimentos, e a opinião não cause brigas e ameaças. Pode parecer utópico, mas não deveria ser para quem tem a mente de Cristo.
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Antes de terminar, quero deixar claro que respeito profundamente as pessoas citadas aqui, e o fato de tomá-las como exemplo para certas atitudes não diminui a admiração e cuidado com que leio os textos que produzem. Principalmente quanto ao Thiago e ao Pavarini, com os quais converso diretamente, e leio os respectivos blogs sempre. Um dos motivos para tê-los citado diretamente é que sei que são abertos à discussão.

Surpreendente seu texto.
Senti a dor nas palavras.
Creio que essa dor gerará um fruto bom para todos nós que estivermos abertos a correção.
“E, na verdade, toda a correção, ao presente, não parece ser de gozo, senão de tristeza, mas depois produz um fruto pacífico de justiça nos exercitados por ela.” (Hebreus 12 : 11)
Abraço.
Não sei se senti dor nas palavras, mas que foram belas linhas de sensatez no meio dessa neblina, isso foram. Você escreveu tudo que eu queria ter dito e não tive vontade (pelo desgosto com a situação) de escrever – e com classe nas palavras, como sempre.
Uma aula sobre como se portar diante dos fatos. Quem abusa da liberdade de expressão e da sinceridade, já diria um pastor amigo, é mal-educado. Entre ‘ignorantes’ com educação (o que às vezes revela a sabedoria que não tem a ver com conhecimento) e os ‘inteligentes’ mal-educados, eu fico com o primeiro grupo – não importa qual o tamanho da ignorância do primeiro ou da inteligência do segundo.
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“O orgulho vem antes da destruição; o espírito altivo, antes da queda. Melhor é ter espírito humilde entre os oprimidos do que partilhar despojos com os orgulhosos.” Provérbios 16:18-19
abraço terno, Teo.
Muito bom o post mesmo, eu já sou claramente institucionalizado (risos), e acho que seu texto bate bem na tecla da ética da liberdade.
Só porque somos livres não significa que deixemos de ser solidários e viramos adeptos de vendetas.
Tenho percebido que a Renascer e outras igrejas se tornou escada para novos apologetas… sem assunto hoje? Pau na Renascer, pau no Bispo… e por aí vai, eu estou meio que farto de postagens genéricas falando o óbvio…
Deus abençõe pelo post.
A maldição do extremismo persegue-nos.
Não posso dizer que concordo absolutamente contigo, principalmente no que tange à questão da nova pastora da renascer e do pavablog. Este episódio é um marco lamentável no evangelicalismo brasileiro, pois para ser pastor não interessa marketing ou desejo humano, isso é coisa de “chamada” divina – mas como aferir isso, quando falamos de uma igreja tão distante do evangelho? Bom, não sei.
Exageros existem de ambas as partes, tanto os liberalistas e os fundamentalistas da blogosfera exageram, mas isso acontece aqui ou em qualquer lugar.
A heterogeneidade da blogosfera é algo extremamente excelente, isso para aqueles que aprenderam a arte de selecionar o que é bom e o que não é bom – uma expressão melhor do que “ruim”.
Forte abraço, você escreve muito bem, uma leitura gostosa e produtiva.
Pax!
Téo, na parte que me toca: péssima comparação. Atribuiram a tragédia do furacão à suposta vontade divina de punição, eu, crente que a misericórdia de Deus não matou nem mesmo os primogenitos no Egito, creio que o teto desabou por negligência das autoridades da Renascer. Situações diferentes.
Sinto uma santa inveja pelo fato do seu post ser aplaudido, mas tenho a impressão de que é porque fala o que todos querem ouvir.
Acho ética a sua atitude de dar nomes aos bois. Cansei-me da covardia que só se limita às indiretas.
Coisa séria hein. O que temos feito com a nossa liberdade? Transformado em libertinagem?
Ótimo post! Claro, consiso, bois devidamente nomeados (como disse o Thiago) e ótima redação.
Não tenho certeza se a briga ja chegou nesse nível:
“A briga partiu para uma fase em que não há porquês, razões ou propósitos, mas apenas ressentimento e ataques mútuos.”
Com certeza algo está morto, e já podemos sentir o cheiro da podridão. Espero que Jesus faça urgentemente o milagre que Ele fez em Lázaro.
Que bom!
Eu não poderia ter colocado melhor.
Eu já estava quase vomitando e pensando em cair fora deste ninho de cobras.
As vezes parece que alguns cristãos blogueiros se encaixariam melhor no exército do outro lado.
Já há algum tempo tenho colocado post de outros autores no meu blog, pois não tenho mais “saco” pra escrever pra circo.
Um abraço.
Will, eu também suponho que o episódio envolvendo a Carol seja um marco lamentável. Como disse, nem sempre o problema é o que se diz, mas como se diz.
Thiago, a iniciativa de chamar pelo nome surgiu depois de uma rápida conversa no Twitter ontem à tarde, quando foi mencionado o fato de uma discussão sobre ética que houve por aí ter gerado posts com referências veladas. Entendi que isto é um tema pra debate, e o debate pede chamada dos envolvidos diretamente.
Não creio que fala o que as pessoas querem ouvir. Antes, acho que fala o que algumas delas queriam falar, como os próprios comentários mostram. E não se engane, a moda atual, visivelmente, é falar o que se pensa, não importa como, nem se o pensamento é válido.
Quanto à referência ao seu texto, não discordo que as situações são diferentes. O que considero igual é a lógica. É fato que o teto desabou por negligência, mas pessoas demais foram prejudicadas para eu achar que foi bem-feito. Os responsáveis devem ser punidos, mas não por um teto caindo. Desejar isso não é justo, mesmo que seja para falsos apóstolso.
Pr. Julio, não desista de escrever!
Teo, eu discordo de um ponto.
Concordo com relação a “dançar sobre os restos do inimigo”, mas discordo em relação ao Pavarini. A indignação dele é expressada com humor, tanto que o blog dele é de humor, não caberia a ele fazer uma critica séria a respeito do assunto tendo uma piada na manga, ficaria fora da idéia do blog.
De resto, foi exatamente um ponto de lucidez – ou luz – no meio da guerra. Realmente o que todos queriam ouvir, o que todos tinham em mente e não percebiam.
Só vejo um problema nisso ai: você é considerado liberal, está do nosso lado e tal. Esse texto significa que você irá nos trair e formar um grupo próprio? rs Qual seria o nome? Os Revolucionários de Rondônia? auahuah
Renato, não tenho problemas com o humor do Pavarini. Quem me conhece melhor pode até achar hipocrisia quando eu fala de sarcasmo e ironia, já que recorro com frequência a esses recursos, tanto para escrever quanto para falar. Mas na comédia também há limites.
Trair? Revolucionários de Rondônia? Hahahah, não se preocupe, sou avesso a revoluções. Tem gente q
Continuando após Enter involuntário: tem gente que me considera liberal, tem gente que me considera conservador. É questão de ponto de vista. Eu tento ser coerente… hehehe
Queria eu que não tivesse aquele adendo ao final. Circo pegando fogo é legal hehehe
Hoje é um dia especialmente introspectivo pra mim e esse texto me caiu muito bem, era me necessário ouvir o que aqui foi dito.
Estou tentando voltar a escrever com mais frequência no meu site, que por diversas razões dei uma desacelerada há um tempo, e a tentação de ser ironicozinho e sarcasticozinho (se não chegar as raias do sacanazinho) é grande. Aliás, parte de mim de fato gosta de ver o circo pegando fogo mesmo.
Aliás, essa semana toda, a questão de mentir pra si mesmo para fazer parte do ‘grupo’ tem solapado minha consciência. Já que muita comunhão (para o bem e para o mal!) acontece online, que Deus nos ajude a que online mesmo aconteça esse ruído de pedras que batem, ajustando-se à sua vocação final.
Que Deus tenha misericórdia de nós.
Walter, é uma tendência de muitos de nós, inclusive minha também. Pode parecer retórica, mas eu escrevi pra mim mesmo antes.
Esse post ta causando…
Eu fico com (e repito) o comentário
do Ricardo: “Quem abusa da liberdade
de expressão e da sinceridade (…)
é mal-educado”. Pronto, é isso!
Enfim alguém de bom senso, uma visão intermediária dessa “batalha ferrenha” do corpo de Cristo. Tem gente que abusa da liberdade mesmo.
acho que (isso vai soar sem sentido, mas tudo bem) alguns excessos são necessários, no fim das contas. nem que seja pra surgir esse debate aqui, agora. por exemplo. expressar opiniões sempre é perigoso e talvez as pessoas não entendam exatamente o sentido delas. bem, ninguém entende o sentido original, isso é fato. o que significa que elas podem ser mal interpretadas e tidas como exageradas, desnecessárias. mas talvez não seja. então é preciso um retorno do tipo: vc começou a pegar pesado. é bom encontrar pessoas com essa coragem.
eu, que não gosto de excessos e que por falta de tempo não acompanho os debates direito, limito minha opinião a esse comentário.
abraço.
Uau Teo! Apesar da acidez, concordo. E olha que sou do 12 rs…. Abraço!
Cara, como eu não sei, mas tu conseguiu chegar a um ponto que poucos chegam devido a dificuldade de se conseguir isso. Esse ponto é o famoso “ou amei-o ou odeio-o”. Veio, teu texto é exatamente isso, a pessoa lê: ou ela ama ou ela odeia. rs Tu conseguiu isso, veio. Só resta saber se isso é bom ou ruim.
Teo,
Agora que a poeira baixou, o carnaval passou, e todos já deixaram suas opiniões, resolvi passar por aqui também. Concordo com sua opinião neste post. Já expressei minhas razões em outros debates e lugares, portanto não o farei novamente.
A sensação que tenho é que em resposta a onda de “novos apóstolos”, existe também uma onda de “novos profetas”. E para encaixar-se no perfil do segundo, basta eloquentemente, jogar no ventilador a merda que o primeiro produziu.
Faz tempo que deixei de acreditar em terminologias ideológicas. Liberais, conservadores… direita, esquerda… Todos estes termos são álibis definidos pela conveniência, e sujeitos sua volatilidade. Creio que o Evangelho Bíblico (como vc mesmo expressou) é chão de coerência e não de adaptação de bandeiras.
Enfim, vamos em frente.
Abraços,
Olá Téo!
Depois de um zilhão de comentários vou deixar o meu tb.. rs
Mto interessante a discussão sobre ética e liberdade de expressão na igreja. Enquanto no mundo carnal nossa liberdade é regida por um conjunto de leis, no espiritual tb é assim. O amor de Deus deve ser a bpussola das nossas atitudes, e desrespeito é falta de amor! Para mim, os que se utilizam desta ferramenta para denegrir e incitar o mal, mesmo que “sem querer”, não apenas são mal educados, como demonstram completa falta de discernimento e inabilidade na prática dos mais sublimes dos mandamentos!
o q é lamentável, porém previsível, uma vez que todos nós, em determinado ponto seremos falhos em amar..
tenho acompanhado seus cometarios nos blogs amigos, e seu senso crítico é notável.. n deixe q nenhuma onda, seja ela liberal ou conservadora, te roube isso
bjs!