Marone, o homem das expressões em desuso

- E aí, turma da pesada! O que tá rolando na área? Como é que vai essa força? Tudo massa? Tô dentro pra abalar agora e ninguém me tira!

Vinte faces estupefatas com olhos esbugalhados e queixos caídos olhavam para o autor das palavras ininteligíveis, que anunciavam a sua entrada no recinto. Foi seguido por Martins, chefe da divisão, que apresentou o novo colega aos demais.

- Pessoal, esse é o Marone. Acabou de ser admitido e vai trabalhar aqui com vocês. Boa sorte ao Marone e a todos.

Martins virou e saiu, imaginando se desejar sorte a todos tinha sido apropriado. Não sabia por que tinha dito aquilo. Marone encaixou mais uma declaração antes que o chefe fechasse a porta atrás de si.

- Xá comigo. Vou botar pra quebrar com a ajuda dos feras e das minas aqui.

Igor, o mais extrovertido da divisão, foi o primeiro a vencer a estupefação e tentar ser gentil.

- Bem-vindo, Marone.

O novato colocou a mão direita na cintura, elevou a mão esquerda com o polegar levantado e o indicador apontando na direção de Igor e deu uma rápida piscadela enquanto entortava a boca e emitia um som que consistia em fazer passar ar entre a língua, a lateral da bochecha e o céu da boca. Um pouco de saliva passou junto com o ar, o que tornou o som ainda mais peculiar e incomparável. Igor entendeu que isso era um agradecimento. Ajeitou o óculos e voltou-se para seu computador.

Marone pousou na cintura a mão esquerda, que retornava de seu gesto. Balançou incompreensivelmente os ombros para cima e para baixo, e para frente e para trás, pôs uma perna na frente da outra e se dirigiu à pessoa exatamente atrás dele, a mais inacessível ao olhar, porém mais propícia à formação de uma posição que ele considerava fantástica. Por falar agora com uma mulher, semicerrou os olhos e falou com uma voz mais grave, tentando ser sedutor.

- Em qual mesa eu vou ficar na moral e pegar no batente?

- Lá, ó! – A mulher parecia bastante contente em apontar o canto diametralmente oposto da sala, tanto que as duas sílabas que disse saíram acompanhadas de um sorriso.

Marone caminhou em direção a seu espaço exatamente como Tony Manero carregaria latas de tinta pela rua. Sentou-se e ligou seu computador. O tempo de inicialização do sistema operacional foi um tempo de paz, rompido logo após usar o PC por uns instantes.

- Inhenrra! Essa máquina é do balaco-baco! Tem 500 gigabytes de espaço no winchester!

Um jovem de cabelos longos se retirou da sala com o braço à volta do abdômen. Igor ajeitou novamente o óculos, sem necessidade, e voltou-se sussurrando para um colega próximo.

- Que diabo significa winchester?

- Que diabo significa “inhenrra”? – respondeu o amigo.

Igor percebeu o clima de inquietação do ambiente. Se Marone continuasse falando daquela forma certamente  males súbitos atacariam os colegas em breve. Como sempre lhe cabia esse tipo de tarefa, tentou dar um jeito na situação constrangedora.

- Escute, Marone. Quantos anos você tem? – A estratégia de Igor era tentar fazer Marone falar de forma convencional através de perguntas simples.

- Vinte cinco nas costas, chapa!

- Você é daqui da região mesmo? Nunca ouvi falar de você.

- Sou da área, campeão, é que minha patota era outra.

Igor viu que nada parecia funcionar. Com uma rápida análise do nome do novato, mudou de abordagem.

- Olhe, pode parecer meio sem relação com o que eu dizia, mas seus pais eram fãs de Loucademia de Polícia?

- Eita! Filmaço supimpa! Dona Maria e seu Rone assistiam até o u fazer bico. – Por ser novato Marone achou prudente censurar parte da palavra obscena. – Tinham até pôster no quarto.

- Presumo que Maria e Rone são seus pais.

- Na mosca, pentelho!

Igor perdeu-se em seus pensamentos. As duas explicações para o nome de Marone, ou seja, uma homenagem a Mahoney, personagem de Loucademia de Polícia, registrada por um funcionário de cartório semi-analfabeto ou a junção dos nomes de pai e mãe, duas situações comuns na década de 1980, pareciam ser verdadeiras. Marone não teve piedade de Igor e suas profundas reflexões e continuou.

- E aí, sexta-feira a gente vai em qual discoteca pra vocês me apresentarem os brotos da sua tchurma?

O jovem de cabelos longos que tinha saído há pouco acabava de voltar à sala. Marone mal tinha terminado sua última frase quando o rapaz passou o braço novamente à volta da barriga e saiu correndo de volta fechando a porta. Alguns começaram a redigir memorandos solicitando transferência interna e outros atualizavam e imprimiam seus currículos. Igor percebeu, e encarou Marone com uma expressão de desânimo. Não tinha condições de sair de sua função e sabia que estaria sozinho na tarefa de ser o colega daquela criatura tão especial.

Ao ver a concentração do colega em si próprio, Marone novamente apontou para Igor, piscou e fez o som com ar e saliva passando por cantos pouco conhecidos da boca. Igor suspirou e começou a atualizar seu currículo.

5 Respostas para “Marone, o homem das expressões em desuso”

  1. Pr Julio Soder Disse:

    Estou curioso para ver um memorando redigido pelo Marone.

  2. Rap Disse:

    Um nerd fugindo da realidade ou expressando como ela realmente é? hehehe

    Muito bom cara..

  3. elianderson Disse:

    winchester! quanto tempo que não ouço isso…

  4. Bia Disse:

    Esse nosso mundo despreza tudo que é antigo kkkkk
    Feliz 2009 Teo! Que seja para você um ano de colheita em todas as áreas da sua vida com as bênçãos do Senhor Jesus!

  5. Sarah Disse:

    heheheh… sabe o que aconteceu? eu fiquei tentando imaginar as roupas e o penteado do marone. divertido…

    que seu ano seja muito bom, sr. teo! =)

    bjim procê.

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