Dez bicicletas problemáticas extras. Era tudo o que Vander precisava para realizar seu sonho de fim de ano, segundo suas contas. E ele conseguiu. Ou melhor, foi agraciado com uma competição justamente naquela semana. Aberta ao público, a volta ciclística passaria pelas ruas da cidade em forma de evento beneficente.
E não foram apenas dez bicicletas que vieram curar suas dores com Vander. Dezessete ciclistas a mais que o normal procuraram os serviços de sua oficina. Dezessete! Trabalhou sem cessar do primeiro ao sexto dia. Consertou pneus, câmbios, trocou catracas, correntes, selins… das seis às oito não saía de sua oficina a não ser para fazer rápidos lanches aos quais ele se referia inadequadamente como seus almoços.
Ao sétimo dia descansou. À noite colocaria em prática suas intenções, e queria estar disposto para tal. Os sábados geralmente passam rápido, mas sua ansiedade fez aquele em específico demorar. Pretendia sair de casa às sete, mas às seis já estava terminando de vestir-se com sua melhor roupa. Não que fosse uma boa roupa, mas era a melhor que tinha. Uma calça jeans com terríveis desbotados horizontais e cheia de bolsos, uma camiseta brilhante, com lantejoulas em forma de águia, e um tênis branco, com detalhes prateados e vermelhos já desgastados. Fixou o cabelo com gel, passou a loção para pés de sua mãe em seu ralo bigode (ele gostava do cheiro do produto) e saiu.
- Onde vai, moleque? – Perguntou o pai de Vander, sentado em uma cadeira lascada, à frente da cerca da casa, olhando o movimento da rua ao pôr-do-sol, como fazia todos os dias.
- No shopping, pai.
- Bebe pouco, moleque. Não quero ver ninguém vomitando dentro de casa de novo.
Não que o pai de Vander achasse que o shopping fosse um lugar onde as pessoas fossem para ficar bêbadas. A verdade é que ele sequer sabia o que era um shopping. Entendeu “chopinho”, e imaginou que seu filho fosse ao bar beber um chope, que ele conhecia vagamente como uma “cerveja com espuma demais”. Nascido, criado e educado nos barrancos à margem do Rio Madeira, o pai de Vander conhecia mais nomes de peixes que de lojas, o que em seu meio de convívio era uma vantagem.
Vander nunca tinha ido a um grande shopping. Nunca teve a intenção de ir, e nem se importava com o fato até que começou a ouvir falar das maravilhas do local. Quem informava era seu vizinho, que trabalhava na construção do empreendimento como servente de pedreiro. Como o shopping foi inaugurado antes da construção ser terminada, o servente pode ver durante seu trabalho o trânsito de pessoas, as lojas abertas, as luzes… Tudo o impressionou, e permitiu que ele impressionasse outros com seu relato.
Apesar do convite o vizinho não podia ir com Vander, pois ganhava um salário que já estava todo comprometido em contas a pagar, e não sabia consertar bicicletas. Ir sozinho aumentou a ansiedade nos quarenta minutos de ônibus do percurso. Não morava tão longe do shopping, e Porto Velho não é tão grande, mas o único ônibus que passava em seu bairro fazia um caminho tortuoso e longo até parar próximo a seu destino. No último semáforo antes de seu ponto suas mãos tremiam mais que o chão do coletivo. Chegou deslumbrando-se com a decoração natalina da fachada. Tanto que quase esqueceu-se de descer. Tímido, entrou enfim.
Estranhava a luz do sem-fim de lâmpadas no teto. Sentia-se demasiado exposto e acabou se sentindo constrangido. Mas as vitrines logo fizeram-no esquecer de si mesmo. Reparava até na beleza dos produtos das lojas femininas, de passagem, para não levantar suspeitas quanto às suas convicções.
Tudo o maravilhava, mas Vander ficou realmente paralisado no pátio central. Uma enorme árvore de natal se erguia cercada de uma típica decoração temática. Havia um papai noel sentado em uma bela poltrona, ladeado por duas jovens e bonitas ajudantes vestidas de mamãe noel. Vander impressionou-se com a beleza das moças, e encarou-as despreocupadamente. Ruborizou quando uma delas percebeu e sorriu pra ele. Tentou sorrir, e quase conseguiu, mas apenas abaixou a cabeça e saiu.
Um coral cantava, muito bem, ressalte-se, canções natalinas na escadaria atrás da árvore. Canhões de luzes davam o brilho de espetáculo à apresentação. Parou hipnotizado por meio minuto diante de um solo de Nasceu o Redentor até tomar forças para continuar sua expedição. Hesitou um pouco diante da escada rolante, grande novidade. Estudou os gestos dos pés e mãos de quem subia até achar que sabia o suficiente para vencer o desafio. Conseguiu na primeira tentativa, embora com pouco jeito.
Passou por mais algumas vitrines, e ficou pasmo com o tamanho de uma das lojas. Não entendia como podiam caber lojas tão grandes em um espaço fechado. Decidiu comprar os presentes de seus pais no tal comércio gigante, que vendia roupas. Eis aí o motivo de seu trabalho extra, que lhe rendera setenta e nove reais a mais. Queria agradar sua família. Mas as peças de roupa que gostava custavam mais do que seu dinheiro a mais permitia comprar. Conseguiu achar um calção vermelho com desenhos abstratos para seu pai e uma blusa comum para sua mãe. Aproveitou para comprar meias.
Completamente desnorteado, demorou um tempo até entender como faria para fechar a compra. Percebeu enfim a fila do caixa. Pagou com algumas notas amassadas, algumas sujas de graxa, e saiu com sua sacola, cinquenta e quatro reais e noventa centavos mais feliz e realizado. A razão de estar contente ele não conseguia compreender ainda.
Parou no banheiro, mais para tomar fôlego ante o sufoco das novidades do que por necessidade. Não conseguiu puxar muito ar conhecido, entretanto. Brigou por alguns momentos com a pia até entender o mecanismo da válvula, e teve problemas para secar suas mãos em um secador automático.
Saiu do toalete e após alguns passos entrou na praça de alimentação e parou. Entrar, na verdade, não seria o verbo adequado à situação. Cair talvez fosse mais apropriado. Seria correto dizer que ele caiu na praça. Sim, pois ele não estava preparado para aquele ambiente, e não esperava dar de cara com dezenas de placas, cartazes e letreiros indicando comida que ele só tinha visto na televisão e sempre desejou comer. Agora elas estavam ao alcance de um pedido. Quando saiu de casa esperava comer, sim, mas não esperava realizar mais um sonho. Talvez esperasse por uma lanchonete qualquer, não por aqueles símbolos, aqueles uniformes, aquelas fotos, aqueles sanduíches.
Começou a dar seus passos (também seria correto dizer que levantou) em direção a um símbolo que ele conhecia de algum lugar. Talvez da TV, ou de uma revista, não saberia dizer. Mas sabia dizer que aquele símbolo queria dizer comida de sonho. Entrou na fila, não porque soubesse o que estava fazendo, mas porque era uma fila. Observou como os que o precediam pediam e procurou imitar quando chegou sua vez.
- Quero aquele lá – disse apontado para a foto de um dos cartazes, que continha o sanduíche que parecia maior e mais cheio de carne.
- Qual refrigerante, senhor?
- Coca – respondeu, satisfeito por ter sido chamado de senhor.
- Trio com batata frita, senhor?
- Sim.
- Seu trio acompanha molho, senhor. Qual molho da sua preferência?
- ….
- Senhor, temos molho parmesão, tártaro e barbecue.
- O último.
- Barbecue, senhor?
- Sim, esse.
- Dezoito reais e quarenta e seis centavos, senhor.
Pagou, recebeu seu troco e um papel.
- Sua senha aleatória é 198, senhor, e ela será chamada pelo painel eletrônico. Só aguardar.
Vander se afastou com seu papel na mão. Entendeu rápido o sistema de senhas e painéis, que já tinha enfrentado em uma agência de banco em situações menos apetitosas, mas agia de forma levemente mecânica por estar um pouco constrangido com o ambiente e as pessoas do local. Imaginou, pelo tamanho da fila que ainda se estendia, que o lanche demoraria um pouco, então aproximou-se do vão que permitia ver o pátio abaixo e assistiu a pedaços da apresentação do coral quando não estava ocupado encarando de cima a ajudante do papai noel ou perturbado com os vários avisos sonoros dos painéis eletrônicos. A cada bip, que naquele shopping lotado soava a cada dois segundos, olhava para o painel que anunciaria em breve que seu lanche estava pronto.
Como tinha suposto, sua espera foi grande. A ansiedade que tinha sentido no ônibus voltava. O coral se movimentava para a última música de sua apresentação. Ao primeiro gesto do regente, à primeira nota do piano, o painel anunciou a senha de Vander. Estremeceu ao ver seu número. Ao mesmo tempo, o coral iniciou Messias de forma triunfal. Lentamente, com dois passos para cada compasso, foi em direção ao balcão. Os canhões de luzes pareciam arrebatados pela emoção da música e estavam frenéticos. Entregou seu papel ao atendente. As luzes encheram a praça de alimentação, fazendo brilhar tudo, incluindo o sanduíche de Vander. Tudo parecia enorme para ele: o atendente crescera e se tornara um gigante de quatro metros. A seus olhos não era um balconista, mas um anjo de quem recebeu então em suas mãos uma fulgurante bandeja de fast-food enquanto uma sequência de aleluias no ápice do oratório encheu de tal modo o ambiente que Händel se orgulharia de sua composição se ali estivesse.
Com dificuldade, achou uma mesa vazia, sentou-se e comeu. Por longos minutos apenas comeu. Seus olhos não se levantaram de sua bandeja até que a última batata frita e a última gota de refrigerante tivessem abandonado seus olhos e encontrado seu estômago. Só então olhou em volta e percebeu que o coral já tinha parado de cantar, e que os bips intermináveis dos painéis e a conversação ininterrupta da multidão eram irritantes. Entretanto, antes que o fato afetasse seus nervos percebeu alguém logo atrás.
- Está gostando, Vandercy?
Vander voltou-se para ver quem o tratava pelo nome inteiro, que não ouvia há tempos. Viu um homem de cabelos grisalhos e muito bem vestido que nunca tinha visto.
- Posso me sentar?
Vander concordou com um gesto de cabeça.
- Obrigado. Estou aqui, Vander – disse sentando-se – para dar os parabéns a você.
Vander não entendia.
- O que você está achando do passeio e que achou da sua refeição?
- Muito bom…
- Ótimo. Parabéns, Vander. Ao entrar por aquelas portas no térreo você não entrou em um prédio, mas em um mundo. Você não está apenas se divertindo no sábado à noite, mas assimilando um sistema…
A expressão de Vander indicava claramente que ele não entendia, mas o homem continuou.
- Agora há pouco você não provou um sanduíche simplesmente. Você provou um conceito!
Vander olhou para o resto da embalagem do sanduíche, deixando claro que tinha pensado que tinha provado a coisa errada ou o homem estava enganado, tornando uma explicação necessária.
- Não é provar no sentido de degustar, Vandercy, mas de demonstrar! Não ficou claro pra você? Você não bebeu refrigerante, mas engoliu um Cosmo novo!
- Eu pedi Coca… – Vander venceu o silêncio. Na verdade, com essa declaração, não se pode dizer que ele venceu. O silêncio saiu vencedor como a melhor alternativa na ocasião.
- Você não está entendendo. Você não apenas andou, comprou e se alimentou. Você se tornou parte, rapaz! Você é daqui, este é seu lugar, sua vida. Seus desejos, sonhos e anseios estão nos limites deste prédio. Aqui há tudo que você será e quererá ser. Aqui está sua roupa, sua mobília, sua casa, sua comida e seu futuro.
- Valeu, fera, mas eu já to indo – disse Vander deselegantemente, se levantando ao mesmo tempo, confuso.
- Bem-vindo ao shopping, Vandercy. Bem-vindo à sua nova vida. Bem-vindo ao Natal de verdade!
- Falou. Feliz Natal.
- Para nós dois. Dependemos um do outro para isso.
Vander não quis nem mesmo alcançar as escadas rolantes para fugir daquele homem que parecia insano. Desceu pelas escadarias já livres e procurou a saída. Antes, entretanto, parou diante de uma vitrine que chamou sua atenção. Uma camiseta exposta o atraiu. Era parecida com a sua, mas obviamente menos surrada. As lantejoulas formavam a silhueta de um tigre ameaçador. Viu o preço na etiqueta e calculou o número de bicicletas necessárias para tê-la. Virou-se e olhou com cara de despedida para uma das ajudantes do papai noel. Por algum motivo que não saberia explicar ligou a camiseta à moça em uma relação causa-efeito que só existia em sua mente. Decidiu que alguns consertos depois voltaria para ter ambas.
Já nem lembrava o que estava na sacola em sua mão, comprado há alguns minutos. Só pensava na sua próxima aquisição e na mamãe noel usando apenas o gorro. Saiu acumulando o sentimento alegre com uma poderosa esperança. Podia enumerar mais motivos para voltar ali do que para ir pra casa. O que o desagradou um pouco foi a força do argumento a favor de voltar para casa. Só lhe restavam três reais e sessenta e quatro centavos, dos quais dois reais eram obrigatoriamente da passagem de volta.

19/dez/2008 às 6:55 |
Maravilhoso texto, mano.
Absolutamente verdadeiro e útil!
20/dez/2008 às 14:15 |
Excelente texto. Triste conceito.
20/dez/2008 às 14:57 |
O personagem se parece comigo há algum tempo; antes de eu usar as paredes protetoras invisíveis no meu coração…aquela cara de alguém que finge que não está com medo e sabe tudo. Acho que a história merece uma continuação; pra ver se rola um romance com a mamãe noel e quantos consertos isto vai custar.
20/dez/2008 às 20:11 |
ótimo texto.
21/dez/2008 às 13:57 |
“- Quero aquele lá – disse apontado para a foto de um dos cartazes, que continha o sanduíche que parecia maior e mais cheio de carne.
- Qual refrigerante, senhor?
- Coca – respondeu, satisfeito por ter sido chamado de senhor.
- Trio com batata frita, senhor?
- Sim.
- Seu trio acompanha molho, senhor. Qual molho da sua preferência?
- ….
- Senhor, temos molho parmesão, tártaro e barbecue.
- O último.
- Barbecue, senhor?
- Sim, esse.
- Dezoito reais e quarenta e seis centavos, senhor.”
Me identifiquei mt com essa parte…
=p
euaheuaheuaehuae
^^
1/jan/2009 às 10:28 |
esse texto me lembrou algumas coisas que li
no ‘fé em Deus e pé na tábua’. estranha essa
atração e senso de realização de andar e fazer
compras no shopping. realmente não é apenas
uma compra. mas o fazer parte…