- Pai, o que é sexologia?
Thales havia entrado pela cozinha sem se anunciar. Seu primeiro som identificável tinha sido a pergunta que acabava de fazer ao pai, que estava sentando à mesa espremendo um limão sobre uma porção de salame fatiado. Diante da pergunta o homem experimentou uma desagradável sensação na espinha, idêntica à que tinha sentido no dia anterior ao ver sua esposa lendo registros de conversa no computador.
O pai perdera instantaneamente a fome. Afastou o prato de salame e abandonou o limão. Pousou um cotovelo sobre a mesa para servir de suporte à testa que repentinamente esquentara muito. Suspirou e piscou rápido, enquanto a mão livre buscava a lata de cerveja que deveria estar ali em algum lugar. Sentiu alívio ao tocar o alumínio gelado, e olhou rápido para o filho, que tinha apenas onze anos, mas naquele instante parecia enorme e perturbador.
- É… acho que… não sei, Thales.
Sentada na sala, a mãe de Thales via a cena através da porta. Sentiu-se decepcionada com seu marido por ele não ser capaz de ter uma resposta à altura da pergunta do filho. Por sua vez, após sua frase curta e sem conteúdo, o pai lamentava seu despreparo. Ainda considerava Thales uma criança, e mesmo com seu filho mais velho nunca tinha abordado assuntos relacionados a sexo, e nem se considerava apto a tais diálogos.
Thales agradeceu e virou-se para sair da cozinha. O pai virou a lata na boca, e sentiu a cerveja aliviar a garganta, e a saída do filho aliviar a pressão sobre a cabeça. O menino olhou para sua mãe assim que entrou na sala. A mulher teve a mesma sensação na espinha do dia anterior, enquanto lia as lamúrias de seu esposo em conversas com os amigos no computador. Fechou a revista que lia e levantou-se apressada.
- Thales, estou com dor de cabeça. Vou deitar um pouco. Se alguém ligar diga que não estou. Se você disser que eu estou dormindo a essa hora do dia eu vou matar você – disse a mãe enquanto saía em direção ao quarto, frustrando a pergunta do menino antes mesmo que ele a fizesse.
Antes que o desânimo pudesse alcançá-lo, Thales viu através da janela seu irmão mais velho Júlio chegando da faculdade. Antes que ele entrasse em casa Thales abriu porta e foi rápido em direção a seu irmão.
- Júlio, o que é sexologia e o que faz um sexólogo?
O irmão mais velho, no primeiro ano de Meteorologia, sabia lidar bem com questões sexuais entre pessoas da mesma idade, mas também considerava Thales uma criança, como os outros da casa. Ficou um pouco constrangido, mas era mais corajoso que seu pai, e resolveu dar uma resposta prática e genérica, se fazendo entendido sem precisar dar atenção à timidez.
- Thales, existem em nosso mundo duas coisas específicas que eu vou chamar de A e B. A e B têm cada um seu respectivo dono. Os donos de A e B sempre desejam colocar A dentro de B, o que é particularmente simples, já que A e B foram feitos especialmente para esse fim. O ato de colocar A dentro de B podemos chamar de ação S.
Thales ouvia atentamente. Sempre admirou a inteligência do irmão. Júlio prosseguiu.
- Como eu disse, S em si é uma ação simples. Mas os donos de A e B, que vamos chamar de Pa e Pb, respectivamente, enfentam outros fatores para tornar a ação S concreta. Existem pressões sociais, morais, religiosas e culturais que adicionam a S mais elementos que colocar A dentro de B. Os problemas sociais se referem geralmente a exigências de pessoas relacionadas a Pa e Pb, via de regra com autoridade sobre um ou ambos. Os morais e religiosos dizem respeito a colocar A dentro de coisas diferentes de B, ou em colocar A em contato com B ou outras coisas de Px, sendo que x não é a ou b. Os problemas culturais abrangem padrões físicos ou de conduta requeridos por Pa ou Pb que podem tornar um, outro ou ambos não desejáveis para S. Está entendendo?
Thales confirmou com um aceno de cabeça mesmo sem entender, até porque a eloqüência era suficiente como resposta diante da escassez de retorno à sua pergunta dentro de casa. Júlio ainda não tinha terminado.
- Então, as pressões enfrentadas por Pa e Pb podem tornar um deles ou ambos neuróticos, antisociais ou imorais ou ainda levá-los a praticar S de uma forma pouco convencional que alguns chamariam de perversão. A neurose pode ser tão intensa que Pa e Pb podem não conseguir mais praticar S, ou mesmo outras ações corriqueiras, levando-os a ter uma vida difícil. É nessa situação que eles procuram um especialista em S, que vamos chamar de Ps. Este Ps estuda S e Px, tornando-se a pessoa ideal para ajudar Pa e Pb a praticarem S de forma aceitável, para que as outras ações também não sejam prejudicadas. É isso que o sexólogo faz. O estudo de S e Px por parte de Ps chama-se sexologia, e isso responde suas duas perguntas.
- Que interessante – finalmente Thales dizia algo. Então Ps é alguém prestativo que se preocupa com o bem estar de Pa e Pb para que eles pratiquem S normalmente?
- Mais ou menos. Ps cobra para audar Pa e Pb.
- Caro?
- Consideravalmente.
- Obrigado, Júlio!
- De nada pivete. Mas você já sabia o que era sexo, não é?
- Sei desde os seis. Mas gosto da sua visão exata das coisas. A dentro de B é uma descrição mais elegante para quem gosta de exatidão.
Júlio não respondeu, e se sentiu estranho por ter falado sobre sexo com o irmão de onze anos, mesmo de uma forma pouco concreta.
Dois dias depois, a professora de Biologia de Thales se surpreendeu ao corrigir uma prova do menino. Uma das questõs da avaliação sobre saúde sexual perguntava sobre a definição de sexologia. Segue a resposta de Thales.
“Trata-se da ciência que habilita Ps a cobrar caro para ensinar S a Pa e Pb devido ao fato de todos à volta deles complicarem a simples ação de colocar A dentro de B.”
A professora lembrou-se de que também tinha lecionado na turma do irmão de Thales na então chamada sexta série. Marcou a questão como certa e não falou mais naquele ano letivo sobre aquela pergunta ou mesmo sobre a prova.

26/nov/2008 às 21:48 |
Fantástico Teo! Ri bastante!
27/nov/2008 às 9:23 |
heheheh muito bom cara!
Colocar A em B é tão simples que ficou de tal maneira complicada que o cobrar pelo S em si é extremamente caro rs
2/dez/2008 às 14:08 |
o texto tá mt bom mano… acho que você estressou com o assunto…
Já q o povo gosta de complicar as coisas simples… o/ S é um ótimo exemplo de coisa simples já q S seria o resultado de A dentro de B….
4/dez/2008 às 16:51 |
[...] A dentro de B [...]
5/dez/2008 às 6:08 |
rsrsrs Comecei a te ler, passei de um texto ao outro sem perceber e me encantei com a clareza das suas palavras, agora tô atrasada! rrsrsrs Mas virei fã e depois volto com calma!
O Bicho é o bicho!
beijos
8/dez/2008 às 22:22 |
meus comentários aqui não
são nada criativos. eu sempre
repito a mesma coisa: “genial!”
8/dez/2008 às 22:42 |
Coé, Elianderson, hehe. Valeu. =)