A primeira vez

O despertador fez soar seu toque intolerante naquela manhã sem atrativos. Fernando acordou e o desligou com um gesto agressivo, como se odiasse aquele aparelho. Queria dormir mais, mas sabia que não podia. Sentou-se na cama e olhou para sua esposa ao lado, ainda dormindo profundamente. Lamentou por ela há tempos não acordar antes dele, como costumava fazer. No passado ela levantava bem cedo, fazia o café, e o acordava com beijos. O despertador ficava desligado. Reclamou em sua mente por ela ter mudado desde o início casamento.

- Não seja injusto. Ela foi a única que acordou esta noite para atender ao bebê, que chorava com cólicas, enquanto você dormia profundamente.

Fernando se assustou. Aquela voz masculina falou repentinamente, e ele não sabia de onde tinha vindo. Sua esposa ainda dormia, assim como o bebê, no berço. Tudo estava silencioso, e aquela voz não parecia ter vindo de fora, mas de dentro de sua mente. Pensou ser fruto do sono, o que o fez levantar e despertar por completo. Foi logo se vestir para ir ao trabalho.

Enquanto se preparava diante do espelho, sentiu um calafrio ao ouvir a mesma voz novamente.

- Sei porque você se veste e se arruma com tanto esmero. Não é por exigência do trabalho, como diz. É porque gosta de mostrar sua elevada posição. Gosta de mostrar-se superior, de passar através das roupas uma importância que você, no fim das contas, não tem.

Respirou fundo, e tentou se acalmar. Pensou em chamar a esposa e contar, mas estava ressentido com ela ainda.

- Mesmo após assombrado por uma voz desconhecida seu orgulho não deixa você pedir ajuda a sua esposa?

Fernando passou com força a mão na cabeça e se contorceu, como se sentisse dor. Aquilo realmente o incomodava. Pegou as chaves do carro e saiu rápido de casa, considerando que o problema podia terminar ao respirar os ares de fora. Chegou em pouco tempo ao trabalho, que não ficava tão longe de onde morava.

Desempenhou suas atividades por quase uma hora, e não tinha ouvido a voz ainda. Julgou-se livre dela, e já nem mais pensava no fato. Talvez fosse um terror noturno prolongado, causado por seu pesadelo daquela noite. Tinha sonhado que era executado nu diante de uma multidão exaltada que pedia sua morte, devido a uma acusação que incluía terríveis erros.

Distraiu-se por um instante com uma conversa que acontecia em uma mesa próxima à sua. Um cliente, que era um homem de boa aparência, era atendido por uma mulher, colega de Fernando desde que ele trabalhava ali. O homem se insinuava para ela. Aquilo irritava Fernando, que desprezava o homem em seus pensamentos, julgando terrivelmente a atitude dele, uma vez que aquela mulher era casada. A voz então voltou, alta e sem aviso

- Você tem coragem de julgar a atitude desse homem? Quantas vezes você tentou se aproximar desta mulher com interesses obscuros, usando a desculpa de ter apenas uma “conversa” com uma colega? Quantas vezes traiu sua esposa em sua mente, com pensamentos perversos, ignorando o marido dela e sua própria companheira? Isso que você sente não é nojo pela atitude reprovável deste homem, mas é mero ciúme por ele estar tentando abater a mesma caça que você.

Fernando derrubou objetos em sua mesa, chamando a atenção de todos em sua sala. Novamente, levou a mão à cabeça e se contorceu enquanto a voz falava, com pequenos gemidos, como se sentisse que lhe enfiassem agulhas na pele. Um colega perguntou se ele estava bem. Tenso, respondeu que sim, o que não convenceu a quem tinha perguntado. Um outro trouxe um copo com água. Seu nervosismo era visível.

Pediu licença aos colegas, dizendo que voltaria em breve. Saiu do prédio de sua empresa, e caminhava pela calçada. Levava às mãos à cabeça sem motivo. Ofegava e mexia muito as mãos. Vários passos à frente a voz falou novamente. Ela falava diretamente dentro da cabeça de Fernando, que tentava tapar os ouvidos, o que era obviamente inútil. Nesta oportunidade, ao som da voz ele se abaixou involuntariamente, como se estivesse se defendendo de algum ataque de um predador. Após seu movimento, um mero reflexo, passou a andar ainda mais rápido, com as mãos sobre as orelhas. Enquanto a voz ainda falava começou a correr.

- Falei apenas dois pares de vezes e veja como você está! E saiba que este foi um dia bom para você. Se tivesse resolvido confrontá-lo em um dia ruim, há! Você não teria durado nem alguns minutos. O homem não suporta ver seus erros confrontados. Não suporta ver que é cínico e arrogante, que se acha bom quando é mal, que mascara a si próprio, que é injusto e iníqüo. Fernando, eu vim para mostrar a você quem realmente você é.

Enquanto ouvia estas duras palavras, Fernando começou a chorar. Pensava em jogar-se à frente dos carros que passavam pela rua. As pessoas o olhavam, estranhando a cena. À última frase da voz Fernando não resistiu. Caiu de joelhos, com a cabeça entre os braços, e gritou com toda a força de seus pulmões, por longos segundos.

Após se calar, seguiu-se um silêncio extremo. As pessoas pararam para ver o que acontecia. Era como se o forte brado tivesse interrompido o curso do tempo. Nada parecia emitir um som sequer. Fernando caiu de lado no chão, e se contorcia, soltando grunhidos, dizendo “deixe-me, deixe-me” e “vá embora”. O desespero era tão intenso que começou a arrancar os próprios cabelos. A voz falou novamente, o que o fez rolar de um lado para outro, como se estivesse em chamas.

- Eis o orgulhoso Fernando, Elevado Senhor de Si Mesmo, a rolar ensandecido pelo chão, rasgando e sujando suas roupas! Quem o vê contempla um verme imundo e sem razão. Pela primeira vez desde que existe, Fernando, está sendo verdadeiro e sincero. Pela primeira vez está sendo você mesmo.

O agora maltrapilho Fernando ficou como estava, jogado ao chão, próximo à calçada. Ninguém se atreveu a abordá-lo. Embora estivesse como morto, estava imerso em sua mente, buscando entender que terrível voz com apenas seis pequenas falas o lançaria de seu elevado posto para o chão sujo, como um louco, como o pior dos pecadores. Concluiu enfim que era, de fato, tanto um como outro. Só então levantou-se e foi cambaleante para não se sabe onde.

2 respostas a “A primeira vez”

  1. Bia disse:

    Teo, me lembrou aquele filme “Mais estranho que a ficção” no qual um fiscal da receita com uma vida medíocre e monótona acorda um dia com uma voz feminina na sua cabeça que muda toda a sua vida. Se não viu, veja!

  2. Rap disse:

    A consciência confrontada mesmo que por nós mesmos segundo padrões morais alheios é extremamente perturbadora… muito bom cara…

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