Dario foi visto pela primeira vez na escola. Ninguém sabe nada dele antes disso. Aluno novo na turma, logo no primeiro dia de aula mostrou a que viera. Entortou a professora de história com seus argumentos que ele próprio chamava de irrefutáveis. “Falácia”, gritava ele a cada defesa da acuada professora. Aos quatorze anos e cheio de si, julgava ter sido posto ali como a luz em meio às obscuras trevas da oitava série e seus professores medievais.
Foi ateu convicto na escola por três meses e dois dias. Cansado de ver tanto aquele pretensioso e esnobe novato atrapalhar a aula, um certo cristão o contrariou. Vendo que não podia vencer a discussão, Dario retirou-se da sala, e após refletir, abraçou o cristianismo. Não por uma mudança interior, contudo, mas por uma convicção racional, como ele gostava de lembrar sempre. A fé cristã era a melhor resposta e o melhor argumento para ele então, e Dario não gostava de estar do lado de quem perde a discussão.
Quem via o Dario cristão, entretanto, não via diferença para o Dario ateu. Cínico, arrogante e beligerante, continuava discutindo ferrenhamente. Seus alvos mudaram, claro. Vangloriava-se de calar os céticos e os cristãos inferiores, que não buscavam embasar a sua fé em argumentos convincentes.
Por fim, o único efeito prático da nova convicção de Dario foi que as aulas de História passaram a fluir normalmente, enquanto as de Biologia, conduzidas por um professor ateu, passaram a não terminar sem uma briga.
Nos quatro anos seguintes, que foram intermináveis para sua turma e seus professores, tornou-se um apologeta nato. Recitaria em seqüência todos os argumentos para defender a fé cristã que existem, de Agostinho a Os Guinness. Era invencível em debate. Tão imbatível que a frustração o alcançou. Não havia mais argumentos a serem vencidos, nem ateus a serem contraditos. Que restava a fazer?
Viu-se como um soldado que já tinha vencido todas as batalhas. Nada fazia mais sentido sem o que contra-argumentar. Sentiu-se sozinho e sem um caminho que pudesse seguir. Errante, caiu prostrado no chão. E não era qualquer solo aquele em que afundava sua cara. Era o solo do altar, diante de um púlpito, em um lugar que chamavam de igreja.
Sim, a igreja. Dario fazia parte de uma, mas não se sentia feliz com ela. Achava que o pastor e seus irmãos eram ignorantes. Discutia na escola bíblica, mas ninguém entendia seus argumentos. Ou concordavam com ele, ou não entendiam nada. Sentia falta do calor da discórdia, da exaltação, do ad hominem que ele pudesse denunciar para desacreditar seu oponente.
Esquecendo-se de tudo isso, lá estava ele diante de um pastor, molhando a cerâmica do altar com suas lágrimas. Cedera ao apelo missionário. Entendeu que a obra de Deus era o único refúgio para seu dilema, para sua falta de atividade, para sua vida sem propósito.
Por cinco anos, pregou, orou, distribuiu panfletos, evangelizou na faculdade, colou cartazes, pintou o rosto, cuspiu fogo, ajudou os carentes, abraçou aflitos, dançou, fez teatro, dormiu no chão. Não havia uma tarefa missionária de seu grupo de jovens que não tivesse feito. Via a si próprio e se considerava um Dario completamente diferente.
Contudo, certo dia um antigo colega de escola, agora colega de curso na universidade, aquele mesmo cristão que o desafiara no princípio, visitou a igreja, exatamente no dia que Dario pregava, a convite do próprio. “Esse rapaz não muda”, pensou ele ao ver seu colega pregando. E, realmente, era o mesmo Dario. Não eram cristãos convictos os seus alvos, nem ateus. Agora ele se voltava aos pecadores não redimidos, e os tentava convencer como antes: pela força de argumentos convincentes, que não necessariamente precisavam ser verdadeiros.
Ao fim de seus anos de trabalho missionário, Dario se decepcionou novamente. Dessa vez o motivo foi justamente seu empenho. Envolveu-se demais com a igreja, e passou a ver coisas que desagradariam qualquer um. Intrigas, fraudes, mentiras, imoralidades acobertadas. Aquilo começou a incomodá-lo.
Passou a questionar a validade do modelo de igreja. Mais uma vez, voltava-se para discutir com os cristãos. Agora como um deles, o que era inédito. Argumentava que a base de todo erro do cristianismo era sua institucionalização. As respostas não o convenciam, já que seus próprios argumentos o fascinavam.
Chegou à conclusão que aceitar uma igreja como verdadeira significava assumir que aquela igreja era melhor que todas as outras. Desligou-se de todas elas, e passou a procurar um cristianismo mais próximo à raiz, como ele chamava. Buscava um certo Jesus histórico, o intrépido rabi galileu, o homem anti-religioso que sacudiu todos os sistemas vigentes.
Suas afinidades com a anarquia vieram à tona. Vendo que o Novo Testamento apontava para o modelo eclesiástico, questionou-o quase inteiro. Amaldiçoou os formadores do cânon, excluiu todas a epístolas e o Apocalipse de sua base de crença. Passou a descrer os Atos dos Apóstolos. Firmou-se apenas nos Evangelhos, ignorando o de Lucas, para ele tendencioso e falho.
Como Mateus, Marcos e João não fossem suficientes para embasar sua crença, buscou mais modelos. Apegou-se a Tolstói e Gandhi, para ele aqueles que melhor entenderam o que Jesus quis ensinar. Dario desprezava a imagem de Cristo ressurreto e glorificado, voltando como o Rei dos Reis. Preferia o homem excêntrico e festeiro, companheiro de pessoas desprezadas e inimigo de poderosos religiosos.
Para Dario a institucionalização da fé não era um dos males do mundo, era o pior dos males do mundo. E esse era seu novo foco de discussão. Por dez anos argumentou de forma contundente defendendo essa idéia. Depois desse tempo, encontrou-se com aquele antigo cristão, o mesmo de tantos anos antes. Ao se ver diante dos numerosos argumentos de Dario, dados em seqüência durante uma conversa em um bar, o cristão fez, após pensar durante um tempo olhando para sua xícara de café, uma única pergunta:
- Se abraçar uma igreja é considerar que aquela igreja é melhor todas as outras, então deixar de abraçar qualquer igreja não significa considerar a si próprio melhor que todas elas?
Dario engoliu seco. Seus olhos arregalados se voltaram para sua cerveja. Ele não gostava de cerveja, mas passou a beber quando achou que seria interessante demonstrar sua liberdade aos cristãos presos pelo sistema eclesiástico arcaico. Engolia aquele líquido forçadamente para provar que era livre aos olhos de crentes escandalizados. As últimas frases que aquele cristão ouviu de Dario foram o pedido de conta e uma rápida despedida.
Na última vez que Dario foi visto em vida, ele passava pela janela. A janela do nono andar, para ser mais exato. Rumava para o chão. Foi aquele antigo cristão quem achou um bilhete no bolso da jaqueta que envolvia o corpo espatifado de Dario. “Não existe resposta para as perguntas. Não existe sentido em tentar ser bom. Desisto.” era o conteúdo da nota.
- Um morto que se protege do frio. Dario e suas inutilidades – foi a primeira coisa que pensou ao olhar para o cadáver e sua jaqueta.
O cristão entrou em uma lanchonete próxima, enquanto policiais e bombeiros estavam à volta do corpo. Sentou-se em uma cadeira do balcão e foi logo atendido.
- Que coisa. O que leva uma pessoa a fazer isso? – perguntou o balconista.
- Existem pessoas prontas pra tudo, menos para perceber que toda a sua vida foi construída sobre seus próprios interesses mesquinhos e posturas orgulhosas.
O garçom não esperava uma resposta na verdade, até por não saber que aquele cliente conhecia muito bem o suicida.
- Vai querer algo? – ofereceu o garçom, meio sem jeito.
- Um café por favor.
Em uma mesa próxima, duas mulheres discutiam o fato recente.
- O Senhor tenha misericórdia da família desse homem. Saber que um ente querido morreu e foi direto para o inferno deve ser ruim. Pois, você viu o pastor falando: os suicidas não têm perdão.
O cristão ouviu aquelas palavras, fitou aquelas senhoras, pensou por um instante e disse para o garçom:
- Esqueça o café. Quero uma cerveja.
Pensava ele enquanto bebia e olhava a lata, o que o fazia lembrar do antigo colega. “Se Dario estava certo eu também devo me jogar do prédio. Aliás, melhor não. E se o pastor dessas senhoras estiver certo?”

14/Ago/2008 às 8:58 |
Putz cara, muito bom! Qual de nós cristãos não nos encaixamos em um dos vários perfis assumidos pelo personagem? Em até metade do texto foi praticamente o caminho que segui, será que vou me suicidar no fim das contas? hehehehe
14/Ago/2008 às 9:01 |
Heheheheheee! Tu escreve bem bichinho! Garçom, duas cervas bem geladas! Uma pra mim e outra pro meu amigo Teo!
14/Ago/2008 às 9:49 |
ainda toh ruminando o
final dessa história…
muito bom o texto.
20/Ago/2008 às 23:00 |
Um texto excelente…
muito bom mesmo!!!
22/Ago/2008 às 2:09 |
eu quero uma cerveja por favor… (odeio cerveja) aheiuheiuheuhueeu
vamo tomar junto mano???
hauiehuiehue
gostei do texto….
confesso q estou sorrindo e muito ao final ahiuehiuaehaiueh ^^