Sobrevivendo às profetadas

Ninguém é imune. Vivendo no meio evangélico ou não, todos estão sujeitos ao encontro nem sempre bem-vindo com um dito profeta. Não são só os que costumam visitar templos de igrejas pentecostais que estão expostos. Muitas vezes os tais profetas vão até as casas, locais de trabalho, ou mesmo fazem uma abordagem em um lugar público para proclamarem o que chamam de profecias.

Muitas vezes a pessoa é pega de surpresa. Sem esperar, recebe um turbilhão de palavras ditas com um ar de autoridade espiritual. A maioria sente-se sem ação, como se alguém acabasse de tirar sua roupa, deixando-o nu diante de todos, até porque muitas vezes as ditas profecias envolvem aspectos pessoais da vida.

Uma série de perguntas são cabíveis então: o que fazer? o que pensar? em que acreditar? Entretanto, uma grande parte dos alvos das profecias são incitados a não duvidar ou perguntar, seja por um ensinamento prévio ou por uma exortação do próprio dito profeta.

É para esses que este texto se destina: a pessoas que receberam profecias e têm dúvidas, ou mesmo aqueles que não tiveram condições ou coragem para questionar ou perguntar sobre a veracidade do que lhes foi direcionado. Tentarei responder a alguns questionamentos, e desfazer alguns mitos envolvendo essa prática que tem sido muito prejudicial para muitas vidas.

1. Como saber se uma profecia é verdadeira?

A regra básica para saber se uma profecia é verdadeira é: profecias se cumprem. Esta “dica” é tão antiga quanto o Pentateuco, e é um critério inserido dentro da própria Lei para se julgar a veracidade dos ditos de alguém que se levanta como profeta.

Contudo, este não deve ser o único critério. Falar obscuramente, com revelações vagas e imprecisas pode ser uma desculpa para se interpretar o significado do dito ao bel prazer.

Exemplo: “Em 2008 a igreja será outra”. Outra o quê? Outra como? Isso é tão vago se encarado como uma profecia que pode dizer respeito desde a instalação de condicionadores de ar até a implantação de novas revistas de escola bíblica.

Chutes, análise e informações privilegiadas podem ser a fonte de um profeta, que acaba acertando por sorte ou simplesmente por saber mais do que quem o ouvia.

Exemplo: um profeta, diante de uma platéia de 200 ouvintes, anuncia que “alguém ali tem problemas de estômago, e Deus está pronto para curar todo aquele que crer”. Seria de se estranhar se entre 200 pessoas ninguém tivesse pelo menos gastrite. Trata-se de um chute bem dado, da linha da pequena área, sem goleiro. Errar é praticamente impossível.

Outros ainda sabem analisar seus ouvintes. Diante de uma platéia de 400 pessoas, a maioria classe média e alta, o que é testemunhado pelos carros de luxo no estacionamento, o pastor “revela” que alguém tem problemas na justiça, e “Deus moverá o processo favoravelmente”. É muito provável que em uma platéia de ricos exista uma pequena parcela de patrões com problemas na Justiça do Trabalho. Se não houver ninguém nesta situação, o que é uma possibilidade, a vergonha por ser parte litigante em um imbróglio judicial pode ser apontada como culpada por não aparecer quem se apresentasse como o objeto da dita profecia.

Outro caso é o da informação privilegiada. Suponha que um pretenso profeta visite em segredo constantemente uma casa de prostituição no bairro de sua igreja. Em uma dessas visitas conversa com o dono do estabelecimento, que diz que está à beira da falência por causa de dívidas. No domingo seguinte, “profetiza” à igreja: “Eis que o Senhor fechará os antros de prostituição e adultério à volta dessa igreja, confirmando seu poder através do seu povo neste lugar”. Como ninguém da igreja freqüentava aquele lugar, ninguém pode desmascarar o irmão imoral. Um tempo depois, o prostíbulo fecha, e o profeta recebe suas honras.

Nos três casos o discurso se cumpriu, mas em nenhum deles houve uma profecia. Houve, sim, manipulação. Veja-se que, então, não é porque o que alguém diz de específico se cumpre que já se deve considerá-lo inequivocamente um profeta.

É preciso considerar ainda o fator linguagem. Não há motivo lógico para Deus falar usando o jargão das traduções de João Ferreira de Almeida. Quando um dito profeta usa o tal jargão (”eis que…”), subentende-se que ele está forçando o discurso, tentando passar uma imagem de espiritualidade apenas por usar uma linguagem da tradução bíblica mais difundida.

2. Então existe gente mal-intencionada profetizando por aí?

Sim, e muita. Uns querem dinheiro, outros têm interesses bizarros. Já ouvi sobre “profetas” “profetizando” que alguém da igreja deveria dar a ela isto ou aquilo. Certa vez uma “profetisa” “revelou” a uma mulher que conheço que ela deveria entregar seu caro notebook novo. Sem questionar, a mulher deu seu computador à profetisa. Ao se ver nesta situação, lembre-se de Eliseu, que negou receber presentes, mesmo voluntários, por ações de seu ministério profético [1].

Casos de gente que foi manipulada não falta. Profetas que fazem homens terminar o namoro para poder ficar com a namorada do irmão, ou semeiam a discórdia entre casais sem motivo ou verdade são assustadoramente comuns.

Portanto, se alguém usar uma profecia para dizer algo sobre alguém que você conhece, como uma traição, adultério ou qualquer atitude prejudicial, duvide severamente. Profecia não deve ser fofoca. Depois que Jesus ensinou sobre perdão, é triste ver gente caindo na conversa de quem semeia a discórdia com profecias sem sentido, motivadas por interesses ocultos.

3. Duvidar de uma profecia não é pecado?

Acredite: não. Mesmo que a profecia fosse legítima não seria pecado duvidar. A própria Lei, como já disse, recomendava esperar o cumprimento para se ter certeza [2]. Em tempos de falsas profecias como hoje faz até bem quem duvida. Além de esperar o cumprimento, procede bem quem confirma biblicamente e conversa com outras pessoas sobre o fato.

4. Enfim, o que se deve fazer?

Não caia no conto de oportunistas. Já vi gente receber uma profecia que dizia que Deus lhe daria uma casa. A pessoa sentou, se acomodou, e está esperando sua casa até hoje, sem fazer muita coisa.

Não é assim que funciona. Continue vivendo sua vida normalmente, e busque a Deus pessoalmente. Dê atenção à loucura da pregação, aquela do Cristo crucificado [3]. Deixe os profetas e suas profetadas. Os falsos e oportunistas se desanimarão com o insucesso, ao verem que seus ouvidos não estão voltados para ele. Talvez ele ameace com profecias severas e sinistras. Desconsidere. Não ter atenção e fama é o pior resultado para um falso profeta.

Os verdadeiros, entretanto, continuarão falando. Quer ouçamos ou não, quer acreditemos ou não. Essa é a sina deles – a sina de quem se preocupa em dizer a verdade e a justiça. Encontrando um desses, ouça-o. A diferença será notória.

[1] II Reis 5

[2] Deuteronômio 18:20-22

[3] I Coríntios 1:20-25

4 Respostas para “Sobrevivendo às profetadas”

  1. elianderson Disse:

    Vou imprimir isso, tirar cópias e
    espalhar em alguns lugares.
    Sábios conselhos, amigo Teo!

  2. Bia Disse:

    Eu fico pensando nos verdadeiros profetas em meio a toda essa onda, que só causa vergonha e descrédito. Porém, é pelos frutos que se reconhecerá joio e trigo, pelo julgamento da profecia, conforme a Bíblia ensina, é que se terá discernimento de quem no meio da profetada falou pela boca do Senhor. Eu creio que há quem seja verdadeiro!

  3. Rap Disse:

    Profecias não ecsistem hehehe só pra dar uma de chato…

    Mas são bons conselhos…

  4. Teo Disse:

    Nem entrei nesse mérito, Rap. Mas vejo que tem gente que é subjugada por falsos profetas e precisa desfazer certos mitos.

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