Por vinte e um anos da minha vida morei em Ouro Preto do Oeste, no interior de Rondônia. Pois é. Não me olhe desse jeito. Não tive culpa disso. Não me consultaram antes do meu nascimento. Mas apesar de não ter sido uma opção, foi um aprendizado, como tudo na vida.
Em mais de duas décadas morando lá, descontando-se obviamente os três e meio em que eu ainda não sabia ler, escrever ou pensar em muita coisa além de comida e brinquedos, e também baseado em algumas viagens pelo Brasil nesse período, percebi que as pessoas não mudam tanto assim de um lugar para outro. Em qualquer lugar existem jovens que saem de casa nos fins de semana à noite, dirigindo os carros de seus pais, e vão para um lugar onde exista som alto e possam ingerir álcool em grande quantidade, enquanto tentam “pegar” alguma criatura do sexo oposto. Ou pelo menos foi assim por longos anos, em tempos que sem Lei Seca.
O certo é que além de as pessoas serem parecidas, os lugares que elas freqüentam são parecidos. Geralmente são lugares fechados, que cobram entradas de preços variados, o que permite até mesmo separar casas por classe social. Sim, geralmente, porque em Rondônia é diferente. Os jovens tem uma estranha preferência por reunirem-se para suas festas noturnas em… postos de gasolina.
Não fui o primeiro a perceber tal fenômeno. É notório a ponto de ser uma constante nos artigos sobre Rondônia na confiabílissima Desciclopédia. Chega a ser impactante para quem nunca viu tal fenômeno: nos sábados à noite e nos domingos à tarde, chegam de vários lugares carros de som (alguns chegam a receber status e nomes célebres, como “L-200 Teimosa”, “Strada Nervosa”, “F-250 Manhosa”, sempre seguindo o padrão “[modelo do carro] – [adjetivo ridículo]“), trazendo gente de vários tipos, incluindo playboys, gente que quer ser playboy e mulheres em geral, que compram cerveja em lanchonetes próximas ao posto ou nas lojas do próprio posto e ficam por ali mesmo, ouvindo a música (?), bebendo e fazendo coisas que não consigo entender, como dançar sem camisa em cima da carroceria de uma pick-up, jogar cerveja uns nos outros ou dar tiros nas pessoas ao redor.
Em Ouro Preto do Oeste isso é particularmente notável pelo fato de lanchonete muito movimentadas serem anexas a um posto de gasolina. Uma delas, pelo menos, na avenida principal da cidade, é cheia de carros com som ligado.
Por não entender muito de vida noturna, até por não participar dela, achava que era um fenômeno exclusivo de Ouro Preto. Estava enganado. Soube que em Porto Velho também existia quem se sentia atraído por postos de gasolina, até que comprovei visualmente em um certo sabado à tarde, dia de alguma festa qualquer, quando testemunhei dezenas de pessoas à volta de carros de som em um posto na avenida Pinheiro Machado, tradicional local da “noite” portovelhense.
Na Desciclopédia soube que essa tradição existe também em outros municípios do estado. Ao invés de apenas apontar o dedo e rir, como é o costume dos um pouco pensantes fazerem diante de um fato como esse, resolvi ir mais adiante, e questionar as causas desse fenômeno. Por que os playboys rondonienses se sentem atraídos por postos de combustível? A pergunta rodava em minha mente por longos cinco minutos até que tive uma iluminação a respeito. Compartilho-a.
Não muito tempo atrás, no fim da década de 1980 e início da década de 1990, eu me divertia lendo gibis e assistindo Jaspion e Chaves. Alheios a toda essa cultura que moldou meu caráter infantil, os adolescentes e jovens adultos rondonienses da época entregavam-se à diversão noturna. Obviamente, eram outros tempos também na noite. O termo balada não era usado. Não se via carros de som. Os playboys tinham mais motos que carros (em Ouro Preto essa proporção não se inverteu tanto), e muitos se “arrumavam” com camisas marrom por dentro da calça jeans.
Existiam, sim, casas noturnas. E também existem hoje, mas não é verdade que naquela época não existiam. Pelo menos no interior, seguiam o padrão de ter um nome engraçadinho ou pseudo-sofisticado terminado em -us: Crocodilus, Nautilus, Cadavericus. Sim, Cadavericus. Tenho notícias de que existiu, no fim da década de 1980, uma casa com esse terrível nome. A coisa andava tão devagar em Rondônia nessa época que ainda chamavam aquilo de discoteca.
Mesmo sendo feitas de madeira, em instalações precárias, tais “discotecas” tinham que seguir o padrão de “segurança” das casas noturnas com menos recursos: uma entrada pequena, que também é saída, para evitar entradas não autorizadas.
Em caso de confusão ou incêndio, é claro que a situação devia ficar Cadavericus com semelhante estrutura. E confusão não devia ser incomum na época por um fato crucial: a escassez de energia elétrica no estado na época. Faltar energia era comum. Imaginar a situação de uma “discoteca” lotada de gente com roupa marrom, fumando e bebendo, no meio de um apagão é quase pedir pra pensar no Inferno. Rejeito essas coisas em minha mente.
Os pontos de encontro alternativos, as praças, sofriam com o mesmo mal. Dependentes da iluminação pública para não serem palco de ataques criminosos ou atos sexuais públicos, as praças perdiam sua saúde social quando faltava luz.
Minha teoria é que preocupados com a diversão noturna, os playboys se sentiram então acuados. De um lado, a possibilidade de se ver numa sufocante casa noturna sem luz e sem som, ou de ser atacado por um assaltante ou um desafeto no escuro de uma praça sem iluminação. No meio desse dilema, durante uma indesejada falta de energia em um sábado à noite, os playboys ouviram um barulho, alto e constante. Com ele, ao longe, subia uma fumaça escura e… luz!
Deslumbrados pela visão da claridade, os playboys seguiram na direção do brilho. Lá chegando se depararam com um posto de gasolina. É claro! Os postos sempre tiveram geradores de energia para as constantes emergências envolvendo a falta de energia elétrica. Enxergaram ali a solução do seu problema. Munidos de cervejas carregadas nos carros e pelos caronas das motocicletas, eles se dirigiram para os postos. Os frentistas, acostumados à solidão dos plantões, até gostaram da idéia.
De lugar provisório em caso de falta de luz, os postos passaram a se tornar ponto de encontro constante devido ao hábito e à visão comercial de alguém que resolveu abrir um bar próximo a um posto. Nascia ali um aspecto cultural arraigado devido a uma deficiência de infra-estrutura. Nada mais rondoniense.
Pra terminar, a conclusão que eu tiro disso tudo é:
Playboys rondonienses tem medinho do escuro.
Agora eu vou apontar o dedo e dar risada.

Putz cara, é fenômeno generalizado rs
cara… cordo plenamente…
morrem de medo do escurinhoo!!! ^^ kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
haiuehiuehuheuehuhiuehiuhuehuie
pior que latino-americano aqui foi um caos, avenida de todinha em todos os POSTOS de gasolina … chegava ser deprimente… =/
taí uma bela explanação do “fenômeno” rondoniense! Pra mim que sou bicho de outro mato, serviu como informação pra entender um pouco dessa ainda ilustre desconhecida da maioria dos brasileiros…abração!
Rap, quer dizer que em Brasília os postos também são pontos de diversão? Ou você se refere ao fato dos playboys terem medinho? hehehhe
Luiz, que bom que eu não estava aí.
Cada região de mato tem sua peculiaridade, Etiel, hehehe.
\o/
Eu acho que os play precisam primeiro aprender ouvir música…
Tuchi-tuchi é irritante…
eayeayeahuehaue
Mas gnt… Antes de criticar vejam o lado bom…
Bem… Pensem… reflitam sobre os benefícios que os play trazem pra nós com seus carros barulhentos, seus copos de cervejas e mt bagunça sem sentido…
É… Pensando bem só há uma coisa a se falar sobre esse fenômeno: os play tem medinho do escuro… \o/
hahahahah… vou seguir esse pensamento pra descobrir o porquê dos playboys da cidadezinha que eu morava, em minas, migrarem de praça em praça depois de determinado período… engraçado, a última era do lado de um posto de gasolina. será que o fenômeno de rondônia tá se espalhando pelo resto do brasil?
Chega a ser engraçado! Eu achei que isso só
acontecia aqui em Maceió, Alagoas. Eles também
tem um posto de gasolina pra se encontrar nos
finais e em alguns dias da semana também. Ah,
e não basta ser playboy, tem que entrar na acadêmia
pra fazer parte do grupo também. Mas adorei a
teoria de que na verdade eles tem medo é de escuro.
hauahauahaua. Genial!
Isso é a mais pura verdade, confirmando essa “tendência”em Ji-paraná RO existe um Moto clube cuja sede é em um posto de gasolina local onde se reúnem para conversar beber e tudo mais.
Parece até brincadeira.
Podem continuar rindo….