- Eu não suporto mais. Cuidar de uma casa é uma canseira sem fim!
Quem sentenciava desta forma era um jovem em uma mesa de lanchonete, tendo à sua volta outros quatro rapazes, que contavam há alguns minutos experiências domésticas. Um outro concordou com o que havia sido dito:
- É verdade. Não importa o que você faça, tem que fazer tudo de novo depois de um tempo. É um trabalho absolutamente necessário, mas cansativo, repetitivo e burro.
- A roupa leva mais tempo sendo lavada, secada, em espera e passada que sendo usada. É um horror – reclamava um terceiro.
- O chão parece criar poeira por si – reclamou outro.
À distância, um outro rapaz, cujo nome era Alfredo, acompanhava a discussão enquanto esperava um pedido para viagem. Ria a cada frase dita pelo grupo, e esperava uma oportunidade para fazer um aparte. Enfim, num momento em que todos falavam ao mesmo tempo, ele interrompeu a conversa.
- Vocês estão reclamando à toa. Não é tão ruim assim.
Os cinco rapazes silenciaram imediatamente e se voltaram impressionados para Alfredo. Ele não tinha calculado mal o instante de fazer sua intervenção. Na verdade, atingiu o efeito esperado, que era fazer calar o maior número possível de debatentes com um contraponto surpreendente. Esta era uma de suas manias.
Satisfeito com o silêncio e as caras confusas dos há pouco tão falantes moços, continuou.
- Não entendo por que tanta murmuração. Vocês exageram tudo mesmo?
De fato, Alfredo não era nada tímido, e não sabia usar muito bem seu humor. Alguns rapazes ficaram próximos de considerar o comentário ofensivo, mas um deles foi tolerante, e procurou responder de forma igualmente bem humorada.
- Relaxem vocês, ele deve ser empregado doméstico, só está defendendo sua classe profissional.
Todos riram, inclusive Alfredo, que neste momento recebia seu pedido, que consistia em um sanduíche e uma Coca-Cola. Antes de sair, contudo, não deixou de fazer um comentário final.
- Sabe, você falou nelas, mas digo que não sei por que empregadas domésticas existem quando tudo que se tem que fazer é fechar os olhos pra que tudo se arrume. Tchau, gente!
Atravessou a rua então, com o lanche na sacola. Esperava ouvir algumas risadas, mas não as teve. De fato, se olhasse para trás veria cinco rostos mais surpresos do que aqueles que o fitavam na ocasião de sua interrupção do debate anterior. A diversão daqueles rapazes pelo resto da noite foi tentar entender o que significava afinal “fechar os olhos para que tudo se arrume”.
Alfredo caminhava para casa tentando entender porque seu gracejo não foi divertido para o grupo. Não chegou a uma solução, e resolveu não mais usar aquela piada. Também não entendia por que reclamavam tanto do serviço doméstico.
Chegou em seu apartamento e abriu a porta. Acendeu a luz revelando uma casa impecavelmente limpa e arrumada. Não se via poeira, restos do que quer que fosse, lixo ou coisas fora do lugar. A mais crítica e exigente das donas-de-casa daria parabéns ao responsável pela limpeza daquele lar. Tudo brilhava como novo.
Saindo da sala de estar, Alfredo jogou sua carteira e as coisas de seu bolso em cima de um sofá. Ácaros morreriam de fome naquele móvel. Entrou na cozinha, que tinha azulejos tão brancos quanto possível, e um cheiro tão agradável quanto o de eucalipto, e jogou a sacola sobre a mesa. Pegou um prato, talheres e um copo no armário, catchup e maionese na geladeira, e começou a sua refeição.
Descuidado como sempre, derramou refrigerante, molhando a toalha de mesa. Não bastasse, pintou de vermelho um pano que estava ali perto ao limpar sujas de molho. Deixou os restos daquele jantar onde estavam. Consistiam em um prato, um copo, um garfo, uma faca, potes de maionese e catchup, um pano de cozinha que era branco até antes de sua chegada em casa, uma garrafa vazia de refrigerante, uma sacola, uma embalagem de papel com a terça parte do sanduíche abandonado e uns quinze guardanapos.
Saindo da cozinha, passou pela sala, e viu sua carteira e suas coisas cuidadosamente deixadas em cima de uma área livre da estante onde ficava a televisão. Entrou no banheiro, que estava absurdamente higienizado. Se germes e bactérias em geral produzissem filmes de terror, aquele banheiro seria uma típica cena de seus pesadelos cinematográficos. Alfredo escovou os dentes, deixando após terminar a escova sobre a pia e o tubo de creme dental aberto próximo à torneira. A tampa do tubo, como de costume, caiu no ralo da pia. Achou que o esforço não valia a pena, e saiu em direção ao quarto.
Antes, resolveu passar na cozinha para tomar água. Pegou um copo no escorredor, ainda molhado por ter acabado de ser lavado. No escorredor ainda haviam um prato dois talheres recém limpos. Abriu a geladeira, e pegou a garrafa de água, que estava ao lado do pote de maionese. Bebeu e deixou o copo em cima da mesa, que estava com uma toalha que ele ainda não tinha visto. Parecia ser nova.
Enfim foi para o quarto. Abriu a porta do cômodo e viu, bem na junção duas paredes, uma figura negra e sinistra, saltando à vista em meio a paredes tão perfeitamente brancas. Alfredo levou um susto, apagou a luz, fechou a porta e convenceu a si próprio que estava com vontade de ir ao banheiro. Depois de usar o sanitário, lavou as mãos na limpíssima e organizada pia, e pegou um pedaço de fio dental.
Dirigiu-se à cozinha, com o fio pendurado nos dentes, olhando para um lado e para outro como se esperasse por algo. Após uns poucos minutos, pegou o fio na mão e abriu a lixeira da cozinha para jogá-lo. O fio caiu na lixeira, sobre guardanapos usados, uma embalagem de sanduíche e uma barata morta.
Voltou ao seu quarto, que era o único da casa. Era um pequeno apartamento, diga-se, mas suficiente, como ele sempre apontava. Alfredo tinha passado por todos os seus cômodos naquele pequeno pedaço de noite, à exceção da área de serviço, para se ter uma idéia. Agora ele estava determinado a dormir.
Abriu o guarda-roupa, que estava mais organizado que uma biblioteca, e pendurou seu boné, que era novo e merecia, segundo ele, cuidados especiais. O restante da indumentária foi tirado e jogado pelo chão, incluindo camiseta, calças, cueca, tênis e meia. Vestiu um calção qualquer e foi deitar-se em uma cama tão bem arrumada que daria pena encostar. Sem cerimônias, puxou o travesseiro e o lençol e caiu em sono pesado mais rapidamente que o tempo que se costuma levar pra dizer boa noite.
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Este texto continua na Parte 2.

Sim, este conto tem mais partes que eu só vou postar depois pra não cansar com uma leitura longa. Provavelmente serão mais uma ou duas partes apenas, depende de como eu vou terminar.
meu Deus… seja lá o q for esse negócio q arruma a casa dele, eu quero! hahahaha
até parecia eu reclamando no inicio do texto… pra quê arrumar se vai bagunçar de novo? rs
bjs!
deve ser a mãe que chegou de surpresa hahahaha
Também acho que é mãe que ele não dá o devido valor… ou ainda tudo não passa de imaginação hehe
Ainda tô com os cinco, reclamando de trabalhos domésticos rs
Eu acho que é o XXXXXX euaheauea não ouso escrever o nome dele….
Podem naum resistir aki…
Mas sei o q é…
sei sim…
eeaeyageyageya
aiaiaiai… mas eu quero ler o resto! vc não pode fazer isso, ñ pode me deixar sem o resto! aaaaaaaaah!
eu acho que é ele mesmo, que faz sem perceber, acha que ñ fez. ou o trem de fechar os olhos é verdade, rs.
bjim, teo.
[...] 110 – Parte 2 Este texto é uma continuação. É recomendável ler a primeira parte [...]
[...] 110 – Parte 3 Este texto é uma continuação. É recomendável ler a primeira e a segunda parte [...]
chega a dar medo…
mas vou continuar a leitura
[...] Apartamento 110 – Parte 4 Este texto é parte de uma série. É recomendável começar na primeira parte. [...]
[...] Apartamento 110 - Final Este texto é parte de uma série. É recomendável começar na primeira parte. [...]
parece capitulo final de novela da globo…fraco
Capitulo final? Sendo essa a primeira parte, parece que tu sabes o que diz.