A nova polícia
Não sei se alguém lembra disto, já que faz bastante tempo que não continuo esta história, mas este texto é parte do que tenho chamado Os tribunais de Rósea. Para ler os outros capítulos em ordem, clique aqui.
Em frente à loja de Dimitri existia um prédio comercial de três andares. Do terceiro andar deste prédio, em um escritório luxuoso e organizado, um homem observava a movimentação do outro lado da rua. Era Emerson Cardoso. O escritório era o da Importadora Cardoso, responsável pela importação de cosméticos. Entre eles, é claro, o produto da moda, Pierre Simon.
– Que absurdo, senador. Onde estes ladrões vão parar? - Perguntou Emerson a outra pessoa na sala.
O homem a quem Emerson chamava senador era Fernando Barbosa, Fefê Barbosinha para os eleitores. Efetivamente, Fernando (ninguém além dos eleitores o chamava de Fefê) era senador.
– Essa gente não tem jeito. Bandidos miseráveis - Indignou-se Fernando.
– E o pior é que esse parece que é mulher. O estranho é que a polícia já prendeu a moça e continua ali.
– Esses policiais novos são cheios de novos métodos. Eles acham que podem resolver as coisas. Eles deviam é obedecer.
– Concordo. Mas, desculpe interromper a conversa, o que traz o senador aqui?
– Assuntos importantes, Emerson. O carregamento chegou.
– Ótimo! Está no porto ainda?
– Não, já está no meu depósito.
– Fantástico! Quantas caixas?
– Cerca de oito mil.
– Oito mil! Senador, o senhor é um homem muito competente. Como passar oito mil caixas de Pierre Simon pela alfândega sem ser pego?
– Na verdade eu fui pego. Mas o fiscal tratou de me procurar antes de fazer qualquer coisa. Ele é meu amigo, e uns trocados foram suficientes para ele liberar a carga, que estava dentro de doze vagões. A nota fiscal dizia que era milho.
– Que fantástico. Então, quando eu posso mandar buscar? Os comerciantes já estão pressionado, e eles não aceitam mais a história do carregamento atrasado. Acham que é desculpa esfarrapada.
– Assim que me passar o dinheiro, o senhor pode ir buscar.
– Sabe, senador, eu ando com medo de ser pego e ir pra cadeia.
– Bobagem, homem! Medo de quem? Eu sou senador e você é um rico empresário, homem respeitado na sociedade!
– Sabe-se lá, vai que a polícia nos pega.
– A polícia serve pra prender pessoas que são um risco pra sociedade, como essa tal ladra que roubou agora a mercearia aí na frente. E tem mais.
– Mais o quê?
– Estamos votando no senado um projeto para nos tornar imunes. Nós não poderíamos ser presos, e em caso comprovado de crime, só o Tribunal Maior de Rósea poderia nos julgar. Sabe, né, só pra dizer.
– Sério? De qualquer forma, só o senhor seria imune. Eu não.
– Não se preocupe. O projeto inclui que quem estiver relacionado a um senador no crime também terá tratamento privilegiado. Confie no meu taco.
– Ah, então assim eu fico mais tranqüilo.
– Pois é assim mesmo! Deixe de bobagem e vamos combinar o pagamento.
– Ainda estamos combinados em cem mil, não estamos?
– É. Preço barato pra camarada.
– Cinqüenta mil nessa maleta aqui. O resto eu deixo no depósito quando for pegar.
– Muito bom, Emerson – disse o senador pegando a maleta.
Assim que Fernando pegou a maleta com o dinheiro alguém bateu à porta.
– Senhor Cardoso, estou com seu chá, posso entrar? - dizia a voz de um dos empregados da importadora.
– Eu não pedi chá, Agnaldo! - respondeu Emerson.
– Um chá seria uma boa, Emerson… - disse o senador.
– Esse funcionário é uma besta. Contratei-o esse mês, e não faz nada certo. Não presta pra servir chá, pra limpar, pra nada. E vivo achando ele atrás das portas. Um incompetente curioso. Vou mandar esse imbecil embora esta semana ainda. Mas já que o senador quer chá, vou deixar ele entrar.
Emerson se levantou e foi até a porta, que estava trancada. Ele sempre trancava a porta quando tratava de assuntos importantes. Ele não notou o fato de que o empregado já sabia que a porta estava trancada, e não tentou girar a maçaneta.
– Entre logo, Agnaldo, e sirva o senador!
– Sim, senhor Emerson!
Agnaldo colocou cuidadosamente o chá sobre a mesa, demonstrando certa inabilidade. Emerson sentou-se na mesa à frente do senador, balançando a cabeça e demonstrando insatisfação com o atendimento do funcionário.
– Mais alguma coisa, senhor Emerson? - perguntou o funcionário.
– Nada. Suma da minha frente que eu estou ocupado.
– Eu só tenho mais uma coisa a dizer, senhor.
– Agora não, inútil. Estou com um senador aqui, não está vendo?
– Estou, senhor. Desculpe-me, mas o que eu tenho a dizer também diz respeito ao senador.
– E o que você, criatura imprestável, teria a dizer para mim e para o senador?
– Agente Augusto da polícia de Rósea. Vocês estão presos por contrabando.
Emerson e Fernando fizeram a mesma cara e abriram a boca da mesma maneira diante da credencial que o funcionário tinha acabado de tirar do bolso e mostrava a eles. Pela porta entraram mais dois agentes, com o uniforme da polícia, e algemaram os dois. Augusto foi até a janela e fez sinal para os policiais que estavam em frente à mercearia de Dimitri. Os policiais responderam com outro sinal e entraram na loja.
– Senhor Dimitri e esposa, os senhores estão presos por prática de contrabando – disse o mesmo policial que tinha mandado algemar Lorena.
Dimitri e Inácia fizeram a mesma cara que Emerson e Fernando.
- E também – continuou o policial –, senhor Dimitri, temos um mandado para apreender sua mercadoria contrabandeada.
Dois agentes algemaram Dimitri e Inácia, e outro foi recolher em caixas o estoque de Pierre Simon, com a ajuda de mais dois policiais que tinham acabado de chegar. O policial que tinha anunciado a prisão recolheu no chão o frasco de xampú que tinha caído da roupa de Lorena e jogou em uma das caixas.
Depois os policiais conduziram Dimitri e Inácia, algemados, à carruagem onde estava Lorena. O casal ficou sentado de frente para a moça. Lorena não entendeu absolutamente nada, e os três limitaram-se a trocar olhares. Pouco tempo depois Emerson e Fernando entraram algemados na carruagem, que passava agora a ter cinco pessoas e três realidades, conexas apenas por uma marca de xampú.
Augusto, ainda com o uniforme de faxineiro-garçom-contínuo da Importadora Cardoso, deu uma rápida olhada dentro da carruagem e voltou-se para o policial que tinha conduzido as prisões na mercearia.
– Virgílio, não eram quatro prisões? Por que há cinco pessoas na carruagem?
– A moça é um extra. Flagrante de furto.
– Que bonitinho os cinco indo pra delegacia. Façam uma boa viagem, senhorita, senhora e senhores! - disse Augusto para os presos.
Uma parte dos policiais entrou em outra carruagem, onde também tinha sido posto a mercadoria apreendida, e todos partiram. Uma enorme concentração de pessoas tinha se formado em volta da mercearia e do prédio. Todos estavam estupefatos com o que acontecia. Ninguém sabia explicar, mas alguns diziam com os olhos arregalados que um senador e dois comerciantes tinham sido presos.







2/Abr/2008 em 18:04
hehehehe
Será que o Senador Fefê não é, nas horas vagas, o Rev. Fefê? rsrs
[ ]’s ricardo
2/Abr/2008 em 22:25
Hehehehe, sem correlação. Escrevi isso há tanto tempo que nem lembro de onde tirei os nomes.
3/Abr/2008 em 10:12
Poxa cara, muito bom…
Os contos cada vez melhores…
7/Abr/2008 em 23:01
eeeeeeeh! eu lembrava! =)
senti uma espécie de felicidade pela Lorena, hehe. pelo menos os outros tb foram presos. mas queria que ela fosse solta! e to curiosa pra saber o resto… tomara que ñ demore tanto tempo mais, rs.
bjim, moço. inté.