Vestes de enganação
Em Gênesis a humanidade começou nua, literalmente. A princípio, Adão e Eva viviam sem qualquer roupa, conforme foram criados. Logo após o pecado, entretanto, as roupas entraram na história. Primeiramente, serviam para cobrir a nudez, e este é seu uso óbvio. Mas outras funções foram dadas à vestimenta ao longo dos anos, como dinstinção social, proteção do meio e expressão de pensamento. E talvez a mais antiga das funções secundárias seja nada nobre: enganar, ou estar envolvida em enganação.
Assim que viram que estavam nus, pouco depois de comerem o fruto da Árvore da Ciência do Bem e do Mal, o primeiro casal cobriu-se de forma improvisada com folhas de figueira. Ao perceberem a aproximação do SENHOR, esconderam-se. Questionados por Deus sobre os motivo de fugirem dEle, deram como resposta uma mentira, dizendo que estavam nus, apesar de as roupas rudimentares já estavam prontas. Possivelmente, por já estarem dotados de consciência, sabiam que suas roupas eram ridículas, e não queriam se apresentar ao Criador vestidos de forma tão deplorável. Não é de hoje então que alguém dá uma uma desculpa esfarrapada ou mente para não atender a um chamado ou convite por achar que não tem a roupa apropriada…
Era apenas o começo da humanidade, veja-se. Um número desconhecido de milênios depois, Isaque, filho de Abraão, resolveu abençoar seu filho mais velho, Esaú. Todavia, o irmão gêmeo mais novo, Jacó, deu ouvidos ao plano bizarro de sua mãe, Rebeca, para usurpar a benção do primogênito. Para conseguir enganar o seu pai, já cego e supostamente às vésperas da morte, o mais novo aproveitou a ausência de Esaú e usou as vestes desse. Desprovido de pelos, ao contrário de seu irmão peludo, Jacó ainda usou pele de carneiro para simular cabelos pelo corpo. Lá estavam as roupas enganando um pai, para atender o desejo de uma mãe e um filho que desprezaram a promessa de Deus que já tinha feito em relação a Jacó e quiseram fazer as coisas por si mesmos. Ou seja, não é de hoje que roupas são usadas com a intenção de se tomar algo que é de outra pessoa…
Entretanto, Jacó não escapou de ser ferido pela mesma arma. Por muito amar Raquel, trabalhou para Labão, pai da moça, por sete anos para que pudesse se casar com ela. Labão, entretanto, enganou Jacó, dando a irmã mais velha de Raquel, Lia, no lugar daquela. Para tanto usou as roupas nupciais para esconder de quem se tratava. Somente pela manhã é que Jacó foi percebe que aquela era Lia (haja vinho…), e por este engano teve que trabalhar mais sete anos para seu sogro para pagar pela esposa extra, já que Labão também deu Raquel, mas cobrou pela esposa “extra”.
E a sina da enganação por meio das roupas acompanhou também os filhos de Jacó. Judá foi enganado por Tamar, sua nora, após uma complexa sucessão de eventos estranhos. Tamar era esposa de Er, filho de Judá. Er era mau ao ponto de ter que ser morto pelo SENHOR, sabe-se lá como. Onã, também filho de Judá deveria dar filhos a Tamar, conforme o costume da época, filhos estes que seriam atribuídos a Er. Onã não gostou dos termos, mas achou interessante a idéia de poder fazer sexo com Tamar sem que fosse considerado adúltero. Ele tinha relações com ela, mas jogava fora o sêmen antes, em um método anti-concepcional não recomendado, diga-se de passagem. O certo é que sua intenção era absurdamente má, pelo que ele também foi morto. Para não deixar Tamar em uma situação humilhante para seu tempo, seu sogro prometeu seu outro filho, Selá. Mas Judá não cumpriu o acordo, o que levou Tamar a vestir-se de prostituta e ficar no caminho de seu sogro. Enganado pelas vestes, creu Judá que ela realmente era uma meretriz. As evidências levam a crer que ela era muito bonita, já que o viúvo Judá não resistiu e teve relações com ela. Prometeu pagar pelo sexo dando como garantia alguns pertences pessoais, que permitiram identifícá-lo como o pai da criança que a grávida Tamar esperava um tempo depois. Não é de hoje, portanto, que alguém é enganado pelas aparências e faz algo do qual pode se envergonhar depois.
José, outro filho de Jacó, ainda jovem foi dado como morto por seu pai quando seus irmãos trouxeram a túnica do rapaz manchada de sangue. A túnica havia sido tirada pelos desonestos irmãos que venderam José como escravo e a mancha era de sangue animal. Escravo no Egito, José foi acusado injustamente de atacar a mulher de seu senhor, Potifar. Ela própria o caluniou, apresentando como prova a roupa que ela própria tinha tirado dele enquanto tentava agarrá-lo à força. Levaram a sério a acusação e prenderam José. Ou seja, não é de hoje que roupas são usados como falsa evidência forense.
Portanto, desde o início dos tempos e da Antigüidade se vê que as roupas eram usadas para enganar, e julgamentos precipitados baseados nelas podiam ter conseqüências drásticas. É bom tomar cuidado com o que se pensa a princípio a respeito das vestes próprias ou das de alguém. Os exemplos citados mostram como isto é perigoso. É isto o que acontece quando o propósito de algo é desvirtuado. O que era para cobrir a nudez se tornou instrumento de vaidade e exclusão social, e é isto leva a tanta enganação envolvendo algo tão simples.







31/Mar/2008 em 23:17
Vou ficar devendo um comentário e abrir um parênteses pra um texto que eu me lembrei depois de ler sua postagem, a Parábola das Bodas de Mateus 22: “Entrando, porém, o rei para ver os que estavam à mesa, notou ali um homem que não trazia vestes nupciais”
Bom texto, espero por outros!
[ ]’s ricardo
1/Abr/2008 em 0:18
Nossa, que legal as relações que vc fez aí, Teo! E é incrível como coisas tão simples, como roupas, podem ser a arma principal e mais poderosa pra se fazer coisas horríveis, como enganar. E, mais interessante, é que nada disso escapa aos olhos de Deus, embora ninguém pense muito nisso antes de enganar.
Ah! Concursos, eis o motivo… rs. Tomara que vc passe e fique logo livre disso mesmo. E possa postar mais frequentemente aqui.
Vou esperar pra ver se tua letra é pior, haha.
Bjim, inté.