A vaidade de uma ladra

Este texto é parte do que tenho chamado Os tribunais de Rósea. Para ler os outros capítulos em ordem, clique aqui.

Esta era a situação de Rósea naqueles dias: um país em mudança, com reformas profundas, que não mudavam quase nada em níveis mais baixos. As inovações deixavam grande parte da população feliz, entretanto. Eles prezavam poder votar em seus prefeitos e senadores, e admiravam o que o Legislativo fazia, garantindo-lhes direitos constitucionais, e escolhendo um ministro que realmente trabalhava, e não se dava a diversões inúteis como o rei bonachão.

Eram dias altamente abstratos e teóricos para o povo. Discutia-se nos bares e na universidade (Rósea só tinha uma) sobre a organização do Estado, a divisão dos poderes e as reformas, que se julgava serem bem-vindas. Todos citavam autores de teorias e filósofos em geral, tentando traçar paralelos com o que acontecia em Ádia, capital daquele pedaço grande de terra.

Alheia a tudo isso, caminhava uma moça pelas ruas de Ádia. Seu modo de andar despreocupado, olhando para todos os lados e observando cada detalhe, fariam alguém pensar que ela não tinha destino nenhum, andando sem qualquer rumo pela desorganizada área comercial da capital.

Vestia uma roupa que, apesar de barata, seguia o modelo e as cores das tendências da moda na alta sociedade roseana. Calçava um sapato fechado, possivelmente para não sujar os pés na poeira das ruas não pavimentadas de Ádia.

Um parêntese: as ruas da cidade não deixaram de ser pavimentadas por falta de recursos. Alguns pequenos comerciantes da época de Lúcio Flávio III reclamavam do excremento dos cavalos das carruagens sobre o pavimento. Contudo, como só nobres e gente bastante rica tinha dinheiro para ter cavalos e carruagens, o excremento dos equinos só saía de meios muito caros e veneráveis de transporte.

Para não contrariar nem um nem outro, e para não forçar os nobres a ter que providenciar meios para não sujar o pavimento, o Legislativo recém-criado, em uma de suas primeiras decisões, determinou que as ruas não fossem pavimentadas, pois era “de maior praticidade lidar com o excremento dos cavalos em uma rua sem pavimento, com a terra nua”. O rei sancionou a lei com alegria,

Apesar do barateamento posterior dos cavalos e das carruagens, ninguém tinha tempo para se preocupar com o pavimento com tantas abstrações para discutir. A moça que ia andando pela rua, mencionada há pouco, também não tinha condições de se preocupar com tal fato. Ela saiu de casa para resolver um problema sério: sua mãe e seu irmão passavam fome. Isto significa que ela tinha um destino definido. Era a mercearia.

Ela não se dirigia à loja com dinheiro. Também não pretendia comprar a prazo, já que sua mãe devia bastante a Dimitri, dono do local. Ela entrou na mercearia para roubar, e não era a primeira vez. Já tinha subtraído de Dimitri ao longo de dez dias quase duas grades de leite sem que ele percebesse. E ela tinha ótimas armas: belíssimos olhos verdes, cravados em uma face perfeita. Mal entrou na mercearia e Dimitri exclamou com uma expressão estranha:

- Senhorita Lorena! Demorou a voltar!
- Bom dia, senhor Dimitri. Chegou aquele biscoito?

Os biscoitos eram parte de uma história que Lorena sempre contava para distrair Dimitri. No seu primeiro furto de sucesso ela tinha perguntado se a mercearia dispunha de um certo biscoito. Dimitri não soube responder, e pediu que ela olhasse pelas prateleiras. Dimitri era um comerciante inovador, e, para fazer diferença frente aos concorrentes, tratava de expor os produtos em prateleiras, até para aproveitar melhor o espaço. Essa jogada comercial facilitava o trabalho de Lorena. A marca dos biscoitos, é claro, não existia.

- Não lembro, senhorita. Meu estoque é grande, e eu não lembro de produtos específicos. Mas que tal dar uma olhada?

O estoque da mercearia era minúsculo. Dimitri disse aquilo para tentar impressionar. Ele sabia que não haviam biscoitos, mas muito o agradava ver uma bela moça como Lorena circulando pela loja. A mulher do comerciante, Inácia, observava tudo com os olhos faiscando de ciúmes.

Lorena andou pelas prateleiras como que olhando tudo com atenção. Ao passar pelas garrafas de leite colocou uma embaixo do vestido, tão rápido que quem visse não saberia como. Chegou à seção de biscoitos e soltou, com um ar que tentava soar desanimado:

- Que pena! Não chegou!

Ia se encaminhar à saída quando passou pela prateleira que continha cosméticos. Um único frasco chamou a atenção dela. Era o novíssimo Pierre Simon, um xampú fabricado na Europa, que era a febre de então das moças ricas. O cabelo de Lorena era castanho claro e bem liso. Contudo, precisava de alguns cuidados que ela não podia dar por falta de dinheiro. E já que ela conseguia levar uma garrafa de leite sob o vestido, o que era um pequeno frasco de Pierre Simon?

Tremeu por um instante, hesitou, mas resolveu fazer. Tão rápido como fizera com a garrafa, Lorena escondeu um frasco do xampú embaixo da roupa e foi em direção à porta. Tentou ainda ser simpática. Enquanto levava a mão até a maçaneta da porta disse para Dimitri, que observava com cara de fome a moça:

- Tchau, senhor…

Ela pretendia concluir dizendo “senhor Dimitri”, mas não conseguiu. Foi impedida por um fato que a deixou imóvel, sem fala, e extremamente pálida. O movimento para abrir a porta fez o frasco de xampú escorregar, deslizar perna da moça, cair no chão fazendo um alto barulho e rolar até a base do balcão do caixa.

Dimitri e Inácia viram tudo. A mulher adquiriu uma expressão de ódio. Ele de lamento. Não lamentava pela moça, mas lamentava pela oportunidade perdida. “Se essa porca de minha esposa não estivesse aqui…”, pensava ele, “eu tiraria um ótimo proveito dessa situação. Essa princesinha não me escaparia!”

Inácia deu vazão ao ódio. Se lançou sobre a moça, deu-lhe um tapa que a fez cair para trás, deixando escorregar pelo vestido a garrafa de leite. Ao ver o duplo furto Inácia tratou de dar um chute na moça caída, revistá-la para ver se encontrava algo mais e gritar:

- Ladra miserável! Chame a polícia, seu imprestável! – Disse para Dimitri, que considerava um prêmio de consolação ver as pernas de Lorena à mostra.

Inácia saiu pela porta da loja gritando para que chamassem a polícia. Parou na calçada um tanto impressionada pelo fato de já existirem quatro policiais parados à frente da loja. Os agentes não estavam menos impressionados que Inácia. Após algumas trocas de olhares curiosas e interrogativas entre Inácia e os policiais, a mulher rompeu o rápido silêncio que havia se estabelecido:

- Eita! Que eficiência!
- Perdão, senhora? – questionou um dos policiais.
- Certo, não sei como vocês chegaram tão rápido, mas é que é urgência mesmo. Tem uma ladra na minha loja.

Dito isto, Lorena saia cambaleando pela porta, fazendo caretas e se contorcendo em razão da dor das pancadas da dona da loja.

- É essa, essa é a bandida! – gritou Inácia.
- Por favor, fique calma, senhora. – Disse um policial, contendo o ímpeto de Inácia.
- Algemem ela – disse outro agente.

Um policial algemou Lorena e a colocou dentro da carruagem. Inácia estranhou o fato de os quatro agentes continuarem na calçada, à frente da loja. Agüentou por uns minutos, mas não se conteve e resolveu interrogá-los.

- Diga, vocês não vão levar a bandida pra delegacia?
- Daqui a pouco, senhora.
- E por que não já?
- Dependemos de alguns fatores, senhora.
- Quais?
- Por enquanto dizem respeito ao nosso trabalho somente.
- Desculpe aí.
- Tudo bem, senhora.

Inácia entrou na loja meio sem graça com as respostas do policial, mas se conformou, e julgou ser apenas um procedimento especial da polícia. E, na verdade, ela estava certa.

4 Respostas para “A vaidade de uma ladra”

  1. Sarah Disse:

    Tadinha da Lorena! =/
    Eu to curiosa, Teo… vai demorar o resto não, né? hehe.
    Rósea… to aqui pensando no porquê desse nome.

    Inté.

  2. Teo Victor Disse:

    Esse fim de semana posto o próximo capítulo já. To pensando como não deixar o blog muito “bagunçado” com os capítulos do ltexto. O cabeçalho com link pro índice é só paliativo.

    Já tenho um porquê pro nome Rósea… só não sei ainda onde ele aparece na história…

  3. Sarah Disse:

    Ah, que bom! esperarei.

    Bom, mas ele vai aparecer em algum momento, espero. se não, tu deixa a explicação aí, hehe.

  4. Sarah Disse:

    Uau… e num é que eu to esperando até hoje o resto? rs… Desculpe, ñ faz parte do meu estilo botar pressão nas pessoas, mas é uma curiosidade saber o resto da estória… rs.

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