Onde está Valdemiro?

3/Jul/2009

Uma das primeiras coisas que ouvi na última visita a Ouro Preto do Oeste foram os rumores de algo grandioso que tinha acontecido na noite anterior. Um evento que trouxe caravanas de todo o estado de Rondônia, lotando as ruas de ônibus estacionados. Muitas pessoas pelas ruas, tanto os habitantes locais quanto visitantes. Houve quem dissesse que a cidade parecia ter dobrado de população. Tudo isso, de forma impressionante, em uma quarta-feira cravada no meio de uma semana útil, sem feriados ladeados.

É provável que Ouro Preto do Oeste seja desconhecida da maioria. Não culpo ninguém por isso. Pouca coisa relevante saiu nos noticiários nacionais vindo dessa pequena cidade. E, como é tradição em Rondônia, o que saiu era nada bom. À exceção de deputados estaduais cobrando propina, atentado a bala a um bizarro prefeito eleito, morte de políticos importantes e falta de energia elétrica em um passado já distante, Ouro Preto passa despercebido pelo resto do país. Eu venho de lá, mas isso não é importante.

Mas não ache que a pequena cidade plantada no meio do estado não sabe o que é um evento. OPO é acostumada a eventos maiores do que o seu porte parece suportar. Suas festas grandes (e pouco organizadas) são conhecidas na região, e datas especiais costumam encher de gente e de ruído as ruas da cidade. Mas estou saindo do assunto.

O evento que mencionei no início não era uma festa tradicional. De fato, além de não ser nenhuma data especial, era uma ocasião atípica em vários sentidos. A festa era a presença do assim chamado apóstolo Valdemiro Santiago. Sim, a festa era a presença do homem em si. A deixa era a inauguração de um novo templo da Igreja Mundial do Poder de Deus, mas o evento era o apóstolo.

Via-se veículos chegando de várias partes, pessoas circulando a pé até o local do evento, bastante gente em cadeiras de rodas e, principalmente, aqueles que esperavam ser testemunhas de um milagre. Houve quem dissesse que estava no local para ver de verdade “como é um milagre”.

Segundo alguns, a Praça da Liberdade, já tradicional centro de eventos de OPO, bateu recorde de público. Havia uma plataforma que saía do palco, passava por cima de um espelho d’água que existe no lugar e entrava no meio da multidão. Valdomiro chegou de helicóptero, em companhia do governador do estado. Um bando de políticos importantes (ou não) acompanhou o evento e a movimentação do homem.

Mas tudo isso aconteceu no dia anterior à minha chegada. Encontrei, um dia depois do evento, a mesma Ouro Preto do Oeste de sempre. Para as dezenas de milhares de carentes habitantes da pequena cidade perdida no meio da ex-Amazônia ficaram toalhinhas com suor. Aliás, até o suor ficou apenas no dia anterior. Um dia depois restavam apenas as bactérias apostólicas nos pedaços de pano.

E Valdemiro, onde está? Para os que ficaram, ele está onde sempre esteve: na televisão. Os cristãos locais continuarão suas vidas ordinárias, esperando algo dos pastores locais até que a próxima subdivindade venha. E não demorará muito, pelo menos desta vez. Marco Feliciano passou por lá há pouco. Ouve-se pela cidade que RR Soares estará no ginásio de esportes, já que a Praça, palco do apóstolo, receberá um circo no mesmo fim de semana. A concorrência anda forte.


Os grandes formigueiros

28/Jun/2009

Como relatado nos evangelhos, Jesus usou algumas analogias para se referir ao seu grupo de discípulos. Comparou-os a galhos de videira, plantações de trigo, convidados de um banquete, jovens à espera de bodas, entre outras. A mais marcante, e talvez mais conhecida, é a que compara seus seguidores a ovelhas.

A fragilidade dos discípulos ao longo dos séculos, sempre carentes de um Pastor Divino, além de tal analogia obviamente remeter a outros textos conhecidos que falam de ovelhas ou pastores, tornaram-na talvez a mais usada das comparações para os seguidores de Cristo, tanto em sentido favorável quanto pejorativo.

Contudo, para certos grupos cristãos nos dias atuais outra comparação talvez se encaixe melhor. Muitas igrejas se parecem de fato com uma colônia de formigas.

A rainha pode ser personificada no pastor/bispo/apóstolo. Ambos são figuras centrais com ares de divindade. Ambos alimentam seus súditos com o alimento necessário para criar as castas que sirvam bem ao propósito da colônia. As operárias encontram seu paralelo nos membros corriqueiros. Fazem todo o serviço sem se preocupar muito.

Formigas levam tudo pra casa. Nesse trabalho acabam levando não apenas alimento, mas também algo mortal. Basta colocar um veneno com jeito de comida no caminho da formiga para dizimar um formigueiro. Hoje as pessoas levam o que encontram pelo caminho para a sua comunidade. Métodos, práticas, conceitos… tudo com uma roupagem aparentemente consagrada e uma denominação nova (”gospel”, “de Deus”). Levam consigo a própria ruína. E, de quebra, a de todos.

Algumas formigas amazônicas atacam outros formigueiros e fazem escravas operárias. Algumas igrejas só crescem a partir de outras igrejas. Mostram a si mesmas como uma alternativa moderna, renovada, emergente ou cool e levam aqueles que acreditam na propaganda e veem suas igrejas atuais como meros defuntos caminhantes que apenas aguardam o atestado de óbito para se deitarem na cova já aberta. A força de trabalho, a juventude ou a massa de algumas igrejas foi “adquirida” de outras igrejas diferentes por meio de propaganda. Não gerando filhos suficientes, o formigueiro foi buscar sua mão-de-obra em outros.

Talvez eu quisesse comparar a igreja às abelhas. Estas, de passagem, enquanto buscam nas flores aquilo que é bom e lhes interessa, espalham o pólen sem se dar conta. Como gostaria de dizer que os cristãos, de passagem, buscando nas coisas aquilo que é bom para si e para os seus, plantassem boas sementes por onde fossem. Como queria também dizer que o tempo que os cristãos passam entre si, trabalhando naquilo que eles trazem de fora, gera um delicioso mel, proveitoso como alimento nutritivo ou como algum delicioso complemento de sobremesa.

Mas muitos cristãos, como formigas, espalham germes adquiridos em seus podres caminhos. Formigas contaminam alimentos, falsos servos andam contaminando sua geração ao invés de iluminá-la. Escondem-se em seus abrigos e saem apenas para pilhar, destruir e até se autodestruir.

Assim é e será. Formigas são muito bem sucedidas enquanto espécie. Estima-se que podem constituir até 20% da biomassa animal no planeta. Dos paralelos talvez seja esse o mais preocupante.


O caminho estreito e a cabana

3/Jun/2009

No século XVII surgiu um livro que marcou a jornada espiritual de milhões de pessoas pelo mundo nos séculos seguintes. Trata-se de O Peregrino, de John Bunyan, de longe o livro mais lido do meio cristão após a Bíblia. O nome do personagem principal, Cristão, e a estrada que ele percorre, o Caminho Estreito, deixam claro logo de cara que a obra é uma figura da caminhada cristã.

Trezentos e vinte anos depois, outro livro marcou a vida espiritual e sentimental de muitas pessoas: A Cabana, de Willian P. Young. O drama do personagem principal depois da perda de sua filha pequena o leva a formular grandes e profundas questões, tratadas em um encontro com Deus, com a licença da expressão, incrível.

Não quero comparar o tamanho das obras. Seria desonesto com o jovem A Cabana ser comparado ao universalmente consagrado clássico de três séculos por seu alcance e sucesso. Ambos são obras literárias de tipos diversos, mas que têm em comum o fato de ter conteúdo espiritual sem a ambição de ser um tratado teológico, embora suas experiências sejam ensinadas como uma certa sabedoria aplicada. Contudo, vejo certos paralelos que, segundo o que entendo, merecem ser apontados.

Ao contrário da alegoria atemporal de Bunyan, o livro de Young é mais ligado a seu tempo. Enquanto O Peregrino mostra tendências, formas de pensamento e atitudes humanas aplicáveis facilmente a qualquer época, A Cabana traz em seu texto temas mais recentes, como pedofilia e revisões do entendimento clássico da divindade.

Mack, protagonista do best seller de Young, é alguém com quem boa parte das pessoas envolvidas atualmente em algum grau com Deus e espiritualidade se identificam muito bem. Já Cristão representou a jornada de muitas gerações de crentes, mas parece perder a força alegórica que tinha no século XVII.

Tanto Mack quanto Cristão são solitários, mas de uma solidão completamente diferente. Mack é intimista, introspectivo e cheio de remorso e dor. Cristão é solidário, convicto e arrependido. Mack vacila, mas Cristão tem passo certo em suas escolhas. Mack não compartilha sua dor, Cristão não dispensaria um bom companheiro de viagem.

Mack tinha seus fantasmas a exorcisar. Era dominado por um forte sentimento de perda e culpa. Ele perdeu, e queria ganhar. Cristão exorcisara seus fantasmas, abandonara tudo o que tinha, inclusive a família, núcleo  da dor de Mack, e, após passar pelo Monte Calvário, tinha um forte sentimento de ganho e remissão. Ele perdeu, e por isso ganhou.

O Deus que se apresenta a Mack é uma mistura complexa de um ser maternalmente bonachão, um ser dedicado e um ser misterioso e difuso. O Deus que Cristão apenas vislumbra é uma simples mistura de um ser redentor, um ser fortalecedor e um ser galardoador.

Tanto Mack quanto Cristão concluem suas jornadas. Na cabana, mais introspecção, diálogo, passos vacilantes e experiências familiares. No caminho estreito, mais dor, sofrimento, perseguição e firmeza. A jornada de Mack é um tanto temporal, imediata e palpável. A demanda de Cristão, entretanto, é eterna, a longo prazo e inimaginável em suas conclusões.

Mack era um perdido que precisava de um pai, uma mãe e um Deus, de preferência todos ao mesmo tempo. Cristão era um perdido que achou o que precisava: um Deus e uma estrada, e sabia que era isto que o preenchia. Mack queria a restauração de sua casa perdida, a transformação de uma cabana destruída em um lar aconchegante. Cristão era, como o título de sua história, um peregrino em busca do lar.

Revendo todos estes paralelos, entendo que Mack tem necessidades de criança, e Cristão é adulto e maduro. As experiências, histórias e caminhos de ambos inspiram os que têm afinidade com um ou com outro. Algo que pode surpreender é imaginar que o Deus de Mack e o do peregrino podem ser o mesmo Deus. Mesmo quem já acredita nisso pode se espantar ao perceber o quão diferente Deus pode parecer para um ou para outra pessoa.

Uma pergunta que não tentarei responder agora é se Deus é quem se adapta para se revelar a homens diferentes, como o personagem que se apresenta a Mack como Jesus diz, em uma conversa sobre religião, que percorreria qualquer caminho para salvar um homem, ou se é o homem, com sua visão limitada e tosca, que a cada tentativa tem uma visão limitada e pequena sobre Deus.

Sei que é ruim concluir de forma tão abrupta, ainda mais com uma dúvida por resolver, mas pelo menos fica a sugestão de reflexão.


Três quartos de hora

25/Mai/2009

A chuva começou de repente naquela tarde de março. Até gosto de me molhar, mas o conteúdo dos meus bolsos não me permite desfrutar tal prazer. As águas sempre caíram sobre homens que não se importavam muito com elas, mas  chegou o tempo em que todos são obrigados a andar com as roupas recheadas de documentos, notas de dinheiro e celulares. Certas dádivas do céu são esquecidas com o avanço do que as pessoas costumam chamar de progresso.

Naquela praça sem abrigos, em uma rua sem acolhedoras lojas abertas ou toldos convidativos, escondi-me dos pingos sob um ponto de ônibus. Não era o melhor lugar para quem queria se esconder da chuva, mas achei perfeito. O vento às vezes jogava água lateralmente, respingando sobre meu rosto e pescoço. Após o calor sufocante de horas antes, cada gota que graciosamente se colocava em minha pele era como um pequeno inverno de alívio. No Hades equatorial de Porto Velho, a chuva é como uma concessão de Abraão, inesperadamente cedendo ao clamor do rico perdido.

Fechei os olhos, levantei o queixo, e deixei que as gotículas frias de água me refrescassem mais. Abri os olhos, entretanto, e vi que já não estava sozinho. Havia um homem ao meu lado. Não tinha visto sua aproximação, e pensei que não havia ninguém na rua naquele instante. Um pequeno susto, sem dúvida, já que não entendia como ele podia estar ali após fechar os olhos por tão pouco tempo. Completando a estranheza da situação, ele escrevia em um pequeno caderno já úmido devido aos respingos.

Não sei o motivo, mas resolvi lhe falar. Talvez por achar que era inesperado um encontro sob o mesmo ponto de ônibus àquela hora, sob aquela chuva, daquela forma. Alguns de nós tem impressão que todas as coisas têm uma razão de ser, e isso dita nossos atos certas horas. Acredito que sou uma dessas pessoas, e entendi que  o fato de aquele homem estar ali significava que eu devia falar com ele.

- O que está escrevendo? – dispensei saudações e apresentações, buscando algo óbvio para iniciar o diálogo, que, por seu início, prometia ser bastante tosco.

- Sobre a juventude – disse ele olhando para o caderno. – Sobre a juventude perdida, para ser mais exato.

Estranhei bastante a resposta. Mas também passei a estranhar bastante aquele homem. De certos ângulos se diria que ele era um jovem em seus vinte e poucos anos. De outros pontos de vista, parecia ter mais de trinta. Era impossível dizer sua idade.

- Mas você está no auge da juventude! – tentei ser simpático.

- Auge? O que determina a juventude? A data de nascimento? Os aniversários? As roupas? Os acessórios?

Apenas olhei e não respondi. Esperava uma conversa mais superficial. O homem não se preocupou com meu silêncio e estupefação. Neste instante parecia bastante jovem, quase adolescente.

- Jovens são aqueles que vivem seu tempo com intensidade. Eu vivi, digo a você, mas não o meu tempo. Eu vivi tempos remotos, tanto atrás quanto à frente. E os vivi sem entrega, distante. Vi mil anos em vinte, mas em relevância foram como cinco, fracos e pálidos. Formei-me no passado idealizado, e me projetei no futuro utópico. Isso fez de mim pouco mais que um espectro no presente.

Já a esse momento eu me encontrava profundamente incomodado. Queria sair, mas esperei um pouco em silêncio, por educação. Observei por alguns segundos os pingos da chuva movendo a água das poças. Não conseguindo esperar por mais tempo, levantei e me despedi, sem obter resposta. Poucos passos à frente voltei-me para o ponto onde estava. O homem me encarava de uma maneira perturbadora.

- O que eu disse assusta você? – perguntou ele, para minha completa surpresa. Dei mecanicamente um passo para trás, e terminei tropeçando e me desequilibrando, quase indo ao chão. Procurei a pedra que tinha me feito tropeçar, mas não a encontrei. Penso que tropecei em meu próprio assombro. Olhei novamente para ter certeza. Tive a impressão de que conhecia aquele homem mais do que queria.

Com o coração e a respiração acelerados, voltei os olhos para a rua. Alguns vagos pensamentos confusos me ocuparam durante algumas inspirações e expirações. Quando olhei novamente o homem não estava mais sentado no banco do ponto. Não estava caminhando pela calçada ou pela rua. Tinha desaparecido completamente.

Parei por um tempo pensando em tudo o que tinha acontecido. Notei, entretanto, que ainda chovia. Esquecendo-me do que tinha presenciado, do telefone celular em meu bolso e dos documentos que portava, segui até minha casa, completamente molhado e sentindo as gotas caindo sobre a cabeça e ombros. Alegrei-me ao ver o Sol deslizar para o oeste a partir das nuvens de chuva ainda no céu. As luzes daquele fim de tarde tornavam impressionantes as cores das folhas encharcadas das árvores.

Vivi um pôr-do-sol de fato, e uma chuva por completo. E tudo pareceu muito mais que três quartos de hora.


Loucura, escândalo e propaganda

18/Mai/2009

Recentemente a Vineyard São Paulo perguntou através de sua conta institucional no Twitter (instituição no sentido amplo, caras, calma) o que seus seguidores (no sentido microblogger da coisa) acham da mudança do nome institucional para “Porque odeio religião”.

Não é a primeira iniciativa do tipo da Vineyard São Paulo. O domínio proibidopessoasperfeitas.com aponta para o site institucional da igreja – cujo nome de usuário no Twitter, inclusive, é @proibidopessoas. Não bastando uma frase de efeito lançam mão agora de outra mais contundente. A pergunta era um tanto tardia, já que o domínio porqueeuodeioreligiao.com já está redirecionando para a página da Vineyard Capital (VC, doravante, para facilitar – pra mim, claro).

Não houve muitas mensagens de retorno ao anúncio, apesar da relevância da questão e dos mais de 1200 seguidores da Vineyard Capital no Twitter, o que reforça minha impressão de que o microblogging, salvo poucas exceções, é a instrumentalização da arte de falar sozinho. Mas isso é outro assunto… quanto às respostas conseguidas pela declaração,  duas gostaram discordando, se é que fui claro, e outras concordaram bem à maneira web, escrevendo em apoio frases como “abaixo rótulos”, “religião#fail” e “criativo e atraente”.

Julio Soder, experiente, apontou ser infantilidade começar a se apresentar para o leitor a partir de quem se odeia. Também respondi rapidamente, dizendo que achava a ideia inadequada por uma série de motivos. Por estar cansado das discussões pouco práticas no Twitter, resolvi deixar para expor os motivos aqui. Não considero a atitude da VC apenas infantil, como o pastor Julio. Considero-a demagógica, desonesta e sem sentido. A estes motivos explicados, pois.

Demagogia

Ao dizer que odeia a religião a VC está sendo, com a licença da expressão lugar-comum, filha de seu tempo. A atitude é  estruturalmente semelhante à de um hipotético político que expulsou a filha lésbica de casa mas começou a apoiar projetos de lei em apoio à homossexualidade apenas por conveniência eleitoreira. A VC é uma instituição (queiram ou não) cristã, com declaração de fé, líderes e sistema de crenças. Isso, campeões, é o que a humanidade e seus bilhões de filhos desde o início dos tempos entende por religião.

A insatisfação com a religião em si, que vem de vários meios e atinge uma grande parcela da chamada elite intelectual, é o politicamente correto até mesmo no cristianismo em seu meio mais progressista. Sendo uma instituição religiosa na prática e para todos os fins e sistemas, dizer que odeia religião não é ousar, mas cantar no mesmo tom da época. É uma mera conformidade, é tentar se tornar menos espinhosa para seu público alvo, que é a de gente cansada do discurso religioso.

Desonestidade

Acontece que parte das pessoas cansadas da religião não estão cansadas do sistema religioso em si. Elas estão cansadas da Moral, do fardo do Amor e do Bem. Elas não querem que Deus exista, pois o mal interior é visível a Ele.  Ou, pelo menos, gostariam que Ele existisse mas não se importasse com nada.

E, apesar de demagogia geralmente ser desonestidade, separei este ponto especialmente para dizer porque a atitude da VC foi desonesta. A aparência leve e descomprometida da propaganda e das frases de efeito é o chamativo para uma igreja, conforme eles próprios dizem, 100% baseada na Bíblia, que condena tudo que as Escrituras condenam. Ou seja, por trás da roupagem que se identifica com seu tempo está um discurso de dois mil anos, rejeitado pelos tempos atuais.

E sou plenamente de acordo com a adoção da Bíblia integralmente como regra de fé. Quem não gostará muito disso serão os jovens pós-modernos que verão que a propaganda foi enganosa – os que odiavam a religião eram, na verdade, uma religião das mais dedicadas e boa no que faz!

Falta de sentido

As duas frases de efeito adotadas institucionalmente pela VC são questionáveis. “Proibido pessoas perfeitas” é igualmente uma demagogia. Uma igreja que pretende livrar-se da atmosfera pesada dos sistemas religiosos começa com uma frase contendo uma proibição e outra contendo ódio. Proibições e ódio: eis os dois principais problemas apontados pelos críticos da religião contra o cristianismo e outros sistemas de crença sendo a base da divulgação de uma igreja não-religiosa. Entendes o que lê?

Se um cristão atingisse um dos alvos apontados por Jesus quando Ele propôs que fôssemos perfeitos como o Pai celestial é perfeito¹, ou se acreditasse no conceito neotestamentário da perfeição¹, tal cristão não poderia entrar na VC, já que lá ele seria pessoa explicitamente proibida. Jesus, inclusive, perfeito homem, provavelmente teria problemas para entrar na sede da VC. Mas se por acaso estivessem lá dentro, teriam que sair imediatamente caso vivessem a verdadeira religião apresentada pelo apóstolo Tiago³, já que lá se odeia a religião.

Isto é, a VC diz basear-se cem por cento na Bíblia, mas a própria Bíblia fala em pessoas perfeitas e em religião. Mas, claro, não convém usar a Bíblia quando se escolhe a adequação aos tempos. E sendo obviamente uma religião, dizer que odeiam a religião não seria odiar a si próprios?

Obviamente o que a VC quer é impacto, não fazer sentido. Quando a mensagem do Evangelho choca  é rejeitada. Quando a propaganda choca causa atração. Como o choque do Evangelho é impopular o choque da propaganda é mais eficaz para atrair pessoas. A loucura e o escândalo da pregação congregam menos que as frases de efeito e o material gráfico de primeira.

Por fim, a iniciativa não choca muita gente além dos que já são cristãos. Analogamente, é como se tornar popular zombando do nerd chato. É do tipo “veja, somos melhores que aqueles protestantes históricos que insistem em ter regras de conduta e também não somos místicos mirabolantes como os pentecostais – somos o meio termo que você procura”. Em qualquer tempo da história o nome dessa prática é sectarismo. De dentro, usa o que condena em um sistema conhecido para promover-se. Pura e simplesmente, a comunicação da Vineyard Capital é em altíssimo grau  um canal para aquilo que condena.

[Update - valeu, Ricardo, pela correção da má expressão no último parágrafo]

¹ Mateus 5:48.

² I Coríntios 2:6, II Coríntios 13:11, Filipenses 3:15, Colossenses 4:12, Tiago 1:4.

³ Tiago 1:26-27.

P.S.: Citar nomes é questão de ética. Críticas veladas meio que impedem a réplica adequada.

P.P.S.: Caso não tenha ficado perceptível, este post é uma resposta à pergunta feita no Twitter.


O Adversário – Entra a acusação

7/Mai/2009

A notória escassez de referências ao diabo na Bíblia é ainda mais forte no Antigo Testamento. Além da menção à Serpente em Gênesis, enquanto ser chamado Satanás somente há referência em outros três livros,  em dois deles em pequenas passagens, e uma controversa e meramente possível referência indireta em I Samuel a ser tratada em outro texto mais adequado. Não há, inclusive, conexão óbvia entre Satanás e a Serpente.

Nos textos em que Satanás recebe este nome há também uma identidade pessoal evidente de causador e instigador de intrigas e polêmicas a nível cósmico. Em Crônicas, na primeira menção do nome Satanás na Bíblia, este aparece incitando o rei Davi a realizar um censo populacional mal explicado e subjetivamente pecaminoso. Tal fato gerou uma estranha punição divina com alternativas dadas ao rei.

Outra pequena menção acontece em Zacarias, quando Satanás aparece em uma visão do profeta como opositor do sumo sacerdote Josué, que se mostrava com roupas sujas diante de um anjo. Enquanto os atos do anjo simbolizam redenção com a troca de roupas manchadas por roupas festivas, Satanás parece estar acusando a situação deplorável do sacerdote.

Certamente, a visão de Zacarias é simbólica, cravada entre dois capítulos ainda mais simbólicos. Contudo, Crônicas é um relato histórico em que a inédita instigação satânica é um detalhe aparentemente desnecessário. De qualquer modo, em ambos a apresentação da personagem é consistente e comparável. Porém, tanto da visão de Zacarias quanto da incitação em Crônicas poderia se supor que Satanás é uma mera figura para um aspecto da personalidade humana. Esta visão seria harmônica até mesmo com a apresentação da Serpente.

É neste ponto que o livro de Jó apresenta uma resposta a tal ideia que, embora permita uma refutação (não cabal, ressalte-se) à descrição de Satanás como o lado negro do ser humano, lança mais dúvidas sobre o misterioso ser que as responde o que, aliás, é típico da Bíblia.

Jó é um belo livro poético e de discussões profundas. Fato interessante é que a deixa filosófica de todos os acontecimentos e debates no livro, como bem apontou Paul R. House¹, é de autoria do próprio Satanás: “Porventura serve Jó a Deus debalde?”

A pergunta é maldosa e carrega intenções ocultas. Satanás buscava o direito de demonstrar a Deus que Jó não era um servo legítimo, pois desfrutava de ampla proteção divina. E o modo provar seu ponto era perverso: afligir o homem. Deus autoriza a ação, e segue-se uma sequência de rápidas e intensas destruições e um demorado combate de ideias e lamentações envolvendo Jó em ruína e alguns amigos.

Apontar Satanás como o lado mau da humanidade não se alinha ao que é mostrado em Jó, já que teríamos que admitir que o lado mau de Jó compareceu diante de Deus, prestou testemunho contra si próprio, pediu autorização para acabar com a própria vida, matou seus filhos, servos e animais, destruiu a sua propriedade, contaminou o seu corpo com uma doença e se feriu propositalmente. Isto é, teríamos que entender Jó como uma pessoa esquizofrênica, com arroubos de Darth Vader, psicopata e masoquista².

É possível dizer que Jó é um livro poético e de sabedoria oriental antiga, o que o exime de um compromisso severo com a realidade das coisas. De fato, mas como livro bíblico sua natureza lírica e sapiencial não o exime de ter compromisso com a realidade da essência das coisas. A desobrigação de ser exato não desobriga de fazer sentido. E harmonizando-se Jó, Zacarias e Crônicas dizer que Satanás é um acusador e gerador de controvérsias envolvendo o relacionamento de Deus com a humanidade tem mais sentido que tê-lo por alter ego de Adão.

Como brinde chega-se com isso ainda a uma descrição compatível com o que se vê na Serpente. Mesmo com pouca fonte textual tem-se então uma descrição coerente de Satanás através de todo o Antigo Testamento como uma pessoa de caráter obscuro, perversa em propósitos e métodos e com forte talento para acusar. Até aqui, antes que Mateus comece a escrever, é basicamente o que se pode dizer.

1 Em Teologia do Antigo Testamento

2 Explicação necessária: não recorri à falácia do espantalho – não se trata de um argumento, mas de uma brincadeira que escapou à resistência.


O Adversário – A Antiga Serpente

28/Abr/2009

Texto parte da série O Adversário. É recomendável ler os motivos expostos na Introdução.

Gênesis começa com uma narração mítica do início das coisas, seguida pelo dramático início da raça humana. O primeiro relato  mostra o caráter muito bom da criação (incluindo o homem) em seu estado primitivo, e a primeira parte do segundo relato mostra, também de forma mítica, a origem da união entre homem e mulher e suas funções e a inocência da humanidade recém-criada.

O início do livro põe as coisas em seus devidos lugares no sentido ideal, mas no sentido real o mundo criado em Gênesis 1 e 2 não se parece com aquele que qualquer ser humano conheça. O capítulo seguinte, continuação direta do segundo, põe as coisas em seus reais devidos lugares. Gênesis 3 responde a velha pergunta sobre a existência de mal em uma criação de um Deus completamente bom. Não pelas maldições proferidas no texto, ou pelo consumo de um fruto proibido em si, mas devido a tendências implícitas na narrativa.

Revendo a história que todos conhecem, em um parágrafo desnecessário para dois bilhões seres humanos: homem e mulher começam suas vidas com um jardim esplêndido e uma ordem divina simples: não comer do fruto de determinada árvore. A Serpente, misteriosa personagem, convence o primeiro casal a quebrar o mandamento e deliciar-se com o fruto. Expulsa do Éden, a humanidade tem que lutar em uma realidade agora imperfeita, enquanto a Serpente se torna inimiga perpétua do homem, condenada a uma existência repulsiva.

Vários erros devem ser evitados ao se lidar com a narrativa em questão. O primeiro deles é tentar localizar o Éden fisicamente, mesmo que algumas referências do Jardim mencionadas em Gênesis tenham nomes de lugares reais. Se o Éden era um lugar determinado onde o homem podia viver a perfeição, e ser expulso de lá significasse cair na corrupção, então a Criação não era muito boa – apenas os limites do jardim o eram. O Éden não é um lugar, mas um estado, um conceito, um símbolo da Criação boa e em contato com o Criador, o ideal, aquilo que a realidade era e deveria ser.

Outro erro é associar a Serpente às serpentes, mesmo que isso pareça óbvio. Tentar associar o relato ao processo evolutivo das cobras, baseado em fósseis ou o que quer que seja, ou entender que a cobra estava sofrendo uma experiência mediúnica, de possessão ou ventriloquismo é ridicularizar a história. A Serpente tentadora não é uma cobra falante. É, também, um símbolo, desta vez de uma entidade sutil, sorrateira, astuta e capaz de encher o mundo incorrupto de peçonha.

Os erros mencionados são primários, e decorrem de uma leitura desnecessariamente literal do texto ou de uma tentativa de validá-lo com “ciência”. Outro erro, menos prático e mais conceitual, é o mais incorreto que se pode retirar do relato da Queda, e consiste em ver a Serpente, seja ela quem for, como a origem do mal.

Na visão bíblica não há espaço para uma entidade fonte de todo mal, como Deus é a fonte de todo bem. Parece natural que, se todas as coisas são boas por causa Daquele que, como há muito tempo apontou Anselmo de Cantuária, é bom em si, e fornece o bem que permeia as coisas, então há um que é mau em si, e que fornece mau que há nas pessoas. Contudo, tal ideia não encontra base nas Escrituras. Deus diz, em outro ponto, que faz o bem e cria o mal. Fosse a Serpente a fonte do mal, um antagonista eterno do Deus único, seria, antes de tudo, um deus do mal, uma força de equilíbrio cósmico. Seria a face escura do deus, sem a qual nada, nem o deus, existiria.

Tal ideia pode talvez se encaixar em algumas filosofias, mas não tem pontos de contato com a Bíblia. Não há lugar no entendimento bíblico para uma causa primeira do que quer que seja, até mesmo para o mal, que não seja Deus. A apresentação da Serpente como um dos “animais do campo” fortalece a visão de um ser criado, não de um deus eterno e oposto ao Criador do mundo.

Um parêntese se faz necessário para explicar como Deus é também a origem do mal e continua bom, e para isso é preciso diferenciar os termos origem e fonte nesta argumentação. Uma nascente é uma fonte de água, mas a origem da água que jorra na nascente é o subsolo. Portanto, origem e fonte são coisas distintas, e isso não faz sentido apenas para o parêntese, mas para o restante das coisas que menciono aqui.

Deus, como origem do bem, jorra este mesmo bem através das coisas criadas que, nesta analogia, são fontes. Uma nascente má não é uma fonte que necessariamente jorra algo diferente de água, mas provavelmente, e mais aceitavelmente, uma nascente que deixou de jorrar água, já que se nunca tivesse provido água não seria considerado uma nascente. Com isto, a maldade não é necessariamente algo diferente de bondade que flui através de diversas fontes vinda de uma origem diferente da Origem do Bem, e na visão bíblica faz todo sentido que não o seja. Maldade é fechar a fonte, não substituir sua origem. É bloquer a ligação com o Criador, perdendo o fluxo contínuo da essência divina, tossindo aleatoriamente alguns goles de uma impura água com certo grau variável de sujeira em suspensão.

Portanto, a Serpente surge no Éden como uma fonte seca, não como uma origem abundante de algo criativo. Sua intenção é drenar outras fontes, já que fazer o mal é negar o bem existente, não criar algo de fato. O engano proposto a Eva, isto é, o de tornar os homens como Deus, visava apenas tornar a humanidade à imagem da Serpente, ou seja, uma raça árida, desconexa e errante. Os motivos e a identidade definitiva da Serpente não são explicados imediatamente, e só podem ser presumidos com o decorrer de toda a leitura. Mas seu objetivo foi atingido em parte. Os homens se tornaram áridos e errantes, mas graças a Deus, literalmente, o vínculo com a Origem pode ser restaurado.


O Adversário – Introdução

23/Abr/2009

Ao contrário do que muita gente pensa, a Bíblia fala pouco sobre Satanás. Talvez seja assim porque ele é um ser que, do ponto de vista humano, não mereça muita atenção, e por isso não deveria ter excesso de referências em um conjunto de livros direcionado a toda a humanidade. E por fazer sentido que talvez seja assim, ao escrever sobre ele a última coisa que quero é dar atenção indevida ao tema.

Mas uma enorme parcela dos cristãos se preocupa demais em conhecer melhor o diabo e seu suposto reino de demônios. A quantidade de material escrito e atenção retórica dada ao assunto é completamente desproporcional ao volume de informação constante na própria Bíblia, que não é significativo mesmo com textos forçadamente atribuídos a uma revelação acerca de Satanás.

Portanto, a atenção dos textos neste espaço em que porventura constarem pensamentos, argumentações ou reflexões sobre a natureza, origem, caráter e modus operandi de Belzebu não serão para por os holofotes no Maligno, mas para tentar desfazer ensinamentos folclóricos apresentados como fato comprovado, atestado pelas Escrituras e pela teologia. E por grande parte do folclore cristão buscar bases bíblicas para a perpetuação de suas ideias pouco plausíveis, procurarei seguir uma sequencia bíblica de possíveis aparições do Adversário, analisando-as.

Pensando nesta sequencia, falarei sobre o mito da Serpente, as referências em Jó, as já amplamente debatidas falsas referências no Antigo Testamento, as menções de Jesus nos Evangelhos, as citações nas epístolas e as confusas aparições do Apocalipse. Apesar de usar a sequencia bíblica como parâmetro metodológico e, de certa forma, cronológico, o pensamento teológico não será a principal ferramenta, inclusive devido à minha falta de credenciais em tal área. De fato, se fosse aplicar a solitária área na qual tenho credenciais, a única coisa que poderia construir sobre o tema seria um diagrama de caso de uso abordando o consumo de frutos das árvores do Éden. Apesar disto, assuntos como mal, demônios e guerra espiritual obviamente são conexos a esse, e tratados obrigatoriamente de passagem.

Por fim, creio que a intenção de destruir mitos não é tão nobre a ponto de me motivar a lançar uma série de textos. Adam Savage e Jamie Hyneman fazem isso de forma mais divertida e eficaz para o entretenimento. Pretendo ao fim, primariamente, defender que, retirando o folclore construído por má interpretação textual ou por uso de textos bíblicos inadequados, há uma imagem de Satanás que se torna consistente ao longo de todo o texto das Escrituras – a de um corrupto promotor de justiça . Estranho, sei, e explicar isso leva tempo. E por isso será uma série, não apenas um texto.


O pátio do galardão – II

20/Abr/2009

Este texto é uma continuação da série O Pátio do Galardão.

Em um instante via meus estimados cães agitados ao nascer do Sol. Apenas pisquei, mas foi o suficiente para que tudo mudasse. Quando minhas pálpebras se recolheram , meu pomar, meu caminho ladeado por pedras, meu gramado, minha casa e tudo à volta tinha desaparecido. Pode ser difícil crer, mas não fiquei surpreso. Era como se eu já esperasse por aquilo.

Logo estava em um lugar que não vou tentar descrever. Seria inútil, já que ninguém entenderia como é. Cada um faria uma imagem mental baseada em coisas que já conhece, e tal imagem não seria digna sequer de ser chamada de aproximação grosseira da aparência daquele pátio em que estava. As pessoas a quem conto esta história devem se contentar em saber que havia um pátio de vários níveis, sendo que no mais alto havia um trono simples e rígido, porém imponente, e ao lado do trono algumas bonitas cadeiras. O pátio, mais extenso do que a compreensão pode alcançar, tinha canteiros com plantas e flores indescritíveis. Mais uma vez, as pessoas devem se contentar em saber que eram esplêndidas.

O pátio estava cheio de pessoas. Se o pátio tinha dimensões além da compreensão, talvez não seria necessário dizer que inumeráveis pessoas estivessem naquele lugar, mas o digo para enfatizar. Era uma quantidade realmente grande e causaria assombro em qualquer um. Não do tipo de assombro diante do número de ativistas em uma passeata, mas do tipo de assombro que se tem quando, uma vez fora da cidade, se olha o número de estrelas no céu noturno e sem nuvens e a mente resolve lembrar que aquela é uma pequena fração de todos os astros que existem.

Quanto às pessoas no pátio havia ainda algo bastante interessante. Bastava olhar para uma delas para que se soubesse tudo sobre a sua vida, suas ideias e atitude quanto às outras pessoas que viviam próximas. Não era como uma leitura de pensamentos, mas como uma compreensão completa de quem realmente aquela pessoa era. Não me assustei com tal capacidade nova, que seria o sonho de qualquer juiz – mais uma vez, era como se esperasse por ela. O pátio deixava claro que não era parte do mundo conhecido por todos, mas as pessoas, percebia-se logo, eram todas bem terrenas, humanos no sentido estrito.

Já quanto a mim, estava com o mesmo roupão ridículo que usava quando sentado na varanda. Até me envergonho de usá-lo na frente de alguém de fora, mas não me preocupava com isso então. A caneca ainda estava em minha mão direita, com fumaça ainda subindo. Minha imagem de roupão segurando uma caneca fumegante nas mãos remetia inegavelmente a Arthur Dent em suas primeiras aventuras fora da Terra, e não fosse pelo café em vez de chá seria uma representação perfeita. Ri-me um pouco quando percebi isso, e, com a capacidade adquirida há pouco de entender o pensamento das pessoas, percebi que vários à volta tinham pensado a mesma coisa.

Um Homem se colocou no nível mais alto então. Ao olhar para ele entendíamos que era o maior do homens e maior que os homens. Também víamos que prêmios seriam distribuídos em breve. Em pouco tempo passaríamos a entender o motivo das habilidades que passamos a possuir naquela ocasião.

O Pátio do Galardão

1ª Parte


Entre a Morte e a Vida

11/Abr/2009

A ordem das palavras do título não foram fruto de um erro. Não me enganei ao tentar escrever a comum expressão “entre a vida e a morte”. Escrevi o que queria de fato escrever – algo que identifica um período entre a morte física e a vida física.

Não é algo incomum como parece. A antiga seita judaica dos saduceus julgava ser impossível que tal período existisse, já que a ressurreição, para eles, não era possível. Mas a maioria dos outros judeus entendia que a ressurreição era uma possibilidade. Cristãos em sua maioria entendem que os mortos estão em um intervalo entre a morte e a nova vida (ou nova morte). Espíritas acreditam que sequencias vida-morte-vida acontecem muitas vezes ao longo da história para uma mesma pessoa.

Até mesmo um procedimento de primeiros socorros é algo como uma ressurreição. Reanimar alguém com parada cardiorrespiratória é dar fôlego a quem estaria irreversivelmente morto em alguns instantes.

Mas houve um período entre a morte e a vida que foi especial. O mais triste e significativo deles, diria. Um sábado com amargo gosto de derrota e desesperança. Jesus estava morto e enterrado. Para os homens, a Luz parecia ter se apagado.

Rejeito a visão de Satanás em festa no sábado sombrio, até porque ela não se baseia em nada concreto. E a tristeza profunda do sábado em que Jesus parecia ter desaparecido para sempre atingia apenas os limitados homens. Anjos e demônios saberiam que a morte selava o plano de redenção – a ressurreição era o triunfo.

Pouco ou nada se sabe daquele sábado. Os evangelhos nada registram, talvez porque os discípulos nada fizeram. Jesus tinha executado vários feitos em sábados, mas naqueles sábado escuro os discípulos de Cristo voltaram à sua vida, tradição e medo. Guardaram o sábado como sempre fizeram. Ao contrário das palavras de Jesus, a Lei ainda estava em seus corações e mentes.

Não estou repreendendo os apóstolos e outros servos. Em sua limitada visão qualquer pessoa estaria em situação semelhante naquele dia silencioso, espectral e cheirando a morte, cansaço e perda.

Não entender o que Jesus disse sobre si próprio e sobre a humanidade pode gerar um eterno período entre a morte e a vida. Um longo sábado entre a crucificação e o túmulo vazio. Então depois da última páscoa se descobrirá que o cheiro de morte era o da própria morte, e o da perda era o da própria perda, pois Jesus já tinha vencido, e o triunfo apenas estava por ser demonstrado.

Que o Domingo dos Tempos não nos pegue desprevenidos e sem entendimento.