Ignacia Breitner – A Cisão

23/ago/2010

Eram outros tempos quando Ignacia Breitner estava em seu auge, mas mesmo hoje qualquer um que a visse seria obrigado a ter uma reação, fosse boa ou ruim. Uma moça fascinante, há que se dizer. Bela, porém discreta; elegante, educada, inteligente e bastante ciente das coisas à sua volta e sua relação com essas coisas.

Tida como confiável por todos que a conheciam, gostassem dela ou não, poucos recuavam seus conselhos, e não raro era atendida em seus apelos. Guardava-se de relações com os poderosos, mas tinha muitos amigos entre os mais simples. Recusava favores grandiosos de pessoas dos altos círculos políticos do país, que a cortejavam com insistência, e constantemente era vista como uma voz ativa em causas que atingiam os mesmos altos círculos. Seu conflito com o poder estabelecido não se refletia na sua lida com os semelhantes, sempre tratados com paciência e distinção.

Já sua relação com sua pequena família era instável. Seus antigos laços na Itália estavam bastante desgastados, apesar de seu nome, mas vínculos com o passado não faltavam. Agarrava-se com força aos seus ascendentes alemães expressos em seu sobrenome, e também em suas raízes inglesas e até mesmo orientais, de onde buscava herdar alguns traços pessoais, mesmo que de forma pouco natural.

Muito se poderia dizer sobre esta respeitável e amável senhorita, e sobre seu anseio por um grande casamento, mas, agora, não é o que se pretende nesta narrativa, que, após a breve e necessária apresentação, começa em um momento bastante peculiar e traumático da vida de Ignacia. Justamente quando tudo parecia bem, quando Ignácia crescia em beleza e bons feitos, uma doença terrível a alcançou. Ela sofreu uma ruptura em seu controle sobre o próprio corpo. Abaixo da cintura seu corpo ficou independente, como se respondese por si próprio, ignorando o que o restante de Ignacia queria.

Não foram poucas joelhadas no olho, cotoveladas na coxa, tapas na panturrilha e tropeções propositais. Sozinha, não teve apoio de seus parentes distantes, que sofreram da mesma doença no passado. O que Ignacia parecia esquecer, mesmo conhecendo a história de sua família, era dos efeitos terríveis que tal doença tinha. Ao invés de buscar tratamento, processeguiu em sua ridícula e incessante pequena guerra civil, que teve um aparente fim violento e insano.

Ao término de mais uma longa discussão que se estendeu por dias, um rasgo surgiu na pele de Ignacia, perto da linha de cintura. Horrorizada, Ignacia percebeu que suas pernas faziam uma terrível força para o lado contrário da cabeça. Os braços tentaram suportar o puxão, o que apenas piorou o estado das coisas. O rasgo cresceu e se tornou profundo. Sangue começou a jorrar e a ferida se tornava irrecuperável devido ao esforço impassível das pernas de Ignacia. Os órgãos internos ficaram expostos e, com um terrível e agoniante som, a espinha se partiu. Ignacia rompeu-se em duas, à vista de muitos, que não entendiam, mas paravam para ver, impressionados com o espetáculo macabro.

Após um tempo de imobilidade, as duas partes começaram a ter espasmos, que logo se transformaram em movimentos deliberados. As pernas se levantaram saltando e, ainda ensanguentadas, foram até o restante do corpo, aproveitando para dar um forte chute nas costelas de meia-Ignacia, que respondeu à outra meia-Ignacia com cotoveladas e insultos.

Passada essa vil despedida, viraram-se e seguiram caminhos opostos: as pernas caminhando resolutamente, e o tronco arrastando-se com os braços, mantendo um olhar altivo, repetindo “eu sou Ignacia” firmemente por onde passava. Quando isso ouviram as pernas pensaram (em conformidade com o que pernas pensariam em situação semelhante): “precisamos de uma boca para responder à altura “.


Churches and Demons – Manual do usuário

14/jul/2010

Este é o manual do Churches and Demons, RPG massivo que tem crescido exponencialmente no Brasil. Novos servers surgem a cada dia, fazendo com que a capilaridade deste jogo atinja todo o território nacional. Pequenos servers surgem até em países comunistas e na Oceania. Abaixo seguem instruções básicas para se iniciar nesse fascinante mundo de fogo, poder, unção e glória.

Neste manual são apresentados conceitos básicos do jogo, não pretendendo esgotar o assunto a respeito deste Universo tão complexo conhecido como C&D.

1. Escolhendo o server

Procure inicialmente um server. Os servers funcionam melhor no domingo à noite, quando há o pronunciamento do owner, que permitirá identificar se o personagem que você deseja criar é adequado às regras específicas do server. Abaixo algumas dicas de servers.

Universal Server – para personagens que pretendem entrar para a alta sociedade.

Reborn Server – para personagens descolados, musicais, famosos e bonitos. Owners poderosos.

MustacheNoMore Server – para personagens combativos. Owner muito conhecido.

Snowball Server – para personagens underground, mas não muito.

GrapeTree Server - para personagens que emergem em novidade.

NewEarth Server – para personagens que acima de tudo desejam poderes. Owner bastante agraciado com títulos.

2. Criando o personagem

É possível criar um personagem sozinho em qualquer server. Entretanto, uma indicação de um player mais antigo o tirará da condição de newbie mais rapidamente. É ideal jogar no mesmo world do player antigo, e é uma boa escolha um world próximo de casa, embora seja interessante que o world possua conectividade e presença na web.

O newbie não exerce nenhuma função no world até ser escolhido pelo guild master ou pelo world owner. Os newbies solitários geralmente demoram alguns meses para receber suas quests, mas o player antigo pode reduzir o tempo para algumas semanas.

Ao sair da condição de newbie, deve ser escolhido o tipo de personagem que se iniciará propriamente o jogo. Os tipos podem ser alterados com o tempo, mas as skills são específicas de cada tipo, e não podem ser reaproveitadas.

Praise Member – cereja do bolo de qualquer world, subdivide-se em leading vocal, backing vocal, keyboard player, guitar hero e other instruments, de acordo com as skills desejadas. Não é necessário experiência musical para se iniciar neste chartype. Pode evoluir para Praise Minister e Gospel Star.

Preacher - categoria poderosa, de onde saem futuros guild masters, world owners e server owners. Evolui com o tempo para Reverend e Apostle. Recentemente foi criada a categoria Patriarc, evolução deste grupo. Possui uma grande habilidade com certas skills, especiamente healing e demon fighting.

Cell Membertype de personagens influentes, com casas aconchegantes, que ensinam skills a newbies. Muitos guild masters pertencem a esta categoria. Evolui para Cell Leader e Cell Master.

3. Evoluindo o personagem

A primeira experiência do personagem em que há intenso aprendizado de skills é a party por excelência, chamada nos servers brasileiros de Encontro, com algumas variações. São três dias conectado, onde o personagem consegue muitos level ups. Em alguns servers, os levels necessários para deixar de ser newbie só são alcançados após o Encontro.

Existem muitas parties, especialmente seminários, reencontros, congressos e dias especiais onde as skills são aperfeiçoadas. Procure participar de parties que evoluam skills para seu tipo de personagem. Um Praise Member Leading Vocal iniciante que quer subir levels suficientes para ser Praise Minister faz bem em ir a uma party com membros da guild Paixão, Fogo e Glória, por exemplo.

Com certo grau de experiência o personagem já pode partir para battles com os inimigos do world que escolheu.

4. Inimigos

Old Teologists – tradicionais que usam textos bíblicos direcionados, são inimigos pouco comuns atualmente.

Those Bloggers – pessoas que escrevem online, são geralmente fracos, pouco expressivos e bem diretos em suas palavras e ações. São os primeiros inimigos do personagem, contra os quais ele evolui os primeiros levels. São enfrentados geralmente em CAPS LOCK.

Atheists - há poucos embates com este grupo hoje em dia, e na maioria são pouco interessantes, sem grandes level ups.

Demons - perigosíssimos inimigos, enfrentados apenas por personagens experientes em parties, ou grandes nomes do C&D.

5. Ajuda online

Procure personagens com afinidade no twitter, em fóruns de discussão e no orkut. Isso permitirá trocar experiências que levarão a novas skills e também fazer parties para battles.

C&D é um jogo ficcional. Não procure para baixar. Qualquer semelhança é possivelmente proposital. E não seja tão exigente. Faz mais de seis meses que eu não utilizava o teclado para este fim.

Conheça Subindo o monte, um jogo mais old school: waltercruz.com/log/subindo-o-monte


Outro ano

3/jan/2010

- Feliz ano novo! – disse à meia-noite a um jovem próximo um velho enquanto estendia os ossos da mão,  encapados por um pouco de pele que brilhava com a gordura de alguma guloseima.

- Feliz seja o senhor, Velho, neste ano que de novo nada tem, e em todos os outros – disse o jovem, sem notar a surpresa na expressão do velho.

- Vai rejeitar, amigo, a alegria da mais feliz das noites?

- Sim, rejeito a alegria desta noite em nome da alegria de todas as outras – a nova resposta do jovem causou a mesma surpresa.

- Mas esta é uma noite especial. As outras, ordinárias, não têm o poder de nos dar o prazer como o de uma noite em que todos estão reunidos, nas primeiras horas daquele dia que chamamos Confraternização Universal.

- Nem todos confraternizam. Há os que, pelo nosso modo de vida, obrigados são a trabalhar, sozinhos ou com estranhos, zelando por aqueles que têm um entendimento estranho do conceito de festa. Nos hospitais e carros de resgate, na companhia elétrica e emissoras de televisão: lá está gente obrigada a suportar uma confraternização supostamente universal.

- Eles estão onde escolheram estar. Você pode aproveitar. Venha, pegue uma taça de espumante e um pedaço de pernil…

- Poupe-me de espumantes e pernis nesta noite. Traga-os em março ou em setembro, num dia útil qualquer, e brindaremos e comeremos. Esta noite recuso o vinho e a carne do pobre porco.

- Não faça isso! Os dias especiais nos unem!

- Nós adiamos a união para os dias especiais. É diferente. Esperamos o aniversário para presentear, o dia das mães para telefonar, a Páscoa para comer chocolate. Achamos suficiente quando cumprimos a missão do Dia. Se não existisse O Dia, seriam missões de todos os dias.

- Mas os dias seriam todos iguais… – o velho já não sabia que palavras usar.

- E o problema está em que sejam diferentes durante o ano. Os dias diferentes no ano são iguais ao longo dos anos. Os natais remetem a outros natais, sempre o mesmo Natal, igual e enfadonho, onde todos fazemos a mesma coisa. Dê-me dias iguais e me empenharei em torná-los todos diferentes. Mas dão-nos dias diferentes, e eles nos tornam iguais. Ah! Esqueça esta noite quente de dezembro e janeiro com seus fogos e votos, onde julgamos vivenciar a maior das viradas! Vá para uma manhã fria qualquer de uma terça-feira em julho, na qual um homem é obrigado a acordar cedo, sair de seus cobertores e ir trabalhar. Naquela manhã ordinária e gelada, aquele homem faz muito mais que dez mil reveillóns fariam por nós.

- Jovem, você despreza o valor dos dias! – o velho já desistia: havia comida e bebida demais para perder tempo com eloquência.

- Na verdade, Velho, prezo o conteúdo dos dias. Que é mais interessante agora: a travessa ou o celebrado pernil?

- Não vou mais discutir. Desfrute seu ano novo como achar melhor – e levou o velho a garrafa de espumante, que agora parecia interessante ao jovem. Mas assim como nos outros dias, não bebeu, e não achou que o ano começou mal devido a isso.


O incremento recursivo e seletivo da bipolaridade do pensamento humano – ou O mundo é um ringue

17/dez/2009

Sem desmerecer a complexidade das ciências relacionadas, a análise do comportamento de um adolescente apaixonado pode explicar a maior parte das relações humanas de poder no âmbito social e político, de tribos nômades a Washington, passando por igrejas evangélicas e universidades.

Quando um jovem altivo, em pé no estrado dos seus incríveis quinze anos, descobre que a beleza hipnotizante da moça simpática e mais velha que ele já contava como sua na verdade já era cativa de outro rapaz, menos jovem e mais altivo, há um disparar de atitudes, sensações e pensamentos que ditam o que aquele adolescente, quando for adulto, profissional, juiz, presidente ou ser humano, fará, sentirá ou pensará.

A batalha pela moça não é afetiva, mas territorial. Internamente, as afetações do apaixonado se parecem menos com o denso caderno poético que Marius deu a Cosette e mais com um fêmur de gnu rachando o crânio do adversário. É pouco amor, e muito poder. O adolescente não perderá uma oportunidade de se mostrar superior a seu concorrente, seja no futebol, na matemática, na literatura, na dança, na luta corporal ou, para desespero de algumas famílias, no manejo de armas de fogo.

Caso o concorrente seja afastado, seja devido ao futebol, à matemática, à literatura, à dança (e consequentes), à luta corporal ou às armas, e o território seja enfim conquistado pelo primeiro jovem, não restará mais o jovem apaixonado, mas a negação do namorado anterior da moça. Não haverá o rapaz, mas o não-outro-rapaz. A preocupação será mostrar como o rapaz anterior era ruim, e como o atual é melhor. Sistematicamente, o pequeno sociopata trabalhará para apagar as lembranças boas do outro-rapaz, buscando demonizá-lo, e mostrar-se como a única alternativa viável contra o retorno de satanás ao relacionamento. E assim, os feitos bons do outro-rapaz do passado se perdem entre mimos do presente, e a ordem das coisas para a moça se altera, em um processo primitivo de contingenciamento, lembrando o que Rap mencionou em um texto recente*.

À alternância de rapazes, outros-rapazes, mesmos-rapazes, novamente outros-rapazes, as moças dão o nome vida afetiva. Entretanto, o princípio, como já dito, pode ser aplicado em outras áreas. Um país tem sequencias de presidentes e ex-presidentes, o ambiente acadêmico alterna sua verdade entre ideologias e outras-ideologias, as igrejas entre líderes visionários e fundamentalistas do passado, entre outros exemplos.

O que o titular do poder antes fez ou defendeu é visto como errado. Os herdeiros do pensamento do titular anterior agora são mal vistos. O estranho primeiro título deste texto é proposital. Um ser teórico que concordasse sempre comigo diria que o título grande é uma descrição perfeita do texto, fruto de alguém que sabe o que diz. Outro ser teórico (mas não muito) que discordasse sempre de mim diria que é uma descrição pomposa e vazia, que visa dar um ar maior de validade ao que escrevo. Ambos estão parcialmente certos: eu sei o que eu digo, mas o título não é uma descrição perfeita do texto – é uma descrição pomposa e vazia, mas tem um efeito cômico e exemplar.

A bipolaridade, entretanto, não permite esse entedimento. Quando o poder está envolvido não há esse tipo de zona cinzenta. Quem almeja o poder entende que titular atual no poder está desfrutando do direito alheio (no caso, do aspirante), e assim também o é reciprocamente. Nessa situação, o objetivamente certo não existe, dando lugar a um pragmático politicamente correto.

Em um episódio que me inspirou para o título nonsense, um pesquisador amigo tentou conseguir aprovação para um projeto de pesquisa em uma certa instituição. O projeto consistia em resolver o problema p, através do método m. O projeto foi rejeitado porque não se encaixava no contexto amazônico cA. O projeto teve seu título alterado, para dar a entender que consistia em resolver p através de m, no subcontexto s de cA, e foi aprovado. O problema p, por sua própria natureza, pode ser resolvido pelo método m na Amazônia, na China, no Ártico, em Próxima Centauro ou além do alcançável pelas lentes do Hubble, mas se não resolver usando os termos que alguém que detém certo tipo de poder, não serve.

Se um método ineficaz i fosse apresentado como solução de p, mas fosse aplicado originalmente a cA, seria prontamente aprovado, não porque é verdadeiro ou útil, mas porque usou as palavras-chave certas. Ou seja, não serve a verdade que não seja aplicada ao contexto do poder atual, usando os termos, política, senso de moralidade e cosmovisão do mesmo poder. Quando outro poder se sucede, mudam o contexto, os termos, a política, o senso de moralidade e a cosmovisão, mudando o sistema de coisas que envolve a verdade.

Por esse motivo, o título alternativo seria o original, já que o mundo e seus poderes brigam entre si sem qualquer regulamento. De fato, para o tipo de pessoa que geralmente busca o poder qualquer regra é válida, desde que o oponente seja derrotado. O mundo se parece com um ringue onde ocorre um feroz duelo, assistido por uma plateia cínica, que aplaude o vencedor e vaia o perdedor, não importa quem seja um e outro.

* Recomento a leitura integral do texto do Rap, que se chama A Política e os fatos, que apesar de não ter inspirado este, poderia cumprir a função – trata-se de mais uma coincidência temática (um pouco distante, e desta vez não proposital).


A morte da palavra

9/dez/2009

É difícil escrever hoje em dia. Apesar dos blogs, gerenciadores de conteúdos, preços acessíveis (ou inexistentes), contatos, plug-ins… é complicado produzir conteúdo escrito e mantê-lo disponível. Mesmo com a relativa independência do meio impresso, não é fácil manter um blog como este.

Pode parecer uma mera reclamação periódica, uma espécie de ataque vazio ao nada, uma necessidade sazonal que gera um furioso ataque aleatório ao que me cerca, simplesmente pelo prazer de ver o sangue jorrar e o sistema de coisas atacado simplesmente por ser o sistema de coisas. Não culparia quem pensasse assim a princípio, até porque alguns que escrevem parecem sofrer uma espécie de menstruação intelectual, um período onde tudo o que sai deles é caos e sangue.

Espero, entretanto, que quem leia não me veja assim. Não estou nem nunca estive naqueles dias, em qualquer sentido da palavra ou esfera da existência. Mas alguns poderão lembrar que difícil era escrever antes da Internet, quando quem quisesse publicar o que escreve deveria entrar obrigatoriamente no jogo das editoras, do contrário seria um não-lido eternamente.

De fato, a Internet tornou o acesso ao conteúdo possível. Mas a possibilidade não significa acesso no fim. A verdade é que ninguém quer ler parágrafos como este. Existem vários motivos para isso, mas o principal deles é que este já é o quarto! Imagino o próximo, quinto, abaixo do já não-querido quarto. O décimo será um miserável, se existir.

Valoriza-se hoje conteúdo em pequena quantidade. O texto deve ser curto, para ser rapidamente lido, direto, para ser rapidamente compreendido e pouco denso para ser rapidamente digerido. Existem técnicas para se fazer textos assim. Usa-se poucos parágrafos, todos com poucas linhas. Corta-se o primeiro parágrafo (vê-se que os parágrafos são realmente os inimigos) antes de publicar o texto, pois ele geralmente é inútil. Usa-se palavas-chave para que os mecanismos de busca cheguem velozmente, e tags em profusão, mesmo que elas não digam respeito ao texto (o buscador não precisa saber disso).

De preferência deve vir acompanhado de uma imagem significativa, sarcástica ou sensual. Se a foto for o motivo do texto, basta um comentário significativo, sarcástico ou sensual. Na falta dele, os leitores podem preencher a lacuna nos comentários.

A preocupação hoje não é com estética, conteúdo ou coerência. Quem escreve parece estar mais preocupado com indexação, keywords, anúncios pagos e posts patrocinados, feeds e furos constrangedores para terceiros. São coisas rápidas e fáceis de assimilar, dão retorno garantido em leitores e, em alguns casos extremos, até em dinheiro.

O texto é cada vez menor. As frases de efeito vencem a longa e cuidadosa argumentação na atenção e nas definições de opinião. Os jargões prevalecem sobre a originalidade e a fundamentação lógica perde feio para o deboche. Os resultados são mais relevantes que o caráter, e a futilidade toma mais tempo que as questões centrais.

Os escritores parecem uma espécie ameaçada, que pode ter o mesmo fim dos quase extintos bons oradores. Ambos bebem da mesma fonte enferma, e talvez por isso estejam morrendo juntos. Se as palavras são cada vez menos levadas em conta, faz sentido que aqueles que dependem delas sofram. Também faz sentido que os oradores morram primeiro: suas vozes se perdem em ouvidos ocupados e assentos vazios. Os escritos permanecem como testemunhas frágeis e incompreendidas – verdadeiros fósseis.

Eu não gostaria de fazer parte da geração que testemunhou a morte da palavra, a substituição da precisão, da beleza, das sutilezas e profundezas do texto por alternativas vagas e superficiais, mesmo que também belas. É como substituir a biblioteca por Lascaux, trocar Dante pelo artista anônimo da caverna – que certamente preferiria ter letras e dominá-las como Dante para contar a história que suas pinturas rudimentares apenas permitem supor, mas se sentiria em casa em nossos cavernosos meios de comunicação e expressão de hoje.

O texto acima contém altas doses de exagero. Ou não.


O problema dos super-heróis

8/out/2009

O número de relatos de avistamentos de OVNIs e abduções por extraterrestres cresceu exponencialmente na mesma proporção que a popularidade de Guerra dos Mundos, Contatos Imediatos de Terceiro Grau, Independence Day e Arquivo X. Desconsiderando-se a precedência de causa e efeito desses fatos, o que chama a atenção é a relação entre a cultura pop e a realidade. “Aliens” na vida real e mídia sobre aliens têm uma certa equivalência.

Em outro gênero de ficção, entretanto, tal relação parece não ser aplicável. Apesar da popularidade dos super-heróis ser anterior à dos OVNIs (Zorro já andava pela Califórnia pouco depois da Primeira Guerra), avistamentos e contatos de heróis são raros, praticamente inexistentes. E embora muitos por aí gostem de reclamar sua cidadania extraterrestre, quase ninguém se apresenta como super-herói – pelo menos não seriamente. Pena, pois os heróis seriam bem mais úteis.

A carência de heróis, mesmo dos falsos, provavelmente é devida aos atributos necessários para ser um deles. Para ser um OVNI basta voar  (ou parecer voar) e não ser identificado, o que não é tão difícil. Para passar por alien basta escolher a roupa certa (ou errada, quem sabe). Mas para ser um super-herói é preciso dedicação, altruísmo e habilidades especiais. Certamente, três qualidades que dificilmente coexistirão em uma pessoa.

É evidente que é preciso se dedicar para ser um bom herói. Demanda-se uma vida dupla, com uma  insuspeita face social e uma implacável face secreta de combate ao mal. Se nos dias insanos de hoje é difícil manter uma vida, um trabalho e uma face, quão mais não será manter dois de cada, correndo os riscos inerentes à profissão oculta? Quem conseguiria, tal qual Peter Parker, trabalhar, estudar, sonhar com MJ e derrotar vilões caricatos e sem propósito? Todos querem o poder, mas não a responsabilidade.

Em decorrência disso, quem teria o desprendimento de esquecer de si mesmo, tamanha a dedicação exigida para cuidar de si próprio, para  ir corajosamente salvar os outros? É um tanto cliché entre os heróis de HQs que eles estejam vinculados a uma cidade. Gotham City, Metropolis, Nova York… o herói é uma personagem típica de seu meio em situações normais, e um estranho mascarado que se preocupa com os seus. Talvez essa característica seja um indicador do real anseio pelos heróis. Queremos que um exista, ou queremos ser um deles por pura preocupação com aqueles que são próximos, podendo defendê-los ou clamar por defesa tendo a certeza de ser prontamente atendidos.

Contudo, a autopreservação é uma voz superior. O anonimato das roupas coladas não ajudaria. O medo de acabar errando ou ter a identidade revelada e se tornar uma vítima do inimigo seria suficiente para afastar a maioria. O resto se sentiria mal com a opressão dos testículos.

Já a posse de habilidades especiais, a terceira das qualidades essenciais do herói, é o menor dos problemas. A grande maioria das pessoas é capaz de ter habilidades acima da média com algum grau de esforço. Poderes especiais talvez sejam raros ou inexistentes, mas mesmo que fossem acessíveis não fariam heróis. As habilidades dependeriam de dedicação e altruísmo, estas sim complicadas.

Enfatizando e concluindo, possivelmente é por isso que os heróis são inexistentes na realidade, apesar da abundância cultural. Ver coisas estranhas no céu escuro não demanda muito, mas caçar destemidamente o mal exige um preço alto demais. E isso nem é o pior de tudo. O que é realmente preocupante é que para ser um vilão basta ser mau ou fazer o mal, o que é extremamente fácil. O potencial para supervilões é altíssimo, ainda mais com uma concorrência tão baixa.


Aguarde sua vez

10/set/2009

- A morte precisa ter estilo – ensinava João a um desconhecido que, como ele, subia as escadas do prédio VI do Brasil Shining Sunset Palace, um condomínio muito bem localizado, com uma vista interessante para quem quer ver algo pela última vez, como se dizia por lá.

O prédio tinha vinte e cinco andares e era muito bem acabado. Os elevadores funcionavam perfeitamente, mas João preferiu subir as escadas para aproveitar o momento especial. No quarto andar desistiu da ideia e solicitou um elevador, que não demorou a chegar. Queria morrer, mas espatifado no chão, não de ataque cardíaco ou cansaço.

- Morte sem sangue é para mocinhas – ensinou em sua segunda lição, que foi mais curta, já que o elevador não fez paradas. Desceu no vigésimo quinto andar e subiu resmungando o último lance de escadas até o terraço.

Uma fila enorme começava próxima à porta do terraço e serpenteava até uma borda que dava para o oeste. Ninguém queria ver o pôr-do-sol: era nove da manhã, e a fila se dispôs assim porque ninguém quis ter o sol no rosto, apesar dos ótimos óculos escuros presentes nas faces. O desconhecido que acompanhou João na subida passou à sua frente e tomou um lugar na fila. Apesar dos olhares repreensivos em protesto, o homem sequer corou, e João conformou-se com seu último lugar. Não demorou, entretanto, para mais gente chegar e entrar na espera.

No final da fila estavam um padre e um pastor, um à esquerda e outro à direita. Na sua vez, cada um solicitava os serviços de um dos ministros, recebia uma bênção e uma advertência sobre o inferno, depositavam uma quantia em uma caixa próxima e pulavam. Sem qualquer afetação dos presentes, passava-se ao próximo da fila.

Após seis ou sete pulos começou uma murmuração entre os que aguardavam. Ricardo, que se identificou como ateu, exigia o direito de não ser atendido por um padre ou pastor ao final da fila.

- Ninguém é obrigado a ser atendido. Ao chegar aqui, nos ignore e faça como achar melhor – disse o padre.

- A presença de vocês aí é constrangedora – replicou Ricardo. Nós somos livres em nossas convicções, ou pelo menos deveríamos ser. Ter sacerdotes no final desta fila fere a igualdade de direitos e de crença. Exijo uma palavra com o responsável da fila.

Um olhava para o outro, e ninguém lembrava da existência de um responsável pela fila. Alguém sugeriu eleger um, e como Ricardo tinha levantado sua voz e sido o mais notado por todos, acabou sendo eleito por uma apertada diferença. Sua primeira determinação como responsável pela fila foi criar uma fila nova para os ateus e mover a remanescente para um canto escondido, onde os ministros não seriam vistos pela maioria, impedindo possíveis constrangimentos.

A fila dos religiosos continuou enorme, mas agora terminava atrás de uma antena, em um lugar bem escondido. A fila dos ateus só contava com Ricardo, que exaltou a própria liberdade um pouco antes de pular.

Entre os que permaneceram na fila original começaram outras reclamações. Um muçulmano exigiu uma fila de atendimento exclusivo para sua fé. O responsável pela fila, Ricardo, já estava vinte e cinco andares abaixo, em pedaços, então tiveram que eleger outro, que após barganhar algumas posições na fila com os eleitores, conseguiu criar uma fila atendida por um sacerdote islâmico.

Seguiu-se uma série de pedidos de fila com atendimento exclusivo. Foram criadas dezenas de filas, umas com dois ou três na espera, outras com dez ou até quinze, cada uma com um ministro. Um cristão bastante esclarecido pleiteou o direito de restaurar a fila dos ateus, baseado nos ideais de Ricardo. O espaço para a fila foi reservado, mas ninguém o preencheu definitivamente. Vez ou outra alguém aparecia e pulava naquele espaço, geralmente por ter errado a fila que lhe cabia.

Com as filas em pleno funcionamento, um grupo de homossexuais subiu ao terraço, e exigiu o direito de ter seus membros atendidos pelos ministros de qualquer religião. Gays e mulheres grávidas se uniram, já que havia recusa em se permitir que mulheres pulassem com a criança. O pastor, o padre e o sacerdote islâmico negaram o pedido dos dois grupos,e acabaram empurrados do terraço. Foram substituídos por líderes progressistas, tão à frente de seu tempo e das pessoas ali presentes que se jogaram antes de todos. Houve caos, e ninguém ouviu os deficientes exigindo atendimento preferencial.

Após a confusão, todos se jogaram aleatoriamente, se espatifando no chão ou em cima dos outros cadáveres. Quando não restava mais ninguém no terraço, um oficial de justiça afixou na porta e em uma parede próxima uma ordem judicial suspendendo as atividades do local por irregularidades no atendimento ao público. Uma equipe de TV chegou para gravar um documentário sobre a luta contra a intolerância. O jornal local publicou no dia seguinte que o Nacional Essence Wood Boulevard era um lugar mais adequado ao suicídio. Entrevistaram João, que não tinha conseguido se jogar porque esqueceu o dinheiro da taxa que deveria ser depositada na caixinha.


Gatos e deuses

5/set/2009

Há uma teoria que explica a causa do antigo assombro egípcio diante dos gatos. Não sei a fonte exata. O meio que me informou não a apresentou – seria exigir demais do History Channel. O certo é que a teoria aponta os felinos como a salvação dos vitais grãos, já que caçavam implacavelmente os ratos nos celeiros e casas.

O brilhante responsável pela teoria entende que aos primitivos egípcios, diante do heroísmo instintivo do gato, não restava opção senão venerar o animal, prestar culto e alçar seus bichinhos à condição de deus.

Como já deixei claro, não sei o nome do responsável, mas afirmo que a teoria é plausível. Em adição, leva ainda a outra teoria interligada, mais próxima e atual: a sociedade contemporânea não adora gatos porque conseguiu métodos mais eficientes para proteger seus alimentos dos ratos, como potes de plástico e venenos, que são mais baratos, não miam, não soltam pelos, não exigem caixa de areia e não carregam o risco relativo de transmitir toxoplasmose, além de serem completamente inadequados para figurar em um altar.

Essas duas teorias interligadas têm um efeito lógico interessante. A plausibilidade da teoria derivada acentua a inconsistência da teoria original. Afirmar que os egípcios adoravam gatos porque os bichos defendiam os grãos é carregar o ato de prestar culto de pragmatismo. É simplificar o que pode ter outras causas. Uma cultura que já tinha alguns milênios de existência quando confeccionou a primeira estátua de um gato divino conhecida hoje como a mais antiga estátua de um deus-bichano tinha o direito de ter motivos mais complexos que o problema dos ratos para como pretexto pra sua religião.

Acontece que religião é tida como algo tão ridículo hoje em dia, em meios acadêmicos ou não, que qualquer fato ou coisa ridícula é plausível para se chegar a um conceito sobre a religião. A existência da divindade explicava a chuva para o homem primitivo. A meteorologia provou que a chuva não é divina. Então deus nenhum deve existir. Sei que esse argumento é falho, e mesmo céticos não o usariam, desde que reservassem alguma inteligência para si. Mas parte de princípios parecidos e, inclusive, é utilizado algumas vezes.

A ideia que o primitivo criava um deus para explicar tudo o que era alheio ao seu conhecimento é preconceituosa. É como dizer que a razão humana esperou a Idade Média para que Ockham pudesse explicar que não se deve adicionar entidades além do necessário, como se antes dos pensadores europeus o homem não fosse capaz de entender por si que não faz sentido multiplicar as causas aleatoriamente.

É ser maldoso com os ancestrais imaginar que eles criariam a causa por demanda, de acordo com o efeito a ser explicado. Parece ser difícil perceber que um deus explicava a chuva possivelmente porque o homem entendia que existia um deus, e faria todo sentido se ele mandasse a chuva. É maltratar demais os pais dos homens de hoje, chamando-os de burros e incapazes, ainda mais quando se lembra que isso se origina  muitas vezes do desprezo íntimo à religião, implantando de forma sistemática nos últimos séculos.

Mas cinco mil anos depois os gatos e os ratos continuam se multiplicando. Geralmente, com várias exceções, não são tratados como divinos ou sobrenaturais, principalmente no caso dos ratos. Continuam bastante reais, como eram os deuses para os egípicios, e como é Deus para alguns hoje. Rebaixar, ridicularizar, mesmo que implicitamente, ou dar explicações simplistas para a religião dos antigos ou dos contemporâneos, chamando-os de primitivos e atrasados é injusto. Até porque, considerando que milênios de desenvolvimento tecnológico depois os ratos ainda são um problema de saúde pública, pode-se dizer que atrasados e primitivos todos são.


Tudo o que tens

28/ago/2009

Ananias acordou revigorado em um domingo preguiçoso, o que não era difícil, dada sua cama ampla e confortável, suficiente para quatro seres humanos. Tomou um café respeitável, digno de três seres humanos, e se sentou à frente de seu computador, com capacidade de processamento suficiente para vinte e dois seres humanos normais.

Tinha trocado todas as assinaturas de jornais por seu leitor de feeds. As enormes edições de domingo não enchiam mais sua caixa de correio, e ele não tinha que buscá-las em manhãs frias antes que algum sem escrúpulos as tomasse para si. A principal razão que apontava em conversas informais e em seu blog, contudo, é que estava contribuindo para a permanência das florestas, já que estava fazendo sua parte na redução do uso do papel.

Fez campanha contra o corte das árvores do canteiro central de uma avenida de seu bairro. A campanha até fez sentido, já que aquelas são as únicas árvores que ele conhece. E, considerando que são árvores próximas e em sequência, lar de pequenos animais e outras plantas, formando um reduzido mas completo ecossistema, são a única floresta real com a qual Ananias já teve contato.

De volta aos feeds, antes que os feitos desse homem tomem toda a história. Ananias já tinha lido sites de notícias relevantes e de piadas sem sentido. Informado e divertido, partiu para as leituras profundas, como chamava. Passou os olhos sobre algumas críticas a modelos e sistemas vigentes, colhendo argumentos para suas próximas postagens no blog e no Twitter. Viu uma indicação de um vídeo que parecia interessante e clicou no play para ver se realmente o era.

Assistiu emocionado a cada segundo, e foi às lágrimas na parte final. Pelo início já se sabia o final, mas mesmo assim chorou. Ver crianças tendo como sustento principal aquilo que gente despreocupada descartou foi impactante para ele. Copiou o endereço do vídeo e indicou várias vezes no Twitter, acompanhado de comentários como “lembre-se disso ao reclamar do pão de ontem no fast food” ou “o que os cristãos estão fazendo diante dessa realidade diária?” e ainda “Deus dá dinheiro aos seus servos mas esquece dessas pessoas?”.

Reclinou-se em sua confortável cadeira de trabalho e começou a pensar na postagem do blog sobre o assunto. Foi quando ouviu, ou pensou ter ouvido, como um ruído quase imperceptível, mais baixo que o som que o condicionador de ar fazia, dizendo algo que já conhecia, mas raramente lembrava: “vende tudo que tens e dá aos pobres”.

Após se recuperar dos arrepios e sensações fantasmagóricas que sentia, arrumou-se na cadeira e pensou. “Uma traquinagem da minha mente”, considerou. Deu um leve sorriso, como costumam fazer aqueles que subestimam e zombam do poder do próprio terror de momentos antes. Começou a ponderar a frase que imaginou sussurrada em seu ouvido.

“É impossível vender tudo. É necessário o básico pra viver. E se eu não tivesse nada, como ajudaria as pessoas?”. Racionalizada esta parte, abriu um conhecido site de ação social e fez uma contribuição com o cartão de crédito através do PayPal. “E como eu saberia de toda a situação dessas pessoas se eu vendesse o computador? Eu não teria visto os vídeos que vi, não seria informado como sou do mundo à minha volta. É uma ferramenta para o bem. É verdade, a coisa não é tão absoluta assim. Temos que vender aquilo que vai realmente ajudar os outros, e não me atrapalhar a ajudar os outros”.

Satisfeito com essa racionalização final, pôs na agenda vender o velho videocassete a uma loja de eletrônicos usados, alguns livros técnicos antigos ao sebo e em um ferro velho as rodas recém trocadas por outras aro 19. “O dinheiro deve ser usado em assistência aos desfavorecidos”, sublinhou enfaticamente em suas anotações. Tirada a caneta do papel, novamente sentiu a sensação de momentos antes. “Como é difícil um rico entrar no Reino dos Céus”, ouviu, ou pensou ter ouvido.

Mais uma vez, pôs-se a racionalizar. “Não sou rico. Pago um terço da minha renda em impostos e ainda plano de saúde. Falta dois anos ainda para quitar o débito do meu carro, e comprei esse computador em doze vezes no cartão. Não, não sou rico!”. Mais uma vez, a cogitação o deixou satisfeito. “Não há absolutos, amigos. Pensem antes e verá que as coisas são mais relativas do que imaginam”, escreveu em seu Twitter pouco antes de ligar seu home theater para assistir algo. Chovia, e o sinal de satélite estava ruim. “Nada funciona. Porcaria”, reclamou antes de colocar um DVD para assistir um filme. Dormiu o resto da tarde, enquanto suas mensagens causavam discussões no Twitter, e seus colegas louvavam no íntimo o seu engajamento.


That’s twitter

25/ago/2009

xyz Fala seriow, gentem. Me exigiram um monte de comprovantes e documentos pra renovar a CNH. #burocracia #fail

xyz A partir de hoje vou usar o TrueTwit pra comprovar que quem me adiciona é real. Contra spam, gentem. Paciência, please.

abc Religião é um atraso de vida e não faz sentido. Regras sobre a vida das pessoas não deveriam existir!

abc Gente, manifestação hoje a favor do projeto de lei contra a homofobia. Compareçam!

izn Odeio gente cuja vida gira em torno da Internet e fala tudo no twitter. Seus nerds virgens, vão viver!

izn A maionese na geladeira venceu ontem, mas dá pra aproveitar. Vou por tudo no sanduíche-íche hoje. Maionese #rulz.

izn Dor de barriga braba!

izn Doente pra caramba. Mas já to melhorando

izn #mimimi é o c… Ninguém tá vomitando tanto quanto eu.

izn Cuidem da vida de vcs, retardados. Eu tenho minha vida e não dependo do twitter.

izn @abc Se eu comi é problema meu, como o que e quem eu quiser.

izn @abc Viado é vc que fica o dia todo no twitter.

izn @abc Sim, eu twito até doente, e o que vc tem a ver com isso, seu nerd virgem? Tá apx por mim?

izn @abc Problema sexual tem sua irmã. E não adianta citar Freud.

hjk Amanhã eu mato meu chefe, galera.

hjk Welcome, @fgh!

hjk Galera, follow @fgh -> meu chefe, garantia de twits relevantes!

hjk @fgh Deixei aberto aqui em casa, chefe, meu brother mexeu. Sério.

hjk Aceitando freelance, galera.

plm Detesto gente que diz que sou fake, spam ou robot só pq tenho 173430 seguidores e uma foto bonita. #inveja é uma merda.

abc Cadê a @plm?

abc Welcome, @plm2! Bela foto!

plm2 Outra conta apagada. Twitter me chamou de spam. Não é verdade!

abc @plm2 twitter #fail. Viva @plm2!

qap Twitter virando orkut. Quanta futilidade!

qap Banana acabou, mas ainda tem açaí. #partiu

nml Deus era mau, e assassino sem caráter. Mandou matar mulheres e crianças.

nml tinha uma Formiga em cima da tecla shift – esperei pra escrever o nome de sua espécie pra esmagá-la. Sinto-me realizado #prazer

As sequências de twits acima são ficcionais, mas baseadas em fatos reais. Qualquer nome de usuário existente de verdade no twiter é mera coincidência. Em um ou outro caso, talvez não.