- Feliz ano novo! – disse à meia-noite a um jovem próximo um velho enquanto estendia os ossos da mão, encapados por um pouco de pele que brilhava com a gordura de alguma guloseima.
- Feliz seja o senhor, Velho, neste ano que de novo nada tem, e em todos os outros – disse o jovem, sem notar a surpresa na expressão do velho.
- Vai rejeitar, amigo, a alegria da mais feliz das noites?
- Sim, rejeito a alegria desta noite em nome da alegria de todas as outras – a nova resposta do jovem causou a mesma surpresa.
- Mas esta é uma noite especial. As outras, ordinárias, não têm o poder de nos dar o prazer como o de uma noite em que todos estão reunidos, nas primeiras horas daquele dia que chamamos Confraternização Universal.
- Nem todos confraternizam. Há os que, pelo nosso modo de vida, obrigados são a trabalhar, sozinhos ou com estranhos, zelando por aqueles que têm um entendimento estranho do conceito de festa. Nos hospitais e carros de resgate, na companhia elétrica e emissoras de televisão: lá está gente obrigada a suportar uma confraternização supostamente universal.
- Eles estão onde escolheram estar. Você pode aproveitar. Venha, pegue uma taça de espumante e um pedaço de pernil…
- Poupe-me de espumantes e pernis nesta noite. Traga-os em março ou em setembro, num dia útil qualquer, e brindaremos e comeremos. Esta noite recuso o vinho e a carne do pobre porco.
- Não faça isso! Os dias especiais nos unem!
- Nós adiamos a união para os dias especiais. É diferente. Esperamos o aniversário para presentear, o dia das mães para telefonar, a Páscoa para comer chocolate. Achamos suficiente quando cumprimos a missão do Dia. Se não existisse O Dia, seriam missões de todos os dias.
- Mas os dias seriam todos iguais… – o velho já não sabia que palavras usar.
- E o problema está em que sejam diferentes durante o ano. Os dias diferentes no ano são iguais ao longo dos anos. Os natais remetem a outros natais, sempre o mesmo Natal, igual e enfadonho, onde todos fazemos a mesma coisa. Dê-me dias iguais e me empenharei em torná-los todos diferentes. Mas dão-nos dias diferentes, e eles nos tornam iguais. Ah! Esqueça esta noite quente de dezembro e janeiro com seus fogos e votos, onde julgamos vivenciar a maior das viradas! Vá para uma manhã fria qualquer de uma terça-feira em julho, na qual um homem é obrigado a acordar cedo, sair de seus cobertores e ir trabalhar. Naquela manhã ordinária e gelada, aquele homem faz muito mais que dez mil reveillóns fariam por nós.
- Jovem, você despreza o valor dos dias! – o velho já desistia: havia comida e bebida demais para perder tempo com eloquência.
- Na verdade, Velho, prezo o conteúdo dos dias. Que é mais interessante agora: a travessa ou o celebrado pernil?
- Não vou mais discutir. Desfrute seu ano novo como achar melhor – e levou o velho a garrafa de espumante, que agora parecia interessante ao jovem. Mas assim como nos outros dias, não bebeu, e não achou que o ano começou mal devido a isso.
Escrito por Teo Victor
