Outro ano

3/jan/2010

- Feliz ano novo! – disse à meia-noite a um jovem próximo um velho enquanto estendia os ossos da mão,  encapados por um pouco de pele que brilhava com a gordura de alguma guloseima.

- Feliz seja o senhor, Velho, neste ano que de novo nada tem, e em todos os outros – disse o jovem, sem notar a surpresa na expressão do velho.

- Vai rejeitar, amigo, a alegria da mais feliz das noites?

- Sim, rejeito a alegria desta noite em nome da alegria de todas as outras – a nova resposta do jovem causou a mesma surpresa.

- Mas esta é uma noite especial. As outras, ordinárias, não têm o poder de nos dar o prazer como o de uma noite em que todos estão reunidos, nas primeiras horas daquele dia que chamamos Confraternização Universal.

- Nem todos confraternizam. Há os que, pelo nosso modo de vida, obrigados são a trabalhar, sozinhos ou com estranhos, zelando por aqueles que têm um entendimento estranho do conceito de festa. Nos hospitais e carros de resgate, na companhia elétrica e emissoras de televisão: lá está gente obrigada a suportar uma confraternização supostamente universal.

- Eles estão onde escolheram estar. Você pode aproveitar. Venha, pegue uma taça de espumante e um pedaço de pernil…

- Poupe-me de espumantes e pernis nesta noite. Traga-os em março ou em setembro, num dia útil qualquer, e brindaremos e comeremos. Esta noite recuso o vinho e a carne do pobre porco.

- Não faça isso! Os dias especiais nos unem!

- Nós adiamos a união para os dias especiais. É diferente. Esperamos o aniversário para presentear, o dia das mães para telefonar, a Páscoa para comer chocolate. Achamos suficiente quando cumprimos a missão do Dia. Se não existisse O Dia, seriam missões de todos os dias.

- Mas os dias seriam todos iguais… – o velho já não sabia que palavras usar.

- E o problema está em que sejam diferentes durante o ano. Os dias diferentes no ano são iguais ao longo dos anos. Os natais remetem a outros natais, sempre o mesmo Natal, igual e enfadonho, onde todos fazemos a mesma coisa. Dê-me dias iguais e me empenharei em torná-los todos diferentes. Mas dão-nos dias diferentes, e eles nos tornam iguais. Ah! Esqueça esta noite quente de dezembro e janeiro com seus fogos e votos, onde julgamos vivenciar a maior das viradas! Vá para uma manhã fria qualquer de uma terça-feira em julho, na qual um homem é obrigado a acordar cedo, sair de seus cobertores e ir trabalhar. Naquela manhã ordinária e gelada, aquele homem faz muito mais que dez mil reveillóns fariam por nós.

- Jovem, você despreza o valor dos dias! – o velho já desistia: havia comida e bebida demais para perder tempo com eloquência.

- Na verdade, Velho, prezo o conteúdo dos dias. Que é mais interessante agora: a travessa ou o celebrado pernil?

- Não vou mais discutir. Desfrute seu ano novo como achar melhor – e levou o velho a garrafa de espumante, que agora parecia interessante ao jovem. Mas assim como nos outros dias, não bebeu, e não achou que o ano começou mal devido a isso.


O incremento recursivo e seletivo da bipolaridade do pensamento humano – ou O mundo é um ringue

17/dez/2009

Sem desmerecer a complexidade das ciências relacionadas, a análise do comportamento de um adolescente apaixonado pode explicar a maior parte das relações humanas de poder no âmbito social e político, de tribos nômades a Washington, passando por igrejas evangélicas e universidades.

Quando um jovem altivo, em pé no estrado dos seus incríveis quinze anos, descobre que a beleza hipnotizante da moça simpática e mais velha que ele já contava como sua na verdade já era cativa de outro rapaz, menos jovem e mais altivo, há um disparar de atitudes, sensações e pensamentos que ditam o que aquele adolescente, quando for adulto, profissional, juiz, presidente ou ser humano, fará, sentirá ou pensará.

A batalha pela moça não é afetiva, mas territorial. Internamente, as afetações do apaixonado se parecem menos com o denso caderno poético que Marius deu a Cosette e mais com um fêmur de gnu rachando o crânio do adversário. É pouco amor, e muito poder. O adolescente não perderá uma oportunidade de se mostrar superior a seu concorrente, seja no futebol, na matemática, na literatura, na dança, na luta corporal ou, para desespero de algumas famílias, no manejo de armas de fogo.

Caso o concorrente seja afastado, seja devido ao futebol, à matemática, à literatura, à dança (e consequentes), à luta corporal ou às armas, e o território seja enfim conquistado pelo primeiro jovem, não restará mais o jovem apaixonado, mas a negação do namorado anterior da moça. Não haverá o rapaz, mas o não-outro-rapaz. A preocupação será mostrar como o rapaz anterior era ruim, e como o atual é melhor. Sistematicamente, o pequeno sociopata trabalhará para apagar as lembranças boas do outro-rapaz, buscando demonizá-lo, e mostrar-se como a única alternativa viável contra o retorno de satanás ao relacionamento. E assim, os feitos bons do outro-rapaz do passado se perdem entre mimos do presente, e a ordem das coisas para a moça se altera, em um processo primitivo de contingenciamento, lembrando o que Rap mencionou em um texto recente*.

À alternância de rapazes, outros-rapazes, mesmos-rapazes, novamente outros-rapazes, as moças dão o nome vida afetiva. Entretanto, o princípio, como já dito, pode ser aplicado em outras áreas. Um país tem sequencias de presidentes e ex-presidentes, o ambiente acadêmico alterna sua verdade entre ideologias e outras-ideologias, as igrejas entre líderes visionários e fundamentalistas do passado, entre outros exemplos.

O que o titular do poder antes fez ou defendeu é visto como errado. Os herdeiros do pensamento do titular anterior agora são mal vistos. O estranho primeiro título deste texto é proposital. Um ser teórico que concordasse sempre comigo diria que o título grande é uma descrição perfeita do texto, fruto de alguém que sabe o que diz. Outro ser teórico (mas não muito) que discordasse sempre de mim diria que é uma descrição pomposa e vazia, que visa dar um ar maior de validade ao que escrevo. Ambos estão parcialmente certos: eu sei o que eu digo, mas o título não é uma descrição perfeita do texto – é uma descrição pomposa e vazia, mas tem um efeito cômico e exemplar.

A bipolaridade, entretanto, não permite esse entedimento. Quando o poder está envolvido não há esse tipo de zona cinzenta. Quem almeja o poder entende que titular atual no poder está desfrutando do direito alheio (no caso, do aspirante), e assim também o é reciprocamente. Nessa situação, o objetivamente certo não existe, dando lugar a um pragmático politicamente correto.

Em um episódio que me inspirou para o título nonsense, um pesquisador amigo tentou conseguir aprovação para um projeto de pesquisa em uma certa instituição. O projeto consistia em resolver o problema p, através do método m. O projeto foi rejeitado porque não se encaixava no contexto amazônico cA. O projeto teve seu título alterado, para dar a entender que consistia em resolver p através de m, no subcontexto s de cA, e foi aprovado. O problema p, por sua própria natureza, pode ser resolvido pelo método m na Amazônia, na China, no Ártico, em Próxima Centauro ou além do alcançável pelas lentes do Hubble, mas se não resolver usando os termos que alguém que detém certo tipo de poder, não serve.

Se um método ineficaz i fosse apresentado como solução de p, mas fosse aplicado originalmente a cA, seria prontamente aprovado, não porque é verdadeiro ou útil, mas porque usou as palavras-chave certas. Ou seja, não serve a verdade que não seja aplicada ao contexto do poder atual, usando os termos, política, senso de moralidade e cosmovisão do mesmo poder. Quando outro poder se sucede, mudam o contexto, os termos, a política, o senso de moralidade e a cosmovisão, mudando o sistema de coisas que envolve a verdade.

Por esse motivo, o título alternativo seria o original, já que o mundo e seus poderes brigam entre si sem qualquer regulamento. De fato, para o tipo de pessoa que geralmente busca o poder qualquer regra é válida, desde que o oponente seja derrotado. O mundo se parece com um ringue onde ocorre um feroz duelo, assistido por uma plateia cínica, que aplaude o vencedor e vaia o perdedor, não importa quem seja um e outro.

* Recomento a leitura integral do texto do Rap, que se chama A Política e os fatos, que apesar de não ter inspirado este, poderia cumprir a função – trata-se de mais uma coincidência temática (um pouco distante, e desta vez não proposital).


A morte da palavra

9/dez/2009

É difícil escrever hoje em dia. Apesar dos blogs, gerenciadores de conteúdos, preços acessíveis (ou inexistentes), contatos, plug-ins… é complicado produzir conteúdo escrito e mantê-lo disponível. Mesmo com a relativa independência do meio impresso, não é fácil manter um blog como este.

Pode parecer uma mera reclamação periódica, uma espécie de ataque vazio ao nada, uma necessidade sazonal que gera um furioso ataque aleatório ao que me cerca, simplesmente pelo prazer de ver o sangue jorrar e o sistema de coisas atacado simplesmente por ser o sistema de coisas. Não culparia quem pensasse assim a princípio, até porque alguns que escrevem parecem sofrer uma espécie de menstruação intelectual, um período onde tudo o que sai deles é caos e sangue.

Espero, entretanto, que quem leia não me veja assim. Não estou nem nunca estive naqueles dias, em qualquer sentido da palavra ou esfera da existência. Mas alguns poderão lembrar que difícil era escrever antes da Internet, quando quem quisesse publicar o que escreve deveria entrar obrigatoriamente no jogo das editoras, do contrário seria um não-lido eternamente.

De fato, a Internet tornou o acesso ao conteúdo possível. Mas a possibilidade não significa acesso no fim. A verdade é que ninguém quer ler parágrafos como este. Existem vários motivos para isso, mas o principal deles é que este já é o quarto! Imagino o próximo, quinto, abaixo do já não-querido quarto. O décimo será um miserável, se existir.

Valoriza-se hoje conteúdo em pequena quantidade. O texto deve ser curto, para ser rapidamente lido, direto, para ser rapidamente compreendido e pouco denso para ser rapidamente digerido. Existem técnicas para se fazer textos assim. Usa-se poucos parágrafos, todos com poucas linhas. Corta-se o primeiro parágrafo (vê-se que os parágrafos são realmente os inimigos) antes de publicar o texto, pois ele geralmente é inútil. Usa-se palavas-chave para que os mecanismos de busca cheguem velozmente, e tags em profusão, mesmo que elas não digam respeito ao texto (o buscador não precisa saber disso).

De preferência deve vir acompanhado de uma imagem significativa, sarcástica ou sensual. Se a foto for o motivo do texto, basta um comentário significativo, sarcástico ou sensual. Na falta dele, os leitores podem preencher a lacuna nos comentários.

A preocupação hoje não é com estética, conteúdo ou coerência. Quem escreve parece estar mais preocupado com indexação, keywords, anúncios pagos e posts patrocinados, feeds e furos constrangedores para terceiros. São coisas rápidas e fáceis de assimilar, dão retorno garantido em leitores e, em alguns casos extremos, até em dinheiro.

O texto é cada vez menor. As frases de efeito vencem a longa e cuidadosa argumentação na atenção e nas definições de opinião. Os jargões prevalecem sobre a originalidade e a fundamentação lógica perde feio para o deboche. Os resultados são mais relevantes que o caráter, e a futilidade toma mais tempo que as questões centrais.

Os escritores parecem uma espécie ameaçada, que pode ter o mesmo fim dos quase extintos bons oradores. Ambos bebem da mesma fonte enferma, e talvez por isso estejam morrendo juntos. Se as palavras são cada vez menos levadas em conta, faz sentido que aqueles que dependem delas sofram. Também faz sentido que os oradores morram primeiro: suas vozes se perdem em ouvidos ocupados e assentos vazios. Os escritos permanecem como testemunhas frágeis e incompreendidas – verdadeiros fósseis.

Eu não gostaria de fazer parte da geração que testemunhou a morte da palavra, a substituição da precisão, da beleza, das sutilezas e profundezas do texto por alternativas vagas e superficiais, mesmo que também belas. É como substituir a biblioteca por Lascaux, trocar Dante pelo artista anônimo da caverna – que certamente preferiria ter letras e dominá-las como Dante para contar a história que suas pinturas rudimentares apenas permitem supor, mas se sentiria em casa em nossos cavernosos meios de comunicação e expressão de hoje.

O texto acima contém altas doses de exagero. Ou não.


O problema dos super-heróis

8/out/2009

O número de relatos de avistamentos de OVNIs e abduções por extraterrestres cresceu exponencialmente na mesma proporção que a popularidade de Guerra dos Mundos, Contatos Imediatos de Terceiro Grau, Independence Day e Arquivo X. Desconsiderando-se a precedência de causa e efeito desses fatos, o que chama a atenção é a relação entre a cultura pop e a realidade. “Aliens” na vida real e mídia sobre aliens têm uma certa equivalência.

Em outro gênero de ficção, entretanto, tal relação parece não ser aplicável. Apesar da popularidade dos super-heróis ser anterior à dos OVNIs (Zorro já andava pela Califórnia pouco depois da Primeira Guerra), avistamentos e contatos de heróis são raros, praticamente inexistentes. E embora muitos por aí gostem de reclamar sua cidadania extraterrestre, quase ninguém se apresenta como super-herói – pelo menos não seriamente. Pena, pois os heróis seriam bem mais úteis.

A carência de heróis, mesmo dos falsos, provavelmente é devida aos atributos necessários para ser um deles. Para ser um OVNI basta voar  (ou parecer voar) e não ser identificado, o que não é tão difícil. Para passar por alien basta escolher a roupa certa (ou errada, quem sabe). Mas para ser um super-herói é preciso dedicação, altruísmo e habilidades especiais. Certamente, três qualidades que dificilmente coexistirão em uma pessoa.

É evidente que é preciso se dedicar para ser um bom herói. Demanda-se uma vida dupla, com uma  insuspeita face social e uma implacável face secreta de combate ao mal. Se nos dias insanos de hoje é difícil manter uma vida, um trabalho e uma face, quão mais não será manter dois de cada, correndo os riscos inerentes à profissão oculta? Quem conseguiria, tal qual Peter Parker, trabalhar, estudar, sonhar com MJ e derrotar vilões caricatos e sem propósito? Todos querem o poder, mas não a responsabilidade.

Em decorrência disso, quem teria o desprendimento de esquecer de si mesmo, tamanha a dedicação exigida para cuidar de si próprio, para  ir corajosamente salvar os outros? É um tanto cliché entre os heróis de HQs que eles estejam vinculados a uma cidade. Gotham City, Metropolis, Nova York… o herói é uma personagem típica de seu meio em situações normais, e um estranho mascarado que se preocupa com os seus. Talvez essa característica seja um indicador do real anseio pelos heróis. Queremos que um exista, ou queremos ser um deles por pura preocupação com aqueles que são próximos, podendo defendê-los ou clamar por defesa tendo a certeza de ser prontamente atendidos.

Contudo, a autopreservação é uma voz superior. O anonimato das roupas coladas não ajudaria. O medo de acabar errando ou ter a identidade revelada e se tornar uma vítima do inimigo seria suficiente para afastar a maioria. O resto se sentiria mal com a opressão dos testículos.

Já a posse de habilidades especiais, a terceira das qualidades essenciais do herói, é o menor dos problemas. A grande maioria das pessoas é capaz de ter habilidades acima da média com algum grau de esforço. Poderes especiais talvez sejam raros ou inexistentes, mas mesmo que fossem acessíveis não fariam heróis. As habilidades dependeriam de dedicação e altruísmo, estas sim complicadas.

Enfatizando e concluindo, possivelmente é por isso que os heróis são inexistentes na realidade, apesar da abundância cultural. Ver coisas estranhas no céu escuro não demanda muito, mas caçar destemidamente o mal exige um preço alto demais. E isso nem é o pior de tudo. O que é realmente preocupante é que para ser um vilão basta ser mau ou fazer o mal, o que é extremamente fácil. O potencial para supervilões é altíssimo, ainda mais com uma concorrência tão baixa.


Aguarde sua vez

10/set/2009

- A morte precisa ter estilo – ensinava João a um desconhecido que, como ele, subia as escadas do prédio VI do Brasil Shining Sunset Palace, um condomínio muito bem localizado, com uma vista interessante para quem quer ver algo pela última vez, como se dizia por lá.

O prédio tinha vinte e cinco andares e era muito bem acabado. Os elevadores funcionavam perfeitamente, mas João preferiu subir as escadas para aproveitar o momento especial. No quarto andar desistiu da ideia e solicitou um elevador, que não demorou a chegar. Queria morrer, mas espatifado no chão, não de ataque cardíaco ou cansaço.

- Morte sem sangue é para mocinhas – ensinou em sua segunda lição, que foi mais curta, já que o elevador não fez paradas. Desceu no vigésimo quinto andar e subiu resmungando o último lance de escadas até o terraço.

Uma fila enorme começava próxima à porta do terraço e serpenteava até uma borda que dava para o oeste. Ninguém queria ver o pôr-do-sol: era nove da manhã, e a fila se dispôs assim porque ninguém quis ter o sol no rosto, apesar dos ótimos óculos escuros presentes nas faces. O desconhecido que acompanhou João na subida passou à sua frente e tomou um lugar na fila. Apesar dos olhares repreensivos em protesto, o homem sequer corou, e João conformou-se com seu último lugar. Não demorou, entretanto, para mais gente chegar e entrar na espera.

No final da fila estavam um padre e um pastor, um à esquerda e outro à direita. Na sua vez, cada um solicitava os serviços de um dos ministros, recebia uma bênção e uma advertência sobre o inferno, depositavam uma quantia em uma caixa próxima e pulavam. Sem qualquer afetação dos presentes, passava-se ao próximo da fila.

Após seis ou sete pulos começou uma murmuração entre os que aguardavam. Ricardo, que se identificou como ateu, exigia o direito de não ser atendido por um padre ou pastor ao final da fila.

- Ninguém é obrigado a ser atendido. Ao chegar aqui, nos ignore e faça como achar melhor – disse o padre.

- A presença de vocês aí é constrangedora – replicou Ricardo. Nós somos livres em nossas convicções, ou pelo menos deveríamos ser. Ter sacerdotes no final desta fila fere a igualdade de direitos e de crença. Exijo uma palavra com o responsável da fila.

Um olhava para o outro, e ninguém lembrava da existência de um responsável pela fila. Alguém sugeriu eleger um, e como Ricardo tinha levantado sua voz e sido o mais notado por todos, acabou sendo eleito por uma apertada diferença. Sua primeira determinação como responsável pela fila foi criar uma fila nova para os ateus e mover a remanescente para um canto escondido, onde os ministros não seriam vistos pela maioria, impedindo possíveis constrangimentos.

A fila dos religiosos continuou enorme, mas agora terminava atrás de uma antena, em um lugar bem escondido. A fila dos ateus só contava com Ricardo, que exaltou a própria liberdade um pouco antes de pular.

Entre os que permaneceram na fila original começaram outras reclamações. Um muçulmano exigiu uma fila de atendimento exclusivo para sua fé. O responsável pela fila, Ricardo, já estava vinte e cinco andares abaixo, em pedaços, então tiveram que eleger outro, que após barganhar algumas posições na fila com os eleitores, conseguiu criar uma fila atendida por um sacerdote islâmico.

Seguiu-se uma série de pedidos de fila com atendimento exclusivo. Foram criadas dezenas de filas, umas com dois ou três na espera, outras com dez ou até quinze, cada uma com um ministro. Um cristão bastante esclarecido pleiteou o direito de restaurar a fila dos ateus, baseado nos ideais de Ricardo. O espaço para a fila foi reservado, mas ninguém o preencheu definitivamente. Vez ou outra alguém aparecia e pulava naquele espaço, geralmente por ter errado a fila que lhe cabia.

Com as filas em pleno funcionamento, um grupo de homossexuais subiu ao terraço, e exigiu o direito de ter seus membros atendidos pelos ministros de qualquer religião. Gays e mulheres grávidas se uniram, já que havia recusa em se permitir que mulheres pulassem com a criança. O pastor, o padre e o sacerdote islâmico negaram o pedido dos dois grupos,e acabaram empurrados do terraço. Foram substituídos por líderes progressistas, tão à frente de seu tempo e das pessoas ali presentes que se jogaram antes de todos. Houve caos, e ninguém ouviu os deficientes exigindo atendimento preferencial.

Após a confusão, todos se jogaram aleatoriamente, se espatifando no chão ou em cima dos outros cadáveres. Quando não restava mais ninguém no terraço, um oficial de justiça afixou na porta e em uma parede próxima uma ordem judicial suspendendo as atividades do local por irregularidades no atendimento ao público. Uma equipe de TV chegou para gravar um documentário sobre a luta contra a intolerância. O jornal local publicou no dia seguinte que o Nacional Essence Wood Boulevard era um lugar mais adequado ao suicídio. Entrevistaram João, que não tinha conseguido se jogar porque esqueceu o dinheiro da taxa que deveria ser depositada na caixinha.


Gatos e deuses

5/set/2009

Há uma teoria que explica a causa do antigo assombro egípcio diante dos gatos. Não sei a fonte exata. O meio que me informou não a apresentou – seria exigir demais do History Channel. O certo é que a teoria aponta os felinos como a salvação dos vitais grãos, já que caçavam implacavelmente os ratos nos celeiros e casas.

O brilhante responsável pela teoria entende que aos primitivos egípcios, diante do heroísmo instintivo do gato, não restava opção senão venerar o animal, prestar culto e alçar seus bichinhos à condição de deus.

Como já deixei claro, não sei o nome do responsável, mas afirmo que a teoria é plausível. Em adição, leva ainda a outra teoria interligada, mais próxima e atual: a sociedade contemporânea não adora gatos porque conseguiu métodos mais eficientes para proteger seus alimentos dos ratos, como potes de plástico e venenos, que são mais baratos, não miam, não soltam pelos, não exigem caixa de areia e não carregam o risco relativo de transmitir toxoplasmose, além de serem completamente inadequados para figurar em um altar.

Essas duas teorias interligadas têm um efeito lógico interessante. A plausibilidade da teoria derivada acentua a inconsistência da teoria original. Afirmar que os egípcios adoravam gatos porque os bichos defendiam os grãos é carregar o ato de prestar culto de pragmatismo. É simplificar o que pode ter outras causas. Uma cultura que já tinha alguns milênios de existência quando confeccionou a primeira estátua de um gato divino conhecida hoje como a mais antiga estátua de um deus-bichano tinha o direito de ter motivos mais complexos que o problema dos ratos para como pretexto pra sua religião.

Acontece que religião é tida como algo tão ridículo hoje em dia, em meios acadêmicos ou não, que qualquer fato ou coisa ridícula é plausível para se chegar a um conceito sobre a religião. A existência da divindade explicava a chuva para o homem primitivo. A meteorologia provou que a chuva não é divina. Então deus nenhum deve existir. Sei que esse argumento é falho, e mesmo céticos não o usariam, desde que reservassem alguma inteligência para si. Mas parte de princípios parecidos e, inclusive, é utilizado algumas vezes.

A ideia que o primitivo criava um deus para explicar tudo o que era alheio ao seu conhecimento é preconceituosa. É como dizer que a razão humana esperou a Idade Média para que Ockham pudesse explicar que não se deve adicionar entidades além do necessário, como se antes dos pensadores europeus o homem não fosse capaz de entender por si que não faz sentido multiplicar as causas aleatoriamente.

É ser maldoso com os ancestrais imaginar que eles criariam a causa por demanda, de acordo com o efeito a ser explicado. Parece ser difícil perceber que um deus explicava a chuva possivelmente porque o homem entendia que existia um deus, e faria todo sentido se ele mandasse a chuva. É maltratar demais os pais dos homens de hoje, chamando-os de burros e incapazes, ainda mais quando se lembra que isso se origina  muitas vezes do desprezo íntimo à religião, implantando de forma sistemática nos últimos séculos.

Mas cinco mil anos depois os gatos e os ratos continuam se multiplicando. Geralmente, com várias exceções, não são tratados como divinos ou sobrenaturais, principalmente no caso dos ratos. Continuam bastante reais, como eram os deuses para os egípicios, e como é Deus para alguns hoje. Rebaixar, ridicularizar, mesmo que implicitamente, ou dar explicações simplistas para a religião dos antigos ou dos contemporâneos, chamando-os de primitivos e atrasados é injusto. Até porque, considerando que milênios de desenvolvimento tecnológico depois os ratos ainda são um problema de saúde pública, pode-se dizer que atrasados e primitivos todos são.


Tudo o que tens

28/ago/2009

Ananias acordou revigorado em um domingo preguiçoso, o que não era difícil, dada sua cama ampla e confortável, suficiente para quatro seres humanos. Tomou um café respeitável, digno de três seres humanos, e se sentou à frente de seu computador, com capacidade de processamento suficiente para vinte e dois seres humanos normais.

Tinha trocado todas as assinaturas de jornais por seu leitor de feeds. As enormes edições de domingo não enchiam mais sua caixa de correio, e ele não tinha que buscá-las em manhãs frias antes que algum sem escrúpulos as tomasse para si. A principal razão que apontava em conversas informais e em seu blog, contudo, é que estava contribuindo para a permanência das florestas, já que estava fazendo sua parte na redução do uso do papel.

Fez campanha contra o corte das árvores do canteiro central de uma avenida de seu bairro. A campanha até fez sentido, já que aquelas são as únicas árvores que ele conhece. E, considerando que são árvores próximas e em sequência, lar de pequenos animais e outras plantas, formando um reduzido mas completo ecossistema, são a única floresta real com a qual Ananias já teve contato.

De volta aos feeds, antes que os feitos desse homem tomem toda a história. Ananias já tinha lido sites de notícias relevantes e de piadas sem sentido. Informado e divertido, partiu para as leituras profundas, como chamava. Passou os olhos sobre algumas críticas a modelos e sistemas vigentes, colhendo argumentos para suas próximas postagens no blog e no Twitter. Viu uma indicação de um vídeo que parecia interessante e clicou no play para ver se realmente o era.

Assistiu emocionado a cada segundo, e foi às lágrimas na parte final. Pelo início já se sabia o final, mas mesmo assim chorou. Ver crianças tendo como sustento principal aquilo que gente despreocupada descartou foi impactante para ele. Copiou o endereço do vídeo e indicou várias vezes no Twitter, acompanhado de comentários como “lembre-se disso ao reclamar do pão de ontem no fast food” ou “o que os cristãos estão fazendo diante dessa realidade diária?” e ainda “Deus dá dinheiro aos seus servos mas esquece dessas pessoas?”.

Reclinou-se em sua confortável cadeira de trabalho e começou a pensar na postagem do blog sobre o assunto. Foi quando ouviu, ou pensou ter ouvido, como um ruído quase imperceptível, mais baixo que o som que o condicionador de ar fazia, dizendo algo que já conhecia, mas raramente lembrava: “vende tudo que tens e dá aos pobres”.

Após se recuperar dos arrepios e sensações fantasmagóricas que sentia, arrumou-se na cadeira e pensou. “Uma traquinagem da minha mente”, considerou. Deu um leve sorriso, como costumam fazer aqueles que subestimam e zombam do poder do próprio terror de momentos antes. Começou a ponderar a frase que imaginou sussurrada em seu ouvido.

“É impossível vender tudo. É necessário o básico pra viver. E se eu não tivesse nada, como ajudaria as pessoas?”. Racionalizada esta parte, abriu um conhecido site de ação social e fez uma contribuição com o cartão de crédito através do PayPal. “E como eu saberia de toda a situação dessas pessoas se eu vendesse o computador? Eu não teria visto os vídeos que vi, não seria informado como sou do mundo à minha volta. É uma ferramenta para o bem. É verdade, a coisa não é tão absoluta assim. Temos que vender aquilo que vai realmente ajudar os outros, e não me atrapalhar a ajudar os outros”.

Satisfeito com essa racionalização final, pôs na agenda vender o velho videocassete a uma loja de eletrônicos usados, alguns livros técnicos antigos ao sebo e em um ferro velho as rodas recém trocadas por outras aro 19. “O dinheiro deve ser usado em assistência aos desfavorecidos”, sublinhou enfaticamente em suas anotações. Tirada a caneta do papel, novamente sentiu a sensação de momentos antes. “Como é difícil um rico entrar no Reino dos Céus”, ouviu, ou pensou ter ouvido.

Mais uma vez, pôs-se a racionalizar. “Não sou rico. Pago um terço da minha renda em impostos e ainda plano de saúde. Falta dois anos ainda para quitar o débito do meu carro, e comprei esse computador em doze vezes no cartão. Não, não sou rico!”. Mais uma vez, a cogitação o deixou satisfeito. “Não há absolutos, amigos. Pensem antes e verá que as coisas são mais relativas do que imaginam”, escreveu em seu Twitter pouco antes de ligar seu home theater para assistir algo. Chovia, e o sinal de satélite estava ruim. “Nada funciona. Porcaria”, reclamou antes de colocar um DVD para assistir um filme. Dormiu o resto da tarde, enquanto suas mensagens causavam discussões no Twitter, e seus colegas louvavam no íntimo o seu engajamento.


That’s twitter

25/ago/2009

xyz Fala seriow, gentem. Me exigiram um monte de comprovantes e documentos pra renovar a CNH. #burocracia #fail

xyz A partir de hoje vou usar o TrueTwit pra comprovar que quem me adiciona é real. Contra spam, gentem. Paciência, please.

abc Religião é um atraso de vida e não faz sentido. Regras sobre a vida das pessoas não deveriam existir!

abc Gente, manifestação hoje a favor do projeto de lei contra a homofobia. Compareçam!

izn Odeio gente cuja vida gira em torno da Internet e fala tudo no twitter. Seus nerds virgens, vão viver!

izn A maionese na geladeira venceu ontem, mas dá pra aproveitar. Vou por tudo no sanduíche-íche hoje. Maionese #rulz.

izn Dor de barriga braba!

izn Doente pra caramba. Mas já to melhorando

izn #mimimi é o c… Ninguém tá vomitando tanto quanto eu.

izn Cuidem da vida de vcs, retardados. Eu tenho minha vida e não dependo do twitter.

izn @abc Se eu comi é problema meu, como o que e quem eu quiser.

izn @abc Viado é vc que fica o dia todo no twitter.

izn @abc Sim, eu twito até doente, e o que vc tem a ver com isso, seu nerd virgem? Tá apx por mim?

izn @abc Problema sexual tem sua irmã. E não adianta citar Freud.

hjk Amanhã eu mato meu chefe, galera.

hjk Welcome, @fgh!

hjk Galera, follow @fgh -> meu chefe, garantia de twits relevantes!

hjk @fgh Deixei aberto aqui em casa, chefe, meu brother mexeu. Sério.

hjk Aceitando freelance, galera.

plm Detesto gente que diz que sou fake, spam ou robot só pq tenho 173430 seguidores e uma foto bonita. #inveja é uma merda.

abc Cadê a @plm?

abc Welcome, @plm2! Bela foto!

plm2 Outra conta apagada. Twitter me chamou de spam. Não é verdade!

abc @plm2 twitter #fail. Viva @plm2!

qap Twitter virando orkut. Quanta futilidade!

qap Banana acabou, mas ainda tem açaí. #partiu

nml Deus era mau, e assassino sem caráter. Mandou matar mulheres e crianças.

nml tinha uma Formiga em cima da tecla shift – esperei pra escrever o nome de sua espécie pra esmagá-la. Sinto-me realizado #prazer

As sequências de twits acima são ficcionais, mas baseadas em fatos reais. Qualquer nome de usuário existente de verdade no twiter é mera coincidência. Em um ou outro caso, talvez não.


Cacos

22/ago/2009

Após girar a chave com todo o cuidado e entrar em casa com os sapatos nas mãos, tentando não fazer barulho, Olavo fechou a porta atrás de si. A luz acendeu como que sozinha, para sua surpresa. Próxima ao sofá estava sua mulher. Reclamou do horário, reclamou da vida e da incerteza. Olavo nada disse. Caminhou até o minibar, pegou uma garrafa de whisky e encheu uma dose. Sua esposa reclamou do whisky, da falta de atenção e da indiferença de Olavo.

- Chega em casa essa hora e ainda vai beber, sem falar comigo? A vagabunda que estava com você não tinha bebida em casa? Vai continuar me ignorando? Seu cretino, sua filha tava esperando pra mostrar o desenho que fez na escola. Falou nisso o dia inteiro, e você com alguma vadia por aí?

Olavo perdeu a paciência. Socou a mesa com uma mão e jogou a garrafa na parede. Sua esposa se apavorou. Correu para o quarto e trancou a porta. Olavo saiu novamente. Lia, a filha do casal, assistiu escondida a cena. Chorando, inocentemente juntou os cacos e pôs em uma sacola de lixo. Caminhou descalça até o portão e jogou a sacola no cesto externo.

Cinco horas da manhã, o caminhão de lixo encostou, fazendo estrondo. Um gari desceu e pegou as sacolas no cesto de lixo de Olavo. Não viu  que um caco proeminente rasgou uma delas. Machucou-se e largou a sacola, espalhando vários cacos.

- Saco, quem foi o desgraçado que jogou lixo desse jeito? Esses pedaço de merda não fazem nada direito.

Com a mão sangrando, deixou tudo como estava e subiu no caminhão para mais algumas horas de serviço, desta vez com a mão rasgada.

Na penumbra ainda mal iluminada pelo azul escuro dos primeiros raios do dia e pelos postes com poucas lâmpadas ainda funcionando, um morador de rua seguia enrolado em seu tapete, furtado de um varal no dia anterior para servir de casa, cama e cobertor. Enxergava mal, e não via sequer seus pés naquela sombra, quanto mais os cacos à sua frente. Pisou dolorosamente em um deles. Soltou palavrões e chutou  um caco grande para a rua. Saiu arrastando um pé, pintando a calçada de sangue, e esperou na fila até um posto de saúde próximo dali abrir.

Na primeira hora da manhã, um homem pedalava rumo ao trabalho. Despreocupado, aproveitando o vendo frio no rosto, não percebeu que o pneu dianteiro seguia para um enorme caco de vidro. O pneu rasgou, a bicicleta dançou, e o desequilíbrio levou o homem o chão. Sofreu apenas alguns arranhões, mas seu pneu estava inutilizado.

Tinha saído cedo de casa para chegar a tempo na empresa. Abandonou o carro por consciência ecológica e pelo trânsito caótico. Agora teria que empurrar sua bicicleta e ter a sorte de achar uma borracharia.

- Tem que ser muito mau e filho de uma meretriz para deixar um caco desse no meio da rua só pra alguém se machucar – comentou consigo mesmo.

Lia abriu o portão, e sua mãe tirou o carro para levar a filha na escola. Ao passar pelo lixeiro, a mãe viu a sacola e os cacos no chão.

- Malditos garis que não fazem o trabalho direito. Que ódio.

Lia sentiu um pouco de culpa, mas logo concordou com a mãe. A culpa só podia ser da coleta de lixo. Ambas com suas olheiras, logo esqueceram o fato durante o caminho.

Olavo chamou seu subordinado até sua sala.

- Por que você chegou quinze minutos atrasado?

- Dez minutos, o senhor quer dizer. O pneu da minha bicicleta estourou em um caco que algum cretino deixou no meio da rua. Tive que achar uma borracharia. Corri feito louco pra chegar aqui – disse o subordinado, acreditando que receberia compaixão.

- Não quero saber de desculpa. Bicicleta? Você é algum pivete indo pra escola? Vou carimbar falta hoje.

O subordinado não disse nada, pelo menos ao chefe. Saiu, e naquele dia indicou uma empresa concorrente a seis clientes fiéis.

Olavo saiu mais cedo naquele dia, sem dizer nada a ninguém. Não foi pra casa, entretanto. Bebeu por algumas horas em um bar antes de resolver ter coragem de ir pra casa. Saindo do bar, perto de seu carro encarou um mendigo que estava sentado na calçada. O homem, enrolado em um tapete, o abordou.

- Chefe, não tem um trocado pra eu comprar remédio pro meu pé? O postinho só fez um curativo, mas eu preciso de remédio, senão vai piorar.

- Não tenho merda nenhuma a ver com seu pé. Passa.

- Chefe, tem dó aí.

- Tô tão bebim quanto tu. Tem dó tu de mim.

Ainda bêbado, Olavo chegou em casa perto das onze. Sua esposa não estava. Dormiu no sofá. Acordou  perto das seis horas e viu ao seu lado o desenho de Lia, certamente deixado ali para quando acordasse sóbrio. Chorou desesperadamente com o desenho nas mãos. Foi ao quarto, mas sua esposa não estava lá. A emoção que o desenho foi substituída por ódio intenso. Imaginava que a esposa queria dar o troco.

E ela não demorou a chegar. Ouviu o carro estacionando, e foi logo ao seu encontro, esbravejando.

- Quis me dar o troco, né, vadia? Eu não tava te traindo, mas você foi dar uma de prostituta e dormir com alguém. Agora você vai saber o que é ter um marido cretino.

A mulher ficou pálida. O marido saiu pelo portão chutando as coisas no caminho. Ela entrou, deixou a Bíblia em cima da mesa e encheu um copo com água. Bebeu e, num súbito ataque de raiva, lançou o copo contra a parede, correndo depois para seu quarto, chorando. Lia, que assistiu a tudo escondida, juntou os cacos e jogou fora a sacola, como já estava se acostumando a fazer. Tanto que não chorou dessa vez.


Rick Trog Maldito

20/ago/2009

Henrique entrou na livraria, virou à esquerda e foi para a seção de literatura estrangeira. No meio do caminho, de passagem, resolveu checar o preço de um livro de Schopenhauer na estante de filosofia. Virou-se para o informador de preços, alinhou o código de barras do livro ao leitor e, antes que a máquina fizesse bip, o Universo à sua volta parou, ficou palpavelmente escuro e vazio, à exceção de um feixe de luz que parecia vir de um ponto infinitamente distante e iluminar apenas um ser que estava a alguns metros dele.

Com o braço ainda estendido e o livro ainda alinhado ao leitor de códigos, pasmou e sentiu o frio na barriga que indica que a situação está muito boa ou péssima, dependendo do contexto. No caso específico, para Henrique a situação era épica. A seis passos e um antebraço com mão estendida de distância estava Popman. Não apenas um homem popular, mas Popman, o blogueiro, o ícone, o exemplo, seu um milhão de visitas mensais e seus 700 contos no AdSense.

Henrique sentia calor e sorria sozinho. Estava testemunhando um blogueiro profissional comprando livros com o dinheiro do AdSense. Era o nirvana. Por um instante pareceu que procurar imagens da Jessica Alba na web dava menos prazer que a contemplação que vivia ali, naquela livraria, com a mão direita segurando algo mais nobre. Tal impressão, entretanto, só durou até a próxima visita ao Google Images, quarenta e seis minutos depois.

- Moço, posso ver o preço aí?

Henrique acordou, caiu de volta em seu desconfortável Universo, e viu uma jovem olhando para ele com um exemplar de Lua Nova na mão. Desprezou-a por tirá-lo de seu momento especial. Por algum motivo, lembrou de sua mãe batendo à porta do quarto. Odiou a moça também pelo livro que ela trazia na mão. Contudo, sem fazer qualquer menção de seu desprezo e ódio, cedeu a vaga.

Para sua surpresa, Henrique viu que Popman ainda estava ali. Seu subconsciente entendeu como uma dádiva: Popman caíra no mundo dos vivos para que Henrique, jovem mantenedor do TrogloditaMaldito.com, desfrutasse da presença do mestre. Manteve o livro de Schopenhauer na mão, querendo causar uma boa impressão. Levou o exemplar junto ao peito, como um galã da década de cinquenta segurando um buquê esmerado.

Andou os seis passos, reservando a distância correspondente ao antebraço com a mão estendida para o cumprimento que em breve selaria o encontro de sua vida. Popman o encarou meio sem entender. Henrique vacilou por poucos segundos, abrindo a boca sem que a voz saísse, mas enfim falou.

- Diz aí, Popman. Sou o Rick do TrogloditaMaldito.com. Já comentei no seu blog. Seu post com o vídeo gravado no celular mostrando o senador escolhendo nabos no mercado foi sensacional. Eu ri.

- Ah, sim. Valeu. – Popman agradeceu o elogio, mas Henrique entendeu que o “ah sim” se referia à lembrança do comentário feito no post do vídeo, que tinha 491 respostas. Nunca soube que estava enganado. Partindo de seu erro, entretanto, resolveu tentar a sorte.

- Tem um link pro PopBlogMan lá no Troglodita Maldito. Recebeu algumas visitas de lá? – uma pessoa comum não perceberia o sentido oculto, mas um blogueiro sabe que essa construção de palavras aparentemente inocente significa “lembra-te de mim quando entrares no teu reino”.

- Ah, sim. Manda o link que eu ponho lá – um blogueiro sabe que esta resposta chegou aos ouvidos de Henrique como “hoje mesmo estarás comigo no paraíso”, mesmo que Popman estivesse olhando para revistas aleatórias na estante.

- Vou nessa, cara. Tenho muita coisa pra escrever hoje ainda – despediu-se Henrique, mentindo.

- Ah sim. Valeu – disse Popman aliviado, finalmente podendo pegar o exemplar da Sexy.

Henrique deixou o livro na estante quando Popman se virou, e saiu sem comprar nada, tentando realmente parecer ocupado. “Eu tenho que twitar isso”, pensou ao sair da livraria. Correu para casa, e a primeira coisa que digitou ao abrir o navegador é registrada abaixo.

@RickTrogMaldito Conversei com o @MrPopBlogMan agora há pouco na livraria. Super gente fina e muito inteligente. Abraço, Popman!

Passou a seguir os comentários de @MrPopBlogMan, já que agora tinha certeza que haveria reciprocidade. Só seguia quem o seguia, mesmo que fosse Popman. Tinha uma reputação a zelar no Twitter. Mandou uma mensagem para @MrPopBlogMan: “Aí, cara, o link é TrogloditaMaldito.com. Valeu, foi muito bom te conhecer”. Sentiu-se realizado por três minutos, mas um vazio repentino o impeliu para o Google Images. Foi feliz com Jessica Alba até um toque na porta convidar para o jantar.

Popman marcou como spam mensagens de um tal Troglodita Maldito, nome que não o fazia recordar de nada. Folheou a Sexy recém adquirida. Não gostava de mulheres digitais ou reais. Preferia as impressas em papel mesmo, podendo tocar sem ter que limpar manchas de digitais na tela ou explicar seu mau desempenho. Foi feliz com várias mulheres até o celular tocar. Era o advogado. A audiência do processo contra ele no caso do senador dos nabos seria dali a dois dias.