Eram outros tempos quando Ignacia Breitner estava em seu auge, mas mesmo hoje qualquer um que a visse seria obrigado a ter uma reação, fosse boa ou ruim. Uma moça fascinante, há que se dizer. Bela, porém discreta; elegante, educada, inteligente e bastante ciente das coisas à sua volta e sua relação com essas coisas.
Tida como confiável por todos que a conheciam, gostassem dela ou não, poucos recuavam seus conselhos, e não raro era atendida em seus apelos. Guardava-se de relações com os poderosos, mas tinha muitos amigos entre os mais simples. Recusava favores grandiosos de pessoas dos altos círculos políticos do país, que a cortejavam com insistência, e constantemente era vista como uma voz ativa em causas que atingiam os mesmos altos círculos. Seu conflito com o poder estabelecido não se refletia na sua lida com os semelhantes, sempre tratados com paciência e distinção.
Já sua relação com sua pequena família era instável. Seus antigos laços na Itália estavam bastante desgastados, apesar de seu nome, mas vínculos com o passado não faltavam. Agarrava-se com força aos seus ascendentes alemães expressos em seu sobrenome, e também em suas raízes inglesas e até mesmo orientais, de onde buscava herdar alguns traços pessoais, mesmo que de forma pouco natural.
Muito se poderia dizer sobre esta respeitável e amável senhorita, e sobre seu anseio por um grande casamento, mas, agora, não é o que se pretende nesta narrativa, que, após a breve e necessária apresentação, começa em um momento bastante peculiar e traumático da vida de Ignacia. Justamente quando tudo parecia bem, quando Ignácia crescia em beleza e bons feitos, uma doença terrível a alcançou. Ela sofreu uma ruptura em seu controle sobre o próprio corpo. Abaixo da cintura seu corpo ficou independente, como se respondese por si próprio, ignorando o que o restante de Ignacia queria.
Não foram poucas joelhadas no olho, cotoveladas na coxa, tapas na panturrilha e tropeções propositais. Sozinha, não teve apoio de seus parentes distantes, que sofreram da mesma doença no passado. O que Ignacia parecia esquecer, mesmo conhecendo a história de sua família, era dos efeitos terríveis que tal doença tinha. Ao invés de buscar tratamento, processeguiu em sua ridícula e incessante pequena guerra civil, que teve um aparente fim violento e insano.
Ao término de mais uma longa discussão que se estendeu por dias, um rasgo surgiu na pele de Ignacia, perto da linha de cintura. Horrorizada, Ignacia percebeu que suas pernas faziam uma terrível força para o lado contrário da cabeça. Os braços tentaram suportar o puxão, o que apenas piorou o estado das coisas. O rasgo cresceu e se tornou profundo. Sangue começou a jorrar e a ferida se tornava irrecuperável devido ao esforço impassível das pernas de Ignacia. Os órgãos internos ficaram expostos e, com um terrível e agoniante som, a espinha se partiu. Ignacia rompeu-se em duas, à vista de muitos, que não entendiam, mas paravam para ver, impressionados com o espetáculo macabro.
Após um tempo de imobilidade, as duas partes começaram a ter espasmos, que logo se transformaram em movimentos deliberados. As pernas se levantaram saltando e, ainda ensanguentadas, foram até o restante do corpo, aproveitando para dar um forte chute nas costelas de meia-Ignacia, que respondeu à outra meia-Ignacia com cotoveladas e insultos.
Passada essa vil despedida, viraram-se e seguiram caminhos opostos: as pernas caminhando resolutamente, e o tronco arrastando-se com os braços, mantendo um olhar altivo, repetindo “eu sou Ignacia” firmemente por onde passava. Quando isso ouviram as pernas pensaram (em conformidade com o que pernas pensariam em situação semelhante): “precisamos de uma boca para responder à altura “.
Escrito por Teo Victor
